O Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, celebrado a 3 de dezembro, convida-nos a refletir sobre o caminho percorrido e, sobretudo, sobre o que ainda precisamos de fazer para garantir uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Se há áreas em que o progresso é evidente, há outras em que se continua a tropeçar nos mesmos obstáculos — muitos deles invisíveis para quem não os vive. Entre estas realidades está a experiência das pessoas com deficiência auditiva que, querendo ouvir, dependem de tecnologias de reabilitação auditiva e de tecnologias assistivas para participar plenamente na sociedade.
O que tem sido feito: um avanço que se ouve — quando se pode
Nas últimas décadas, testemunhámos uma evolução notável na tecnologia que apoia as pessoas com deficiência auditiva. Aparelhos auditivos cada vez mais potentes, discretos e inteligentes, implantes cocleares que transformam silêncio em som, aplicativos que legendam conversas em tempo real, sistemas FM, aro de indução magnético, o bluetooth auracast recentemente, e outras soluções que facilitam a comunicação em ambientes complexos.
Estes avanços democratizaram o acesso ao som para muitas pessoas. Crianças que antes enfrentavam barreiras severas no desenvolvimento da fala hoje beneficiam de diagnósticos precoces e de intervenções especializadas. Adultos que perderam audição recuperam a autonomia e a confiança no trabalho, na família, na vida cultural.
Também se registaram progressos na legislação, na consciencialização pública e na formação de profissionais. As campanhas de sensibilização mostraram que a inclusão não é apenas uma questão de empatia, mas uma responsabilidade coletiva.
O que continua por fazer: os silêncios que persistem
Apesar destas conquistas, o caminho da inclusão está longe de concluído.
- Desigualdade no acesso à tecnologia
Nem todas as pessoas que querem ouvir conseguem aceder às tecnologias necessárias. Os custos ainda são elevados, os tempos de espera prolongados e a cobertura pública nem sempre acompanha a complexidade das necessidades. Em muitos casos, a aquisição do dispositivo é apenas o começo: a manutenção, as pilhas, os moldes, os upgrades, os acessórios de conectividade — tudo isso soma valores que muitas famílias não conseguem suportar.
- Falta de acompanhamento especializado e continuado
Reabilitar audição não é simplesmente “colocar um aparelho”. Exige treino auditivo, terapia da fala, ajuste permanente, apoio psicológico e integração social. Muitas pessoas recebem o dispositivo, mas não recebem o acompanhamento adequado, ficando aquém do potencial que a tecnologia poderia proporcionar. - Barreiras na comunicação quotidiana
A sociedade ainda não está verdadeiramente preparada para comunicar de forma acessível. O ruído excessivo em espaços públicos, a falta de microfones e sistemas de som adequados, a ausência de legendagem em muitos serviços e eventos, e a escassa sensibilização de profissionais em setores essenciais — saúde, educação, justiça, atendimento ao público — continuam a criar exclusões subtis, mas reais. - Preconceitos e equívocos persistentes
Ainda se confunde deficiência auditiva com incapacidade intelectual. Ainda se romantiza a tecnologia como solução total, ignorando que cada pessoa é diferente e que o sucesso da reabilitação não é automático nem garantido. Ainda se fala sobre as pessoas com deficiência, em vez de lhes dar a palavra.
O que precisamos de fazer: transformar direitos em realidade
Uma sociedade inclusiva exige ação, não apenas celebração. Há passos concretos que precisam de ser dados:
Universalizar o acesso à tecnologia auditiva, garantindo que o direito de ouvir — para quem deseja e pode beneficiar — não dependa da condição económica.
Investir em programas de reabilitação abrangentes, que incluam terapia, acompanhamento técnico e apoio às famílias.
Promover ambientes sonoros acessíveis e comunicação inclusiva em serviços públicos e privados.
Formar profissionais para compreender a diversidade da deficiência auditiva e responder adequadamente.
Escutar as próprias pessoas com deficiência auditiva, que são especialistas na sua experiência e devem participar na definição das políticas que lhes dizem respeito.
Concluir ouvindo: a inclusão como compromisso diário.
O Dia Internacional da Pessoa com Deficiência não deve ser apenas um marco no calendário; deve ser um lembrete da responsabilidade que temos em construir uma sociedade onde todas as pessoas — ouvintes, surdas, oralizadas, utilizadoras de tecnologia ou de língua gestual — possam viver com dignidade e autonomia.
Para as pessoas com deficiência auditiva que querem ouvir e que encontram na tecnologia uma ponte para o mundo sonoro, o progresso tem sido real. Mas ainda há demasiados silêncios forçados — silêncios sociais, económicos e estruturais — que precisam de ser quebrados.
Incluir é mais do que amplificar o som: é amplificar oportunidades.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.