“Deixem-me dormir, preciso de sonhos” é o título da ilustração de Elisabete Ferreira (2008) que tenho pendurada no quarto. Foi-me ofertada por amigos com quem partilho atividade onírica que os envolve, como faço com os que me são mais próximos. Ainda esta manhã (alguns obstarão a que fosse de manhã, mas garanto que, algures no mundo, o era) partilhei com familiares e amigos sonhos em que eram protagonistas. Por terem protagonismo na vida “real” (a minha sobrinha mais velha, quando apenas uma criança era, partilhou convicta a reflexão – plasmada no poema “A cadeira de Newton”, de Ana Marques Gastão (2023) – de que “se sonho, existe; o sonho é real”. Sabedoria que transvasa o seu nome e que pode ser vista como a expressão infantil da questão de Paul Watzlawick (1976) “A realidade é real?”) e tal ser deste modo ilustrado. Não é o “Sonho dos outros” do Bernardo Sassetti, mas o “sonho com os outros”.
A qualidade da relação com esses Outros (cônjuge, familiares, amigos, colegas, chefias, enfim… pessoas) influi também na qualidade do sono, sendo recíproca essa influência e, potencialmente, com efeito de escalada e não se circunscrevendo na esfera relacional, mas (também reciprocamente) com efeitos ao nível do desempenho laboral (aliada, por exemplo, a dificuldades de concentração ou memória), saúde física (como sistema imunitário, regulação metabólica, recuperação muscular ou sistema cardiovascular) e psicológica (com destaque para a regulação do humor, irritabilidade e ansiedade) e bem-estar geral.
É de bem-estar que canta Nina Simone no seu “Feeling Good” (1965), sintetizado em “Sleep in peace when day is done, that’s what I mean”. O “dormir em paz” que requer paz (note-se que a perturbação de stress pós-traumático, que inclui alterações de sono como sintoma, tem a sua génese histórica em veteranos de guerra, vindo ulteriormente a contemplar a exposição a outros eventos). No seu livro “Não dormir”, Marie Darrieussecq (2025) refere o fenómeno Trump-induced insomnia, lastimando o seu caráter duradouro, como duradoura é a insónia (como “ininterrupto prolongamento da miséria”) de quem se vê privado da segurança (também financeira) de um quarto(sobre cuja história se debruça Michelle Perrott). Não creio que seja necessário listar circunstâncias experienciais que o impeçam (e tampouco sugiro se faça tal lista como variante do “contar carneiros” para adormecer) ou, como descreve Primo Levi (1958) em “Se isto é um Homem”, contribuam para atividade onírica de famintos que sonham (aqui também enquanto desejo) comer.
Necessidades básicas, portanto. Não asseguradas. No dia 13 de março assinala-se o Dia Mundial do Sono, a que se une a Associação Portuguesa do Sono, este ano sob o mote “Dormir bem para viver melhor”. Fundamental. Como o é a garantia de melhores condições de vida para que se durma bem.
Devo findar este texto. Tenho sono. E, sobretudo, preciso de sonhos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.