Após a pausa de férias, o Olho Vivo, programa semanal de análise política e económica da VISÃO, regressou, esta quinta-feira, com o debate sobre os principais temas da atualidade nacional (e não só). A uma distância de dois anos e meio, e com eleições regionais, europeias e autárquicas pelo meio, a agenda política foi sacudida pela tomada de posição de alguns protocandidatos às eleições presidenciais de 2026 – Pedro Santana Lopes e Marques Mendes – e pelo surgimento de diversos nomes, à direita e à esquerda, que podem estar a preparar uma candidatura a Belém. Como disse o diretor executivo da VISÃO, “uma vez que não há candidatos naturais óbvios, como foram Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva ou Marcelo Rebelo de Sousa, esta é uma ‘corrida aberta’, que permite todas as hipóteses”.
O verão foi também abalado pelo veto presidencial ao pacote Mais Habitação, o que confirma um novo clima entre Belém e São Bento e um afastamento, entre Marcelo e António Costa, que, depois do caso Galamba, parece irreversível. No fundo, voltamos a citar Rui Tavares Guedes, “ambos pretendem deixar um legado, ao fim de dez anos no cargo, caso de Marcelo, ou, provavelmente, 11 anos, no caso de Costa. No final dessa década, qual desta figuras será mais bem recordada pelo País?”
Relativamente às presidenciais, a diretora da VISÃO Mafalda Anjos, pormenoriza o calendário: “As presidenciais de 2026 vêm longe – pelo meio ainda há, já no próximo mês, regionais na Madeira, depois virão eleições europeias em junho do próximo ano, regionais nos Açores, outubro, e eleições autárquicas em 2025 –, mas é a corrida a Belém que está no centro das atenções.” E porquê tão cedo? “A discussão é extemporânea e serve apenas para sinalizar interesses”, continua Mafalda Anjos, “e mesmo o de Marques Mendes não é definitivo; ele disse que, se for útil, pode avançar, e podem não se reunir as condições para ser útil. Por exemplo, se Passos Coelho decidir avançar”. No entanto, para a diretora da VISÃO, o “sebastianismo” de Passos Coelho não é tanto para as eleições presidenciais, mas sim para legislativas: “O seu perfil é claramente executivo e está mais talhado para salvador do PSD, caso este não consiga descolar”.
Filipe Luís, editor executivo da revista, ressalva que a antecipação dos calendários não é inédita, entre nós: “Jorge Sampaio, por exemplo, lançou a sua candidatura – ou falou da hipótese de se candidatar – dois anos antes das presidenciais de 1996. O historial das presidenciais está cheio de antecipações, de surpresas e de falsas partidas. E ainda podem surgir outros nomes. Se, por exemplo, António Guterres quisesse terminar a sua carreira política em Belém?…”
“Não seria caso único,”, responde Rui Tavares Guedes. “O austríaco Kurt Waldheim foi presidente da Áustria depois de ter sido secretário-geral da ONU…” O diretor executivo sublinha que, “acima de tudo, esta será uma maratona que apenas se definirá no fim”. E conclui: “Por isso, o que importa não é como começa, mas sim como acaba; agora, o que temos são candidatos a quererem, por enquanto, marcar território, como sucedeu, do lado da direita, com Marques Mendes, e outros que se recusam, por enquanto, a atirar a toalha ao chão, como Santana Lopes e Paulo Portas, além de continuar a existir a hipótese de Pedro Passos Coelho.”
E do lado da esquerda? Rui Tavares Guedes considera que os mais presumíveis candidatos são Augusto Santos Silva e Mário Centeno: “Em termos de combate político, nos frente a frente na televisão, o duelo mais estimulante, combativo e ‘entretido’ seria, no entanto, entre Santos Silva e Marques Mendes”, afirmou. “São ambos comunicadores super-experimentados, capazes de proferir frases que ficam na memória, e com o killer instinct que anima qualquer debate.” Mafalda Anjos realça o perfil de Centeno que, devido ao seu currículo de homem de contas rigorosas, pode colher simpatias, também, ao centro direita. E Filipe Luís não tem dúvidas: “Pode abarcar um eleitorado mais abrangente do que Augusto Santos Silva, este muito mais marcado do ponto de vista ideológico, e, assim, ter mais garantias de sucesso eleitoral”. O editor executivo não acredita na candidatura de Gouveia e Melo: “Seria o Fernando Nobre de 2026: não teria máquina eleitoral no terreno, não ultrapassaria uma percentagem modesta e ainda se arriscaria a prejudicar a sua imagem”. E os seus companheiros de painel também mostram grandes reservas à candidatura do almirante: “Termos um PR militar seria um retrocesso”, diz Mafalda Anos. “E, com tudo a acontecer muito rapidamente, hoje em dia, o seu papel na crise pandémica, com o programa de vacinação, já ficou lá muito para trás, no tempo…”, reforça Rui Tavares Guedes.
Sobre as relações institucionais entre Costa e Marcelo, Mafalda Anjos analisa: “Há um antes e um depois do caso Galamba, é mais do que notório. E não se deve menosprezar a capacidade de Marcelo Rebelo de Sousa de jogar jogos florentinos. É o presidente mais imprevisível que Portugal já viu, e pode sempre surpreender. Não dou nada por garantido: nem que não há dissolução, nem que há convivência crispada. Marcelo andará ao sabor de três fatores: a opinião pública, a estabilidade que a opinião pública preza, e a sua própria popularidade, que é provavelmente o que mais lhe importa”, analisa Mafalda Anjos.
Já Rui Tavares Guedes considera que “Marcelo está preocupado com o seu legado e com a forma como será recordado no final deste período, em que dividiu o poder com Costa”, afirmou.
“O primeiro mandato de Marcelo foi o da colaboração sem limites com o Governo, como uma dupla, que transmitia confiança. Esse tempo acabou. Marcelo sabe que desiludiu muito do eleitorado de centro-direita, por causa da forma como apoiou Costa. Agora, está interessado em recuperá-lo – para poder ser lembrado como um Presidente que deixará saudades – tanto à direita como à esquerda”, considerou.
Por isso, para Rui Tavares Guedes, os próximos tempos vão ser marcados por um Presidente e um primeiro-ministro que seguem em linhas paralelas, em direção a um mesmo destino, mas sem se preocuparem em estabelecer pontes entre um e o outro.
Filipe Luís sintetiza: “Depois do caso Galamba, tudo mudou entre Costa e Marcelo. O PR é avesso ao confronto direto, mas deu por finda a cooperação institucional, pelo menos, ao nível da substância das politicas do Governo, como se viu no demolidor libelo contra o pacote Mais Habitação. Claro que tudo será pontuado por momentos mais distendidos – afinal, os protagonistas mantêm uma boa relação pessoal. O que teremos, doravante entre o PR e o PM, será uma ‘relação duche escocês’, um permanente quente-frio institucional.
Os lucros e a venda da TAP, o caso do beijo de Rubiales e algumas frases inspiradoras encontradas nas leituras de férias foram outros temas abordados.