Hoje, a primeira escolha dos jovens é o digital, o remoto, o “cool” — escritórios modernos, startups tecnológicas, ambientes com mesas de pingue-pongue. Fala-se em inovação, futuro, disrupção — mas raramente se fala de indústria. Poucos ambicionam carreiras industriais, especialmente em novos produtos e projetos empreendedores.
Esquecemo-nos de um facto essencial: sem indústria, não há inovação real. É na indústria que as ideias deixam de ser slides em PowerPoint e se transformam em soluções concretas. O futuro não se constrói apenas com código. Constrói-se com matéria-prima, engenharia, maquinaria e pessoas que literalmente moldam o progresso.
A indústria é onde a inovação ganha corpo. É onde se produzem edifícios, infraestruturas, energia, mobilidade. Sempre foi — e continuará a ser — a espinha dorsal das economias.
Em Portugal, o setor industrial representa cerca de 18–20 % do PIB e emprega quase 25 % da força de trabalho. Além disso, as cinco maiores empresas portuguesas são precisamente industriais.
Durante décadas, deixámos que a indústria perdesse prestígio. Tornou-se “menos sexy”, menos falada e menos desejada. Esquecemos que um engenheiro de produção ou um técnico especializado é tão essencial quanto um programador ou designer. Ignorámos que a indústria também pode ser tecnológica, sustentável e cheia de propósito.
Está na hora de mudar essa narrativa. De dar novamente prestígio a quem veste farda, a quem opera máquinas e a quem transforma ideias em realidade. De comunicar o impacto real da indústria, o seu potencial tecnológico e o seu papel central numa economia sustentável.
Devemos atrair os melhores talentos para um setor decisivo. Mostrar nas escolas, universidades e redes sociais que construir é tão nobre quanto programar, que transformar é tão criativo quanto projetar, e que inovar também acontece com luvas, capacetes e botas, não apenas com laptops.
A indústria é, de facto, o futuro — um futuro verde, tecnológico, ambicioso e cheio de propósito. Mas, para isso, tem de ser vista como tal novamente.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.