Também nos encontrávamos de dia, mas só a noite nos dava verdadeira intimidade. Esperava, ansiosa, que o céu escurecesse, que todos se recolhessem, e lá ia eu.
Doze, treze, catorze anos, o meu corpo em ânsias de crescer, a brevidade da vida – essa lesma então impossivelmente longa, longuíssima – era-me ainda incompreensível. Nada queria eu com maior querer do que a manobra apressada e bruta com que transformava o diurno sofá do T1 com kitchenette, onde os meus pais e eu vivíamos, na cama por onde tudo passaria. O meu sofá-cama. Fora comprado num concorrente manhoso da Moviflor, o mais barato que existia na loja, com o seu histérico veludo sintético, de uma cor tão indefinível que nunca mais a vi em lado algum, Cor de burro quando foge, ria-se a minha mãe, se nos rirmos não estamos tão sozinhos.