O primeiro-ministro decidiu que devíamos ter eleições antecipadas. Quis que o esclarecimento das fundadas suspeitas sobre possíveis comportamentos pouco éticos ‒ o Presidente da República chamou-lhe julgamento moral ‒ fosse feito pelos eleitores e não por uma comissão parlamentar de inquérito.
Como ainda vivemos numa democracia plena e não na sua versão húngara, aqui as eleições não servem para limpar falhas éticas, fugir ao devido escrutínio ou ‒ não estando neste momento isso em causa ‒ ultrapassar a lei, ou seja, a fuga para a frente de Luís Montenegro não é mais do que um adiar das respostas e esclarecimentos que tem de dar. Este permanente acumular de assuntos mal explicados e de ações que, segundo o primeiro-ministro, não têm mal nenhum e que passados uns dias são tratados por ele mesmo como problemas reais não pode ficar sem explicação.
Seja como for, vamos ter eleições e não parece que o quadro geral se vá alterar de forma significativa. Não é provável, pelos estudos de opinião que têm aparecido, que o PSD seja muito penalizado por ter atirado o País para uma crise política e um líder que levanta tantas dúvidas e mostra um tão enorme apego ao poder. A economia está bem, há paz social, os grupos sociais normalmente mais vocais no protesto estão apaziguados e, no limite, esta combinação é muito poderosa num confronto eleitoral. Já foi mais e há vários exemplos recentes que mitigam está lógica estabelecida, mas terá sempre efeito.
Por muito que o PS reclame méritos nestes resultados, os eleitores tendem a premiar quem está no poder. Digamos que o PS tem historicamente pouca moral para fazer esse discurso, já que o seu historial de contas certas e de deixar heranças pesadas é o conhecido.
Por outro lado, os socialistas têm estado no poder demasiadas vezes e, justa ou injustamente, isso traz sentimentos de rejeição primários difíceis de ultrapassar. No mesmo sentido, a sua liderança está longe de inspirar confiança. Os erros e precipitações de Pedro Nuno Santos enquanto governante ainda estão frescos na memória dos portugueses e não houve tempo para preparar uma proposta alternativa robusta.
Apesar das surpresas que temos tido nos últimos atos eleitorais, não é difícil prever uma vitória poucochinha do PS ou do PSD. Também não será preciso uma bola de cristal para se dizer que nem os socialistas terão uma maioria absoluta com os partidos à sua esquerda nem o PSD a atingirá com a IL. E convém lembrar que este quadro não aparenta ir mudar nos próximos anos. Bem sei que é uma opinião que hoje não é popular, mas estou convencido de que o Chega manterá a sua força eleitoral ou, pelo menos, não terá grandes oscilações.
Resumindo, o País vai ser confrontado com a hipótese de ter um novo governo de seis em seis meses (ou menos), um acordo entre o Chega e o PSD ou um entendimento PS/PSD.
Não é preciso discorrer longamente sobre as consequências para o País de uma instabilidade política permanente. Fiquemos apenas pela descrença na democracia que a impossibilidade de tomar decisões trará. Talvez lembrar que a conversa que se vai ouvindo de que a economia continuará a crescer e que tudo funcionará sem governos estáveis é das maiores barbaridades que se podem dizer. Em nenhum país isso aconteceu ou acontece, o que seria num em que tanta gente depende do Estado e que continua carente de reformas? Mais, um país sem uma liderança sólida no momento internacional em que vivemos é pouco menos que suicida.
A segunda hipótese é um acordo PSD/Chega. Luís Montenegro já voltou a anunciar que é impossível, só que não é certo de que ele seja líder do PSD depois das próximas eleições. Não me parece que saia mesmo que as perca ‒ nunca um líder do partido teve tanto controlo sobre a máquina ‒, mas o fantasma de Massamá pode ser um problema para ele e recorrendo ao pouco otimismo que me resta sobre o partido diria que pode ser que haja uma réstia de vida inteligente que traga outras soluções.
Infelizmente, desconfio do empenho de Montenegro numa solução sem o Chega (voltando ao que disse nas eleições internas do PSD) e estou firmemente convicto de que Passos Coelho faria de imediato uma coligação com o seu delfim Ventura.
Um acordo destes teria duas consequências imediatas: a morte do PSD como o conhecemos e a chegada ao poder dum partido que quer acabar com a democracia. Sequer enunciar um entendimento entre um partido que se designa social-democrata com outro de extrema-direita basta para não me parecer debatível o que este possível acordo faria ao PSD – o aparecimento de um novo partido ao centro seria inevitável. Ver um partido antidemocrático no círculo do poder é suficiente para que qualquer democrata dentro do PSD rejeite esta hipótese. E só quem não conhece o historial recente e passado de acordos deste tipo é que consegue falar de assimilações das forças de extrema-direita pelo centro-direita.
A terceira possibilidade é o bloco central formal. O informal existiu e foi decisivo para o País. Foi o que permitiu, através de acordos de regime mais ou menos declarados, fazer a maior transformação social, económica e cultural da nossa história, foi o que criou as condições para que chegássemos a um bem-estar que as gerações anteriores nem conseguiam sonhar.
Sempre fui contra uma solução que juntasse os dois partidos numa coligação ou sequer com acordos de incidência parlamentar que fossem para lá de questões de regime. As razões são simples.
O ideal para o sistema é o PSD e o PS, os partidos do centro, alternarem na governação. Uma democracia só funciona e prospera quando os partidos centrais do sistema comungam princípios fundamentais e se consegue manter uma continuidade de políticas importantes. Mas é fundamental que mudem as pessoas, o modo de governar e que muitas das opções sejam diferentes.
Por outro lado, quando os partidos do centro se juntam, a oposição e a contestação fica nos extremos e isso quase inevitavelmente faz crescer projetos sem soluções, mas apenas de protesto. Pior, na presente conjuntura faz crescer mesmo movimentos contra a democracia.
O período que vivemos é, porém, particularmente grave.
Internamente, temos um crescimento sem precedentes de sentimentos antidemocráticos e tanto os acontecimentos recentes como a crise política contínua em que viveríamos, sem soluções estáveis de governação, fariam com que mais pessoas se desencantassem com a democracia. Sim, pior do que a contestação se concentrar nos extremos seria o abandono dos ideais democráticos por partes significativas das populações, causado pela instabilidade e pelo decréscimo das condições de vida (que tudo indica acontecerá).
Externamente, vivemos a maior transformação do panorama internacional desde o fim da II Guerra Mundial, um clima de pré-conflito global e um mundo que ninguém faz ideia para onde está a ir. Decisões fundamentais, duras e pouco populares vêm aí e vão exigir consensos alargados, que só os dois partidos centrais as podem implementar e promover.
Claro está, o nosso clima político está para tudo menos para consensos ou sequer acordos. Não exatamente porque as propostas políticas difiram muito, mas porque se trocou a troca de ideias pelos ataques pessoais. Já não há adversários, há inimigos. O normal e saudável clima de ter amigos no outro lado político parece ser um hábito que ficou nos anos 90.
Esperemos que as lideranças dos principais partidos recuperem algum bom senso ou que aquelas que apareçam o tragam.
Não há soluções perfeitas e riscos não faltam, mas não consigo discernir melhor solução para os próximos tempos do que a imperfeitíssima solução Bloco Central.
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