Há qualquer coisa de profundamente esclarecedor na forma como uma parte significativa da direita mais trauliteira, perdida politicamente, e de uns quantos, poucos, socialistas ou sociais-democratas, sempre na pele de “comerciais do ar dos tempos” (como eu tenho vindo a chamar-lhes), olham para Espanha e para os EUA. O contraste é tão evidente que não pode ser ignorado.
Em Espanha, o alvo é permanente: Pedro Sánchez e o PSOE, através da exponenciação dos casos e do ruído político transformado em sentença pública lusa. Uma dramatização constante e bastante insana sobre o fim da democracia, a “captura do Estado” que cada nova investigação trata de desmerecer, tornando-a pateticamente desproporcional ou de um suposto atentado institucional. Em Portugal, muito deste discurso é importado sem filtro, com um ecossistema político mediático que trata qualquer polémica em torno do governo espanhol como prova definitiva da decadência moral do socialismo ibérico. Mas basta olhar para os EUA de Donald Trump no movimento trumpista para se perceber o absurdo da comparação. Um Presidente acusado em múltiplos processos, condenado num caso criminal, envolvido na tentativa de subversão dos resultados eleitorais, associado ao assalto ao Capitólio, à pressão sobre instituições judiciais, à intimidação sistemática, ao cancelamento da imprensa e à transformação do Partido Republicano numa máquina de lealdade pessoal. Não é apenas polarização. O trumpismo que, entre portas, significa a Administração mais corrupta e de práticas de nepotismo nunca vistas na História dos EUA, segue a sua erosão deliberada das regras e instituições democráticas. Comparar isto, ou a Hungria de Orbán, com a realidade espanhola não só é análise política pouco séria. Trata-se de propaganda emocional.
Tudo aquilo que pende hoje sobre familiares de Pedro Sánchez e de antigos ou atuais governantes do PSOE, longe de qualquer sentença, não seria merecedor de qualquer investigação nos EUA. E, no entanto, em Portugal, é como se Espanha estivesse à beira de um colapso civilizacional enquanto tantos relativizam, desculpabilizam ou ignoram o que são Trump e o trumpismo para se atirarem a quem melhor o combate no Ocidente: Pedro Sánchez e o centro-esquerda espanhol, naturalmente.
Isto diz bastante mais de nós e do estado lastimável a que chegámos do que pensamos ou queremos perceber. Não seria mais útil e grandioso elogiarmos, criticarmos, apoiarmos ou desfazermos políticas públicas espanholas concretas, a própria política externa daquele país, entre outras, em vez de nos entregarmos à lama e a toda uma polarização política desenfreada que ali existe há muitas décadas, bem antes de ter aparecido Sánchez? Que o diga quem viveu em Espanha nos anos do Aznar e sabe bem o quanto o franquismo nunca deixou de estar vivo.
O adensar da radicalização da política espanhola nem tem em Sánchez qualquer das razões principais. Essa é outra falsificação conveniente. Aconteceu por causa da importação das guerras culturais norte-americanas, do conflito catalão e do crescimento da extrema-direita do Vox. O primeiro-ministro espanhol pode ser criticado por ter feito tudo para sobreviver num ambiente político fragmentado, só que nada disso é equivalente a corroer a democracia.
A questão é que em Portugal já não se analisam estes fenómenos pela gravidade objetiva dos factos. Analisam-se pela utilidade ideológica. Se o alvo é o socialista-ibérico, qualquer suspeita serve para o encaixar no que pretendem: declarar o colapso ético da esquerda. Se o protagonista é Trump ou a nova direita populista e extremista internacional, a contextualização e a reinterpretação são outras!
Isto acaba por esclarecer muito. A forma como se exagera no delírio sobre Espanha, que, não por acaso, é também um dos países mais admirados ou invejados no mundo (porque será?) − oxalá Portugal, oxalá −, e se minimiza o trumpismo, revela uma escolha política e cultural profunda. Revelador também de quem considera a esquerda democrática europeia o verdadeiro inimigo, mesmo quando do outro lado cresce uma corrente política abertamente iliberal, revanchista, que quer destruir a UE democrática e liberal. E que é cada vez mais hostil às instituições e regras democráticas.
A contaminação já está entre nós há muito. Não apenas no discurso dos partidos ou do Chega, mas no ambiente mental do debate público. A suspeita permanente substituiu a análise. A indignação seletiva substituiu a coerência. A lama espanhola passou a lamaçal tuga. Sem nexo. Apequenámo-nos. Importámos guerras culturais, onde o importante já não é a dimensão dos factos e do que foi apurado, mas a tribo a que pertencem os protagonistas.
Ao alucinar e dramatizar Espanha enquanto se normaliza o trumpismo, esta parte da direita portuguesa não está apenas a errar no diagnóstico. Está a mostrar, com clareza crescente, de que lado da transformação política do Ocidente escolheu estar. Pobres gentes e País se estes continuarem a pertencer à maioria e não nos reequilibrarmos.
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