No filme O Homem que Queria Ser Rei (1975), de John Huston, há um momento em que a ilusão do poder absoluto começa finalmente a desfazer-se. Durante grande parte do filme, os personagens interpretados por Sean Connery e Michael Caine conseguem convencer um povo inteiro de que um deles é uma espécie de rei divino, um homem destinado a governar acima dos outros. O problema das figuras messiânicas é que acabam sempre confrontadas com a realidade física do mundo. No instante em que o falso rei sangra, os homens que o veneravam percebem subitamente que afinal não estão perante um deus. Estão apenas perante um homem.
Donald Trump continua a ser o político mais dominante da América contemporânea. Continua a mobilizar multidões, a definir a agenda mediática e a controlar emocionalmente uma parte significativa do eleitorado republicano. Mas o segundo mandato começou a produzir um fenómeno que há poucos anos parecia quase impossível: o início da erosão da sua aura de inevitabilidade.
O problema não é apenas interno. É global. O mundo começa lentamente a olhar para Trump não como o homem que regressou para reorganizar a ordem internacional, mas como um Presidente que ameaça muito mais do que concretiza.
A China percebeu isso primeiro. Durante décadas, Pequim jogou o jogo da paciência estratégica, acumulando poder económico, industrial, tecnológico e militar enquanto evitava confrontos diretos com Washington. Agora já não fala como potência emergente. Xi Jinping apresenta-se perante os Estados Unidos da América como líder de um dos dois centros de gravidade do sistema internacional. O dragão adormecido deixou de fingir que dorme. Pela primeira vez em muitos anos, a China fala diretamente para os Estados Unidos numa linguagem de paridade estratégica. Pode existir competição, pode existir rivalidade comercial, podem existir conflitos tecnológicos e industriais, mas existem linhas vermelhas. Taiwan é a principal delas.
O mais importante nem sequer é o conteúdo da mensagem chinesa. É o tom. Pequim já não fala como quem teme provocar Washington. Fala como quem acredita que Washington já não possui margem para transformar todas as ameaças em ação efetiva. Trump prometeu uma guerra tarifária esmagadora contra a China, falou-se de tarifas superiores a 100%, de uma reorganização brutal do comércio mundial e até de uma espécie de afastamento económico acelerado. Nada disso aconteceu verdadeiramente. Parte da arquitetura tarifária ficou presa em disputas judiciais, parte revelou-se economicamente insustentável e parte acabou diluída pela própria realidade dos mercados. A China resistiu, respondeu e adaptou-se.
A Rússia também parece cada vez menos interessada em viver na órbita americana. Vladimir Putin compreendeu que o verdadeiro pulmão económico do século XXI está em Pequim. A venda massiva de hidrocarbonetos à China, os novos corredores energéticos, os acordos estratégicos e a aproximação financeira representam muito mais do que pragmatismo económico. Representam uma deslocação geopolítica. Moscovo percebe que Pequim oferece aquilo que Washington nunca poderá oferecer: acesso económico sem condicionamento ideológico.
Trump acreditava que poderia reconstruir uma relação especial com Putin e apresentar-se como o homem capaz de terminar a guerra da Ucrânia em 24 horas. A realidade destruiu essa promessa. A guerra continua, os ataques intensificaram-se e a própria Rússia começou a deixar sinais subtis de afastamento político. O Kremlin agradece os contactos americanos, mas insiste que o futuro da guerra terá de ser discutido entre russos, ucranianos e europeus. A mensagem é evidente: Washington já não controla sozinho a arquitetura diplomática do conflito.
A própria Europa começa a mudar de posição. Não porque queira romper com os Estados Unidos, algo que seria estrategicamente suicidário no atual contexto internacional, mas porque deixou de confiar plenamente na previsibilidade americana. Friedrich Merz percebe isso. Emmanuel Macron percebe isso. A Polónia percebe isso. Os países bálticos percebem isso. A NATO continua indispensável, mas a Europa começa lentamente a olhar para Washington como um aliado simultaneamente essencial e instável.
Volodymyr Zelensky tornou-se talvez o símbolo mais claro desta mudança. O Presidente ucraniano continua a agradecer o apoio americano, continua dependente do armamento ocidental e da cobertura estratégica da NATO, mas já não fala apenas para Washington. Cada vez mais insiste na necessidade de uma voz europeia própria, de uma posição continental unificada, de uma arquitetura de segurança que não dependa exclusivamente das mudanças de humor da política interna americana.

O Médio Oriente aprofundou ainda mais esta perceção. Trump prometeu rapidez, força e resolução total perante o Irão. O resultado foi exatamente o contrário. Teerão conseguiu transformar um conflito regional numa pressão global sobre energia, navegação marítima, seguros internacionais e mercados financeiros. O estreito de Ormuz tornou-se novamente um lembrete de que até a maior potência militar do planeta possui limites operacionais e políticos.
Ao mesmo tempo, Trump ameaça a Gronelândia, ameaça aliados, ameaça parceiros comerciais, ameaça sair de compromissos internacionais, ameaça adversários geopolíticos, mas o mundo começou a perceber um padrão: muitas das ameaças já não produzem medo proporcional. Produzem cálculo.
A China espera. A Rússia espera. O Irão adapta-se. A Europa reorganiza-se. Até dentro do movimento MAGA começam a surgir sinais de desgaste perante promessas não cumpridas, conflitos intermináveis e uma sensação crescente de que o homem que prometia restaurar a grandeza americana está afinal preso numa política permanente de anúncios, confrontos e dramatização.
É aqui que nasce o verdadeiro isolamento de Trump. Não um isolamento militar ou económico, porque os Estados Unidos continuam a ser a principal potência mundial, mas um isolamento político e psicológico. A autoridade americana começa lentamente a degradar-se porque demasiados atores internacionais já não acreditam totalmente na capacidade de Washington transformar retórica em consequência.
O problema das superpotências nunca é apenas perder poder. O problema começa quando os outros deixam de acreditar na inevitabilidade desse poder.
No final de O Homem que Queria Ser Rei, o falso rei continua convencido da sua grandeza mesmo quando tudo à sua volta já começou a ruir. Talvez essa seja hoje a imagem mais perigosa da Presidência de Donald Trump. A de um homem que continua a agir como imperador num mundo que começou lentamente a aprender a viver sem medo dele.
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