Antes de entrarem num teatro, os espectadores já sabem que o palco e as três paredes à sua volta serão pretas. Sabem-no, mas não pensam nisso, nem o questionam. Esta “normalidade inquestionada” da caixa preta cénica é o rastilho do manifesto contra as convenções sociais que o Teatro Praga apresenta em Zululuzu. “Caixa negra racista”, feita a pensar exclusivamente em atores brancos, é apenas uma das acusações que lhe são feitas, a plenos pulmões, pelos oito atores em cena. “Quisemos tornar visível a norma e a presença de um poder que, habitualmente, é invisível”, explica José Maria Vieira Mendes, autor e encenador, em parceria com André e. Teodósio e Pedro Zegre Penim.
Um dos períodos mais obscuros da biografia de Fernando Pessoa, a década que passou na África do Sul durante a sua adolescência (1896-1905), é o pretexto para o choque entre uma certa ideia de Portugal (“luzu”, corruptela de luso) e da África do Sul (berço do povo Zulu). A narrativa oficial é a de que África não terá marcado Pessoa – só no final da vida invocou o “luar africano” num poema. Mas qual é a África que deveria revelar-se em Pessoa? A dos safaris? Do pôr-do-sol? Ou de todos os outros clichés que lhe associamos? Em cena, é apresentado um guia para performances sobre África que inclui desde a mutilação genital feminina à hashtag ILoveAfrica. “O que defendemos é que África do Sul está inevitavelmente no Pessoa porque ele esteve lá”, diz José Maria Vieira Mendes. Com 72 heterónimos e semi-heterónimos, Fernando Pessoa é perfeito para mostrar como todos somos muitas pessoas numa só, é o cliché ideal para combater… clichés.
Um corrupio de “manifestantes” (entre eles, uma árvore) trazem as suas perspetivas enquanto minoria esmagada pela maioria e o palco vai sendo atravessado por painéis coloridos com zululuzus como Godard, DiCaprio ou Pablo Escobar… Um gesto de quase colonização do palco. Fazendo uso do pensamento feminista, pós-colonial ou queer, questiona-se “como uma minoria pode fazer ouvir a sua voz sem ser apenas tomada como minoria, mas sim pela sua própria identidade”.
Este “drama em gente” (expressão usada por Pessoa em O Marinheiro, uma das suas raras incursões na dramaturgia), é também um “drama de agentes minoritários”, explica o encenador. “São figuras que têm direito a poucas linhas na História e que trazemos para o centro”, acrescenta. Mas este é um manifesto que nem sempre se leva a sério, há canções pelo meio, para “desanuviar o ambiente”, explosões de dança e cor e pérolas desafiadoras como “Deus quer, a bicha sonha, o show nasce”. Uma mistura de realidades que nos conduz do particular ao antiparticular de forma inesperada (e nada linear), como já nos habituaram os Praga.
Esta diatribre festiva propõe um olhar sobre a identidade do Outro sem simplificações. Só assim, afirma José Maria Vieira Mendes, “seremos pessoas muito mais livres nas nossas relações e menos preconceituosas”. Só assim seremos todos Zululuzu.

Fazendo uso do pensamento feminista, pós-colonial ou queer, questiona-se “como uma minoria pode fazer ouvir a sua voz sem ser apenas tomada como minoria, mas sim pela sua própria identidade”, explica José Maria Vieira Mendes, autor e encenador, em parceria com André e. Teodósio (na foto) e Pedro Zegre Penim
Alípio Padilha
Zululuzu > Teatro Municipal São Luiz > R. António Maria Cardoso, 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > 15-25 set, qua-sáb 21h, dom 17h30 > €5 a €15