“O défice democrático que estamos a experienciar está associado ao défice de cuidado: não cuidamos uns dos outros. E há quem se sinta excluído a ponto de lhe soar bem certos discursos populistas”

Foto: Marcos Borga

“O défice democrático que estamos a experienciar está associado ao défice de cuidado: não cuidamos uns dos outros. E há quem se sinta excluído a ponto de lhe soar bem certos discursos populistas”

O tom calmo e sereno com que Maria Vlachou fala pode destoar da veemência com que discorre sobre assuntos que nos deviam preocupar a todos: a inclusão das pessoas com deficiência, mas também das que vivem no Interior e que, por não terem transportes públicos eficazes, não podem, por exemplo, assistir a um espetáculo. “A legislação é muito boa em Portugal. Falhamos na implementação, no propósito de criar uma sociedade melhor. Não somos honestos”, defende. Nascida há 53 anos, na Grécia, é consultora em gestão e comunicação cultural e uma das fundadoras da associação Acesso Cultura, que lançou recentemente um guia sobre como falar da deficiência.  

Num dos vossos eventos, ouvi testemunhos que me pareceram revelar um sentimento próximo da ofensa: “não quero ser a vossa inspiração”, “não quero ser um exemplo de superação”, “não sei o que é isso de ficar boa”. As pessoas com deficiência estão cansadas da desinformação que continua a existir?
Não sei se lhe chamaria ofensa, mas a partir de determinado momento acaba, sim, por ser ofensivo. Porque parece que não estamos a ouvir. “Já disse, voltei a dizer e tu continuas, porque é mais confortável para ti, não fazes um esforço para dar o passo que te trará mais perto de mim e de como eu me vejo.” O que está aqui presente é, no fundo, o capacitismo, o facto de considerarmos que as pessoas com deficiência e surdas são menos do que as outras, que não são completas, que lhes falta algo e, em consequência disso, esperamos muito pouco delas. A esta questão liga-se também o facto de convivermos pouco, precisamente pela falta de acesso – as pessoas são barradas em vários sítios, espaços de lazer e de socialização, espaços profissionais.

Pode precisar alguns conceitos? Acessibilidade, por exemplo.
Quando falamos de acessibilidade, falamos da possibilidade de uma pessoa, independentemente das capacidades que tem, estar num espaço, exterior ou interior, na sua casa. E também de essa pessoa conseguir viver em pleno a sua vida da melhor forma que puder, que é, aliás, o que todos fazemos…

E o que significa capacitismo?
O capacitismo é a discriminação das pessoas com deficiência, quando se considera que são pessoas com menos valor, com menos capacidades e que, por isso, não têm a possibilidade de viver em pleno as suas vidas. Há até pessoas com deficiência que definem o capacitismo como uma forma de opressão.

Defende que é preciso passar de um modelo médico para um modelo social. Quer explicar o que isso quer dizer?
O modelo médico de diagnóstico indica-nos que o problema é da pessoa, que, como sociedade, vamos tentar resolvê-lo da melhor forma que pudermos, mas que o problema é da pessoa. O modelo social de deficiência altera completamente o foco, para dizer que o problema somos todos nós, enquanto sociedade, que não reconhecemos nem valorizamos a diversidade humana. E que construímos tudo – edifícios, relações, espaço público… – com base numa suposta norma, criando barreiras a uma série de pessoas que não encaixam nessa suposta norma. 

Como se interessou pelo tema?
Talvez ainda pequena… A minha mãe era professora primária e sempre foi voluntária em várias estruturas sociais. Isso fez com que a questão da deficiência não nos fosse estranha, apesar de não convivermos. Mais tarde, comecei a orientar-me do ponto de vista profissional… Estudei Museologia porque gosto muito de museus e queria que outras pessoas gostassem também. Foi assim que comecei a interrogar-me: porque é que as pessoas não vão mais aos museus? É porque não gostam? Ou é porque não podem? Ou porque nem sequer conhecem nem tiveram oportunidade de conhecer? Já em Portugal, trabalhei no Pavilhão do Conhecimento, onde tínhamos uma colega responsável pelas acessibilidades. Nessa altura, isso era quase único, em Portugal…

Estamos a falar de que anos?
Início dos anos 2000. Comecei a trabalhar com essa colega e, em 2003, criámos, com outros colegas, o Grupo de Acessibilidade nos Museus (GAM), justamente para discutir essas questões. Desde o primeiro momento, não foram só as barreiras físicas que nos preocuparam; foram também as barreiras sociais e intelectuais de acesso aos espaços culturais. O que é que faz com que uma pessoa possa entrar num espaço como este [Centro Cultural de Belém, onde decorreu a entrevista]?

E porque fundaram, em 2013, a Acesso Cultura?
Resistimos muito. Fomos um grupo informal durante dez anos porque sentimos que a formalidade iria retirar-nos capacidade de ação. Até que, depois, percebemos que o que fazíamos não dizia respeito apenas aos museus, mas a todo o setor cultural. O facto de não sermos uma associação formal também nos impedia de desenvolver certos projetos. Demos esse passo muito conscientes de que queríamos preservar, ao máximo, o espírito inicial. 

Considera-se uma ativista?
É estranho… Às vezes, sentimos algum pudor em dizer que somos ativistas porque associamos a algo violento. Ativista é aquele que todos os dias está consciente de muitas coisas e quer contribuir para melhorar. Deste ponto de vista, sim, somos ativistas.

As questões da acessibilidade refletem-se apenas na área da cultura?
Depende do modo como definimos cultura. Ou seja, podemos pensar na cultura como um setor formal, que faz algo. Mas também podemos pensar na cultura como a nossa forma de estar como país, como cidadãos, como sociedade. E isto é algo completamente diferente. Também é uma questão de cultura perpetuarmos práticas que continuam a excluir pessoas, porque são assim ou assado. É uma questão de quem não somos e de quem queremos ser. Portanto, desse ponto de vista, se assumirmos essa definição, que relaciona a forma como cultivamos a nossa identidade, os nossos valores, os nossos princípios e as nossas prioridades, julgo que a cultura pode ser um contributo para todas as áreas. 

A situação portuguesa é muito diferente daquela que se vive noutros países, nomeadamente em países da União Europeia?
Basta pensarmos na vizinha Espanha… Existe uma grande diferença, em geral (na vida e na sociedade) e na cultura também, em termos de consciência e de prática concreta.

Portugal é uma democracia com apenas 50 anos, na qual ainda está muito presente a ideia assistencialista, de que é socialmente correto dar a mão a quem precisa. Não residem aqui as raízes de alguns mitos, por exemplo, o de que uma pessoa com deficiência é pobre?
Atenção: os estudos mostram que, em todos os países, as pessoas com deficiência têm mais probabilidade de serem pobres.

Falhamos no propósito de criar uma sociedade melhor. Não somos honestos. Evitamos tudo o que nos dá trabalho, tudo o que nos vai obrigar a fazer as coisas de modo diferente

São pobres porque não lhes dão emprego, porque as consideram menos capazes.
Sim, sobretudo olhamos para um grupo de pessoas como se fosse uma só coisa, que não é. Mas temos de nos preocupar com este dado – as pessoas com deficiência têm mais probabilidade de estarem desempregadas. E isto acontece por várias razões: se não podem ir à escola, se não podem ir à universidade, se não podem estudar, se não conseguem profissionalizar-se ou, mesmo conseguindo, muitos locais de trabalho não são acessíveis, se os transportes públicos para irem trabalhar não são acessíveis…

Como é a legislação portuguesa?
A legislação é muito boa em Portugal. Falhamos é na implementação, não levamos a sério, damos justificações a nós próprios para não implementar a lei. Falhamos – como dizer? – no propósito de criar uma sociedade melhor. Não somos honestos. Evitamos tudo o que nos dá trabalho, tudo o que nos vai obrigar a fazer as coisas de modo diferente. Noutro dia, numa das nossas formações, uma pessoa com paralisia cerebral disse-nos uma coisa que outras pessoas também nos dizem muitas vezes: “Parece que estou a incomodar com a minha presença.” 

Não querendo ser tremendista, isso não define uma sociedade falhada?
Somos uma sociedade falhada. Há pouco, dizia que as pessoas estavam habituadas a dar a mão… Há uma académica americana, Joan Tronto [Caring Democracy], que associa o défice democrático que estamos a experienciar ao défice de cuidado: não cuidamos uns dos outros. Tratamos dos nossos, da nossa família, mas não da comunidade, dos que não conhecemos. E, portanto, há uma série de pessoas que se sentem excluídas a ponto de lhes soar bem certos discursos populistas. Alguém vai tomar conta de nós, alguém vai preocupar-se connosco. Tudo isto é um ciclo. Numa comunidade, deveríamos cuidar uns dos outros.   

E agradecemos que alguém cuide de nós.
Sim, normalmente, o Estado! Noutro dia, o meu marido disse-me que leu os resultados de um estudo sobre o facto de, em Portugal, 15% das pessoas terem menos de 15 anos e que, destes 15%, 20% vivem abaixo do limiar da pobreza. Como é que não podemos cuidar disto? E que oportunidades têm estas pessoas para crescerem saudáveis e com sonhos? Isto para dizer que, na Acesso Cultura, não trabalhamos apenas as questões da acessibilidade física; trabalhamos também as barreiras sociais e as intelectuais. Também nos interessa, por exemplo, o facto de existirem pessoas no Interior de Portugal que não podem participar em nada (ver um espetáculo, sair com amigos, trabalhar noutro sítio…) porque não têm carro próprio e os transportes públicos são uma lástima. 

É importante o tema do acesso e da inclusão ter entrado na agenda política?
É importante porque significa que estamos mais conscientes e que estamos a ouvir. Mas não basta ficarmos por aí. É preciso dar o passo seguinte e perguntarmo-nos o que temos de mudar na prática para que a mudança se torne uma realidade. Inclusão não é a mesma coisa que acesso: eu posso muito bem abrir a porta, dizer-te para entrares, que não há nenhum degrau e, depois, uma vez cá dentro, fazer-te sentir que és um corpo estranho. Este é todo um outro grande capítulo: dizemos que não somos racistas, não somos capacitistas e não somos misóginos e, depois, no dia a dia, são imensos os exemplos que damos do contrário.   

As palavras importam, na medida em que não só acentuam diferenças como perpetuam desigualdades. O que pensa da linguagem inclusiva, que tanta polémica tem suscitado?
As palavras são poderosas, podem magoar e ofender. Mas, se queremos realmente viver juntos em sociedade, temos de dar um passo e sair da nossa zona de conforto, que, de imediato, nos leva mais ou menos a reagir assim: “Que chatice, sempre falámos assim. Porque é que agora temos de fazer o esforço?” Não sei se a linguagem inclusiva é assim tão polémica… Julgo que o que provoca maior resistência é a chamada linguagem neutra, que não é o mesmo que a linguagem inclusiva. No ano passado, a convite do MAAT, organizámos um debate sobre isto, e foi interessante ver como, às vezes, ao tentarmos resolver uma questão, usando uma linguagem neutra, podemos estar a apagar as mulheres que tanto têm lutado para estarem presentes também do ponto de vista da língua. Para mim, isto é um desafio constante, um tema fascinante; não me sinto ameaçada por discutir este assunto. Quero perceber como é que as pessoas diferentes de mim se posicionam na vida, como querem ser tratadas, qual é a sua visão do mundo.   

Em concreto, o que distingue a linguagem inclusiva da neutra?
A meu ver, a inclusiva, que eu procuro treinar, é não usar o masculino para falar do geral, sobretudo no plural. Não dizer: “Bom dia a todos.” Nunca gostei do “todos e todas”, irrita-me. Acho melhor dizer “bom dia a todas as pessoas” ou, então, dizer apenas “bom dia”. A neutra seria dizer “bom dia a todes” e eu não consigo; para mim, é estranho, não me diz nada. Mas tudo isto precisa de ser trabalhado; leva tempo tornarmo-nos mais conscientes, não é natural em nós, seres humanos. Lá está: é cultura, temos de cultivar.

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