Querida Patrícia,
É impressão minha ou andamos cada vez mais desconfiados até de figuras que supostamente deveriam dar-nos segurança? A polícia, por exemplo. Se, no nosso país, até há algum tempo era representada como uma figura de proteção e confiança, começa agora a surgir, cada vez mais, como motivo de insegurança. E falo do nosso caso nacional em específico, porque noutros pontos do mundo estas forças são frequentemente identificadas como corruptas e perigosas. Países como o Brasil, Moçambique ou os Estados Unidos da América são muitas vezes citados neste contexto. Mas aqui, nesta parvónia, cada vez menos pacata e mais violenta, a polícia tem sido recorrentemente envolvida em casos aberrantes. Por exemplo, o recente caso de alegada tortura de toxicodependentes e pessoas em situação de sem-abrigo, que expôs práticas desumanas por parte de agentes que deveriam proteger precisamente os mais vulneráveis. A isto juntam-se também investigações que ligam elementos das forças de segurança a redes de exploração de imigrantes, envolvendo esquemas de tráfico humano, facilitação ilegal de permanência e abuso de pessoas em situação precária. São episódios que não podem ser ignorados porque apontam para problemas estruturais e não meramente casos isolados.
A verdade é que já há muito tempo que não me sinto à vontade ao dirigir-me a um polícia. Há uns anos, aconteceu-me um episódio surreal com um agente de trânsito. Mandou-me encostar a viatura numa operação stop. Seguiu-se o procedimento normal numa abordagem noturna: documentos e “soprar o balão”. Fui parada a caminho de uma festa, ainda perto de casa, com a maquilhagem fresca, nomeadamente o batom vermelho. Qual foi o meu espanto quando o agente, um rapaz da minha idade, talvez com uns trinta anos, depois de retirar o tubo do aparelho de medição de álcool — sujo com o meu batom — pergunta o seguinte: “Posso guardá-lo como recordação?” Fiquei sem reação e, até hoje, arrependo-me de não ter respondido.
Na verdade, além de todas as histórias que já tinha ouvido sobre comportamentos abusivos por parte de polícias, este episódio, aparentemente insignificante, fez com que me sinta sempre tensa e nervosa sempre que me aproximo de um agente. Não consigo sequer imaginar o que sente quem já foi agredido, abusado ou humilhado por alguém cuja principal função deveria ser o contrário disto.
As questões são: os polícias sempre tiveram esta percentagem de criminosos mascarados ou, de facto, alguma coisa mudou? Perdeu-se a vergonha? Normalizou-se o abuso de autoridade? Ou, pelo contrário, estes casos sempre existiram e simplesmente nunca ultrapassavam as paredes das esquadras?
E isto alarga-se a toda a sociedade, não é apenas um problema da polícia. Sinceramente, não sei. Gostava de perceber se há, de facto, um aumento da violência e do abuso, sobretudo entre quem ocupa posições de poder, ou se sempre foi assim e nós é que não sabíamos porque não era registado. Infelizmente, estou inclinada a acreditar na segunda hipótese. E isto é triste, porque revela uma natureza humana que, independentemente dos tempos ou da suposta evolução social, continua na cepa torta.
Quando eu era miúda, a minha avó, recentemente falecida, ao ver-me de calças curtas costumava dizer: “Então, filha, andas com as calças a fugir à polícia?” Na altura não percebia a expressão, mas hoje acho que começo a entendê-la. Calças curtas, arregaçadas para não tropeçar nelas, confesso que talvez seja um traje seguro sair à noite. Que nos permitam correr caso seja necessário. Calças a fugir à polícia, sejam eles polícias ou não.
Cláudia Lucas Chéu
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela