
Susa Monteiro
Eu tenho o maior orgulho no meu sangue. Quer do lado da minha mãe quer do lado do meu pai venho de camponeses muito pobres e o meu brasão só tem enxadas. Do lado da minha mãe do Algarve, perto de Lagos, onde o meu trisavô trabalhava no campo e o patrão dele achou que o filho era esperto e resolveu pagar-lhe os estudos. O meu bisavô, que se chamava Joaquim José Machado conseguiu, sabe Deus com que dificuldades, matricular-se na Escola de Guerra e tornar-se oficial de Engenharia. Daí em diante a sua carreira foi extraordinária: construiu o Caminho de Ferro de Benguela, ainda jovem capitão, que uniu uma costa de África à outra, terminando na Beira, onde a minha avó
(para nós sempre chamada de Avô Querida)
nasceu, foi mandando ir os irmãos e pagando-lhes os estudos, foi feito Sir pela Rainha Victoria, foi governador de Moçambique, foi governador da Índia, foi Alto Comissário, etc., etc., no fim da guerra dos Boers acolheu em sua casa o Presidente Kruger, recusando-se a entregá-lo aos ingleses.
(A minha avô contava que, muito criança, antes de ir para a cama o pai mandava-a beijar a mão do Presidente.)
Recebeu todas as condecorações possíveis e imaginárias, desde a Torre & Espada às mais altas honras chinesas pela sua intervenção na Questão de Macau, foi feito Sir pela Rainha Victoria, deixou cidades com o seu nome em Angola, Moçambique e África do Sul, pelo menos, foi uma figura importantíssima do nosso país e tenho pena de não ter fixado melhor o que a minha Avó contava do pai, ela que se chamava Margarida da Beira e cuja mãe, a minha bisavô Mariana, era um a senhora de origem social muito superior à do marido. A minha Avó adorava o pai e nós adorávamo-la a ela, a quem chamávamos Avô Querida. Às vezes, quando nos visitava na Praia das Maçãs, gostava de jogar um bocadinho de bilhar connosco como quando, em adolescente, jogava com o pai, na sala de bilhar do palacete onde moravam, perto de Benfica. A Avó Querida, muito alta, de grandes olhos azuis, continua a ser um dos maiores amores da minha vida, bonita, forte, inteligentíssima e encheu a minha existência de ternura e paixão. Margarida da Beira, minha Senhora, continuo a amá-la como desde que me lembro de existir. Foi o General Machado quem fez Lourenço Marques, actual Maputo, e podia continuar a falar dele durante páginas e páginas, desse homem excepcional filho de um pobre camponês analfabeto, mas tenho que deixar o espaço que falta para o resto do meu sangue, agora do lado do meu pai. A história, aí, começa no Minho, Póvoa de Lanhoso, Frades, onde um outro pobre camponês analfabeto pegou no filho de 12 anos e, para o salvar da miséria, meteu-o, sozinho, num veleiro para o Brasil, onde a criança não conhecia ninguém. Imagine-se um garoto a desembarcar no Rio sem, literalmente, nada. Deve ter arranjado, sei lá como, um trabalho qualquer, não imagino o quê, e foi subindo devagarinho na direcção da Amazónia, de emprego humilde em emprego humilde, até ao norte, onde a borracha e o negócio da borracha começavam a crescer. Chamava-se Bernardo António Antunes e devia ser um rapaz corajoso e cheio de iniciativa porque, ainda adolescente, principiou a prosperar. Casou com uma senhora chamada Josefina e enriqueceu, ao que parece, com rapidez, ao ponto de mandar lavar a roupa a França e fazer anualmente tratamentos de águas em Vichy. Tornou-se riquíssimo, o Imperador fê-lo Visconde da Nazaré, mandou muito dinheiro para a sua terra e quis vir morrer a Portugal. Boa parte dos terrenos onde são agora o Rio e São Paulo pertenciam-lhe. Um dos seus filhos, João de Brito Antunes, meu bisavô, casou com uma senhora chamada Leopoldina
(nome muito comum na época por ser o da Imperatriz)
Leopoldina Danin Lobo, filha de Bruno Álvares Lobo e foi em Jerusalém, quando lá estive a receber o Prémio, que um velho genealogista israelita, antigo hóspede de campos de concentração nazis, me contou a saga dos Lobos, judeus que emigraram para a Holanda no fim do século XVI, para fugirem à Inquisição, e acabaram no Brasil. O meu querido avô, António Lobo Antunes, bem como os seus irmãos, João, Joaquim, Leopoldina e Isabel, foram os primeiros Lobo Antunes. Lembro-me de garrafas de vinho do Porto com o rótulo do Visconde e da garrafa que o meu avô guardou anos e anos para abrir no dia da minha maioridade, porque eu era o futuro visconde. Para grande mágoa sua o vinho estava estragado. Claro que o meu avô e os irmãos tiveram uma vida de estadão e que o Avô Visconde era a grande referência da família. O meu avô mostrava-me sempre o anel
– Quando eu morrer és tu quem o vai usar
e claro que quase não usei, era grande e pesado, passei-o para a minha filha mais velha que o deve ter guardado numa gaveta qualquer porque nos estávamos todos nas tintas para as viscondices, o meu pai, eu e a Zezinha. O avô não, que esteve na revolta de Monsanto e o pagou bem caro, prisão na Penitenciária com os outros oficiais monárquicos e deportação para Tânger, onde não teve uma vida fácil. Permaneceu monárquico toda a vida, foi o homem que mais amei, levou-me a Pádua a fazer a primeira comunhão na Igreja de Santo António, de quem era muito devoto
(como eu sou)
e encheu-me de amor e ternura. Sem ser especialmente inteligente era um homem excepcional de coragem e bondade e forma, com a minha avó Margarida um par de pessoas que estão sempre comigo e de quem me recordo numa névoa de saudade cheia de lágrimas de amor. A minha mãe contava que uma manhã telefonaram aos meus pais a participarem a morte do meu tio João Lobo Antunes. Era pouco mais que madrugada e ela foi com o meu pai dar a notícia ao meu avô, que estava ainda a dormir. O meu pai disse ao meu avô
– Pai tenho uma coisa muito triste para dizer
e o meu avô, em silêncio, ficou de súbito completamente rígido na cama. O meu pai disse
– O tio João morreu.
Passado um tempo o meu avô respondeu-lhe
– Pensava que fosse o António
e, segundo a minha mãe, ele, que era muito ligado ao irmão, parecia aliviado. Nunca ninguém gostará de mim com tanta intensidade. E dói-me tanto nunca mais o poder abraçar, não sentir a sua boca na minha cara, não sentir os seus braços à volta do meu corpo. Eu sei que não mereço mas, por favor, tome conta de mim. Não: por favor continue a tomar conta de mim, como sei que o faz. Preciso tanto de si e não há maneira de ser grande. Diga-me que sou o seu menino para sempre.