Escondido atrás das estruturas de ferro do cenário, o ator Matamba Joaquim domina a cena. Pouco importa que comece a peça fisicamente relegado para um canto do palco – é a sua personagem, Alboury, quem nos transmite a tremenda força dos homens de ação quando sabem exatamente o que os move.
Os dois homens brancos naquele estaleiro de obras em África, e a mulher francesa que um deles leva para lá, podem até ocupar o centro das luzes, mas a sua instabilidade, o seu nervosismo e até o medo de se verem num ambiente que consideram hostil, onde continuamente sentem necessidade de mostrar quem manda ali, denotam uma fragilidade que, como tantas vezes acontece na vida, tentam esconder através do uso da violência e da opressão.
A força está com Alboury, o homem negro que ali vai reclamar o corpo do seu irmão morto. Este é o ponto de partida da peça Combate de Negro e de Cães, do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès, um texto com tantas camadas psicológicas e relacionais, dentro do contexto colonial, que tentar decifrá-las se torna uma obsessão para o público que se dispuser a isso. Este é, aliás, o interesse maior da peça que está em cena em Lisboa, no Teatro do Bairro, de 5 a 15 de março, seguindo depois para uma apresentação em Leiria, a 27, Dia Mundial do Teatro, no Teatro José Lúcio da Silva.
A encenadora e atriz Zia Soares é fascinada por este texto. Mas quando partiu para a sua encenação, um pormenor a incomodava: quase todo o palco é ocupado pelas personagens brancas; o único negro da peça, ali no canto, atrás da árvore, falando pouco, representa uma invisibilidade que, sendo historicamente precisa, não deixa de estar continuamente perpetuada por este século XXI fora. E, com a cenógrafa Neusa Trovoada, surge a ideia: Alboury vai mudando a estrutura do cenário, empurrando-a para o centro, ganhando território no palco, uma conquista dele, mas também da vegetação, do mato que vai vendendo na luta contra o estaleiro.
O poder de existir
Terá sido esta também a questão fundadora do Teatro Griot, há 16 anos? A invisibilidade? Uma companhia “cuja programação se organiza a partir de reflexões implicadas na construção e na problematização da Europa contemporânea, decorrentes das vivências dos seus membros, que se relacionam com a condição do que é ser artista, negro, imigrante e estrangeiro”, segundo se descreve?
Zia Soares, nascida em Angola há 53 anos, esclarece que “o Griot não surgiu como reação a nada. Nasce da ação”, esclarece. Zia é a primeira mulher negra, em Portugal, a dirigir artisticamente uma companhia de teatro, “o que também é um sintoma e uma consequência daquilo que tem sido a cultura neste país”, até porque, “para início de conversa, até mulheres brancas, há pouquíssimas diretoras artísticas e programadoras de teatro”.
Os atores que viriam a fundar o Teatro Griot juntaram-se pela primeira vez para trabalhar numa edição do África Festival, desafiados pela programadora Paula Nascimento. Poucos anos depois, nasceria a Associação Cultural Griot, de onde emerge a companhia teatral. Originalmente fundada em 2009 pelos atores Daniel Martinho, Ângelo Torres, Miguel Sermão e Matamba Joaquim, não tardaria muito até se juntarem Gio Lourenço e Zia Soares.

O primeiro espetáculo da companhia, Faz Escuro nos Olhos, levado à cena em 2012 no Institut Français du Portugal, com encenação de Rogério de Carvalho, viria a receber o Prémio Nacional VIDArte, atribuído pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e pelas secretarias de Estado da Cultura e dos Assuntos Parlamentares.
“O que queremos fazer vamos descobrindo com o tempo, não há uma missão desde logo estabelecida, estanque, de só encenarmos certo tipo de textos. Vamos avançando. Tanto assim é que desapontámos algumas pessoas que foram ver o nosso primeiro espetáculo. Por sermos atores negros, tinham expectativas de ir ver batuques e danças e viram outra coisa”, conta Matamba Joaquim, 43 anos, nascido em Angola, escritor e ator premiado também no cinema e que pudemos ver em filmes como Banzo, de Margarida Cardoso.
“A expectativa, em primeiro lugar, é de nós connosco próprios. Mas consigo perceber que há um alcance que esta companhia tem hoje, sobretudo na comunidade negra, muito forte. Há uma consistência, um trabalho continuado ao longo de anos e, ao mesmo tempo, sem ter de vociferar coisa nenhuma. Um pouco como o Alboury faz. Acaba por ser um local inspiracional, por exemplo, para uma rapariga negra jovem que, quando nos vê na cena, tem uma capacidade expandida de sonhar”, refere Zia Soares.
“Nunca tivemos a pretensão de ser uma companhia-bandeira. Nos primeiros anos, nós só queríamos existir e existimos a criar. Isto acabou por ser como uma pedra no charco em que as gotas foram respingando nas pessoas e foram-nas aproximando, sentindo uma identificação connosco”, acrescenta Matamba.
Os atores da companhia seguem os seus percursos individuais e vão acertando agendas na hora de criar uma nova produção do Griot. Ao longo dos anos, a companhia acabou por marcar também a nível comunitário. Além de trazer novos públicos ao teatro, nomeadamente entre as comunidades de origem africana, tem forte intervenção a nível local.
Miguel Sermão, 50 anos, ator e encenador com uma longa carreira no Teatro da Comuna, além de um percurso também no cinema e na televisão, desdobra-se ainda em oficinas de teatro e workshops junto de comunidades periféricas. O Griot, através do seu PIcK – Projeto de Intervenção com a Komunidade, já trabalhou até com jovens reclusos, com o texto de A Tempestade, de Shakespeare. E é Miguel, um dos fundadores, quem resume o significado da palavra “griot”: “Mais do que um contador de histórias, é um guardador de memórias.”
O Teatro Griot tem várias casas, passando por várias salas, mas a ausência de um espaço para a companhia já pesa, como nos conta Daniel Martinho. O consagrado ator nascido em Luanda há 63 anos, e que já vimos em filmes de Luís Filipe Rocha, Jorge Silva Melo ou Alain Tanner, é o presidente da companhia e sonha com um espaço próprio onde possam ter uma sala de ensaios.
Depois de uma longa carreira no teatro, no cinema e na televisão, nota que, apesar de todos os avanços, os papéis de representação ainda têm cor, sobretudo na televisão. “Chama-se um ator negro para fazer de negro. Porque não podemos ser simplesmente chamados para fazer de advogado ou engenheiro, até refletindo aquilo que já é a sociedade?”
E é por essas e por outras que as pedras precisam de continuar a cair nos charcos. Ainda que seja apenas existindo.
Teatro do Bairro, Lisboa > 5-15 mar, qui-sáb 21h30, dom 17h > €10, €12,50. Teatro José Lúcio da Silva, Leiria > 27 mar, sex 21h30> €10 a €13