O artista meramente inteligente ou brilhante será aquele que, não sem individualidade, mas sem acentuado cunho pessoal e vincado poliformismo, nos der o que ao seu género convém. O artista superior, o génio, é aquele que, a despeito da intenção com que se debruça sobre determinado objecto, nos dá o além-intenção, o além-objecto.
Em geral quando alguém diz eu sei, não sabe, crê. Ora eu creio que Peter Brook tem génio. Basta ter reparado em Une Flûte Enchantée exibida no Porto, para voltarmos as costas a conceder-lhe apenas brilhantismo e inteligência. A peça é interessante de vários modos, sublime de várias maneiras. Percebe-se, por exemplo, uma intenção testamentária particular. Dá-se que Une Flûte Enchantée sugere a evanescência final de Peter Brook que, aos 86 anos, se esfuma sem pose e sem se concluir, sereno, ao som de uma ária de Mozart. Mas não é a intenção do autor que sublima o espectáculo. É apenas um o elemento que torna o espectáculo superior: a eliminação da espuma da tradição em ópera. Brook compreende e faz compreender que essa espuma é a orla de um mar antigo, que cobre, como uma maré morta, os alicerces do que poderia ser grande.
A ópera não precisa de revoluções. Precisa é de impedir que a terra continue a girar mais depressa do que ela. É este o ponto de partida de Brook. Assim, tudo quanto foi Une Flûte Enchantée, deixa de o ser em Brook para melhor se engalanar do seu propósito e propor-se. E propondo-se, reclama o direito de se indispor não apenas ante a “forma ópera” como também ante a “instituição ópera”, ignóbil a qualquer inteligência actual e sem cortinas. Trata-se de fazer desaparecer projecções, construções, vídeos ou cenários giratórios, de eliminar uma certa postura goethiana de monumentalidade, e trabalhar apenas a partir da música. Aqui jaz o génio de Brook. Recusando a tradição, sugerindo a música como quinta-essência do espectáculo, o autor não apenas fez da sua sensibilidade espelho do ambiente transitório da Vida, como também recoloca Mozart no epicentro de toda a acção. De um só golpe Brook despojou Une Flûte Enchantée do espectro solene e esmagador de uma grande ópera, de modo que a essência de Mozart refulje agora, como nunca, sobre o universo sensorial do espectador. Eis o além-intenção, o além-objecto.
Quanto a outros aspectos do espetáculo de Brook – a livre adaptação do libreto, os jovens cantores, a harmonia pueril das suas vozes, o piano, a ingenuidade superior em cada gesto dos executantes -, não vale a pena falar. Continuar a elogiá-lo seria elogiá-lo menos.
Daqui para além há o porvir. Peter Brook, enquanto homem de génio, pertence ao futuro e, porque assim é, através do exame de Une Flûte Enchantée podemos prever para onde a evolução da ópera nos conduz.