Querida Portela,
Hoje acordei com o carteiro a tocar à campainha. É o único dia da semana em que vivo esse luxo. Não tenho dúvidas de que é um privilégio e agradeço-o. Não ter de pôr despertador nem ficar à mercê do despertar de quem vive comigo. Os despertadores são, certamente, invenções do demónio, uma violência que nos infligimos diariamente e sobre a qual raramente pensamos. O prazer está cada vez mais desvalorizado na nossa sociedade, pelo menos o prazer que pode ser gratuito como dormir, estar entretido, caminhar, ou simplesmente fazer o que nos dá na real gana. Em vez disso, somos atravessados por uma culpa mortificante que nos impossibilita de fazer uma das coisas mais saudáveis para o ser humano, basicamente nada. Estamos tão assoberbados de tarefas, calendários e horários que perdemos o contacto com as nossas próprias vontades, com o nosso próprio corpo.
Voltando ao despertador, fiquei a pensar quem o inventou e quando surgiu. Na Pré-História havia o galo e a própria bexiga. Descobri que uma das primeiras formas de controlar as horas de sono dos nossos antepassados era beber muita água antes de dormir, ativando assim um alarme fisiológico. Claro que eram métodos falíveis. Não se pode exigir precisão nem ao galo nem à bexiga; ambos se manifestam quando lhes apetece. Descobri também que foram os gregos que tiveram a ideia de usar a água para arrancar os preguiçosos da cama e, segundo consta, entre os adeptos do sistema estava Platão. O mecanismo era constituído por três recipientes empilhados. Com o primeiro cheio de água, o líquido gotejava através de um funil estreito até a parte central encher e forçar o ar a sair por uma pequena abertura. Disso resultava um assobio que acordava a pessoa. Depois de várias tentativas técnicas ao longo dos tempos, talvez a mais interessante e rudimentar tenha surgido durante a Revolução Industrial, entre ingleses e irlandeses, o “despertador humano”. Na prática, um grupo de pessoas que usavam varas compridas para bater nas janelas das casas e acordar os moradores. Se nos abstrairmos da violência da coisa, tem muita graça.
Em 1847, o francês Antoine Redier patenteou finalmente um alarme ajustável a qualquer horário, o chamado despertador. Mas a informação não chegou ao outro lado do Atlântico e, em 1876, o norte-americano Seth E. Thomas registou a patente da sua própria versão. Podemos dizer que o despertador teve dois pais – é “filho” de dois homens do século XIX.
Pode parecer aleatória a temática que escolhi esta semana, mas não é. Temos horários porque temos trabalho. Gostava, por isso, de partilhar contigo e com os leitores uma das medidas introduzidas pelo Orçamento do Estado para 2026 relacionadas com a legislação laboral. Na proposta, o Governo defende que o período normal de trabalho possa ser aumentado até duas horas diárias, atingindo as 50 horas semanais, tendo esse acréscimo um limite de 150 horas por ano. As horas adicionais serão depois adicionadas ao banco de horas e, para serem gozadas (através da redução do horário de trabalho), o pedido deverá ser feito ao empregador com pelo menos três dias de antecedência. No documento que o Executivo tem levado à discussão sobre a reforma laboral, está ainda previsto um período de referência de quatro meses. Ou seja: ao fim de quatro meses, o empregador deverá saldar as horas trabalhadas “a mais”; o trabalhador poderá depois gozá-las em folgas ou receber o respetivo pagamento. Várias entidades, incluindo a UGT, entendem que essas horas devem ser pagas com um acréscimo de 50%, como trabalho extraordinário. Já o Governo defende um pagamento equivalente ao valor da hora normal de trabalho. Parece-me evidente que aquilo que o Governo propõe representa um retrocesso laboral, porque passa por roubar horas de vida aos trabalhadores. Não me parece justo que horas extraordinárias — retiradas, sabe-se a que custo, da vida pessoal de cada um — sejam pagas exatamente como se fossem parte da obrigação laboral regular.
Há um filme, baseado no excelente livro de Michael Cunningham, As Horas, que me vem agora à cabeça. A narrativa decorre em três tempos diferentes e acompanha a vida de três mulheres que acabam, de alguma forma, por se cruzar. Este filme mostra a importância do tempo na vida de uma pessoa e de como algumas horas são verdadeiramente decisivas.
Uma pessoa vive, em média, 640 mil horas ao longo de 73 anos de vida. Parece um número grande, quase um prémio de lotaria, e até é, desde que tenhamos tempo para usufruir desse prémio que nos calhou em sorte. A vida é um bem demasiado precioso. Penso que partilhas comigo esta urgência de a aproveitarmos o melhor que pudermos.
Recordo-me agora também do tema de Fernando Lopes-Graça, Acordai:
“Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz.”
Acordemos, sim, mas que não seja sempre pela obrigação de um despertador regulado pelas mãos do Estado. Acordemos porque é urgente viver — e dormir também faz parte do sonho.
Cláudia Lucas Chéu
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela