O coração da Europa sofre de racismo e arrogância. Refiro-me, sobretudo, à Europa que fica a Norte dos Alpes, entre os Pirinéus e o rio Oder. É a parte do continente onde vive a maioria dos mais de 20 milhões de imigrantes não-europeus, recenseados pelo Eurostat, e um número indeterminado de clandestinos. No cantinho que é o nosso, esses sentimentos extremos não são tão evidentes. Presunção, não nos deve restar muita, visto o estado em que Portugal se encontra. Por outro lado, a presença da emigração não tem, aqui, a visibilidade que se nota nas ruas de Amesterdão, Berlim, Bruxelas, Londres ou Paris. Nessas terras, a presença do “outro”, do estrangeiro, é um fenómeno que marca a paisagem urbana. A entrada em massa de imigrantes no espaço europeu foi uma das principais transformações sociais das duas últimas décadas. Terá sido uma das facetas de um liberalismo económico sem limites, apenas preocupado com os interesses de curto prazo. É preciso, agora, gerir uma realidade muito complexa e pensar no futuro.
Vem isto a propósito do que Angela Merkel disse este fim-de-semana, quando falava à juventude do seu partido. As populações imigrantes, na Alemanha, não abdicam de manter os sinais mais visíveis da sua identidade cultural. É um desafio que muitos alemães acham difícil aceitar. Perante a evidência de uma sociedade dividida por linhas étnicas, a chanceler reconheceu o fracasso da política multicultural. Uma política que fora considerada como essencial para a coesão social, num país que acolhe quase três milhões de cidadãos turcos, num total de sete milhões de pessoas vindas do mundo exterior à UE.
A declaração de Merkel surgiu na linha de um inquérito de opinião, realizado uns dias antes, pela Fundação Friedrich Ebert. Mais de 10% dos alemães entrevistados afirmaram que o país precisava de ser governado com uma mão pesada, do género “Fuehrer”. Por razões óbvias, uma posição deste tipo deixou muita gente preocupada. Mais surpreendente foi o facto de cerca de metade dos inquiridos revelar opiniões próximas da xenofobia. O inquérito parece assim confirmar a tese que a reacção ao que é estrangeiro passou a ser uma posição corrente, expressa por muitos cidadãos moderados, deixando de ser um exclusivo da extrema direita.
Na mesma ordem de ideias, é de notar a formação de um novo governo na Holanda. Um governo de minoria, conservador, muito frágil, que só poderá sobreviver se mantiver o apoio da direita radical encabeçada por Geert Wilders. Ou seja, se adoptar as medidas anti-imigração que deram ao partido de Wilders uma representação parlamentar sem precedentes. A Holanda é, no entanto, apenas um outro exemplo de como as questões da imigração estão cada vez mais no centro da agenda política de vários países europeus. Veja-se a relevância que o tema mereceu nas eleições na Suécia, na Austria e no Reino Unido. E a actualidade que mantém, no debate político em França.
Os dirigentes europeus e as vozes com prestígio devem abordar a imigração na Europa com seriedade. Há que sublinhar os aspectos positivos. Como também é preciso ter em conta os riscos que representa em termos de fractura social, de instabilidade e de justificação de novas formas de extremismo. Nunca é demais repetir que as lideranças europeias têm que assumir as suas responsabilidades e ter a coragem de explicar que a Europa de amanhã só pode ser multicultural. E tolerante, quer na cena doméstica quer nas suas relações com outros povos .