“É incrível como normalizamos a indústria da carne. Dizemos que é natural, mas não há nada de natural em ter 50 mil galinhas, dois mil porcos ou 100 vacas leiteiras num barracão”

“É incrível como normalizamos a indústria da carne. Dizemos que é natural, mas não há nada de natural em ter 50 mil galinhas, dois mil porcos ou 100 vacas leiteiras num barracão”

Escritor bestseller, colunista no Guardian, ativista político, com um Orwell Prize no currículo pelo seu trabalho como jornalista, o britânico George Monbiot é muitas coisas, mas tudo o que faz é à volta do mesmo: a ecologia. O seu último livro, Regenesis – Alimentar o Mundo Sem Devorar o Planeta (Editorial Presença), serve de pretexto para uma conversa sobre as suas propostas – revolucionárias, sim – para a alimentação. O futuro, garante, tem de passar pelo fim da pecuária, pelo menos como a conhecemos hoje.

A agricultura e a indústria alimentar em geral têm um enorme impacto ambiental. Qual a sua proposta para diminuir esse impacto?
São a maior causa de perda de biodiversidade e de habitat, de destruição de terras, uso de água, esgotamento do solo… E uma das maiores causas do colapso climático. Enquanto abordamos outros aspetos da economia, negligenciamos a produção de alimentos, porque é um tema politicamente difícil. Mas temos de olhar para a forma como produzimos os nossos alimentos, tanto no mar como em terra. Sei que em Portugal se come muito peixe, e isso é outra coisa que tem de ser abordada, porque a pesca industrial é a principal causa do colapso do ecossistema marinho. No entanto, a mudança crucial é reduzir o consumo de produtos de origem animal, de longe o aspeto da produção alimentar mais prejudicial. Usamos imensa terra para isso, que deixa de poder sustentar ecossistemas selvagens. Precisamos também de alterar a maneira como produzimos as nossas culturas. Estamos a esgotar o solo e a água e enchemos o mundo vivo de produtos químicos, quando há inovações com potencial, como a mudança de culturas anuais para culturas perenes, em que a terra precisa de ser arada com muito menos frequência. Sustentámos esta população através do aumento da química do solo. O que precisamos de fazer agora é confiar mais na biologia do solo.

No livro, dá um grande destaque à importância do solo. Mas o solo não vai ficar mais pobre devido à falta de nutrientes fornecidos, hoje, pelo estrume dos animais de criação?
É um mito que o estrume dos animais de criação se dê bem com a proteção ambiental. Os níveis de estrume aplicados no solo estão muito acima do que encontramos na Natureza, e as culturas que cultivamos são incapazes de absorver essa quantidade. O estrume animal é até mais poluente do que o fertilizante artificial. Enfim, as pessoas acham que o natural é bom, porque sai da retaguarda de um animal em vez de sair da retaguarda de uma fábrica, mas os impactos do estrume animal são devastadores para o mundo vivo, danificando os solos através da aplicação excessiva de nitrogénio e fósforo e outros minerais, envenenando rios… No Reino Unido, a agricultura é a principal causa da morte dos rios devido à enorme quantidade de nutrientes expelidos.

Temos de produzir mais em menos terra. Podemos fazê-lo sem fertilizantes e pesticidas sintéticos?
É desafiador, mas precisamos urgentemente de reduzir a quantidade de produtos químicos sintéticos que usamos na agricultura, não só pelo ambiente mas também pela saúde. Sabemos muito pouco sobre o impacto cumulativo dos pesticidas. Por outro lado, temos de ser capazes de alimentar todos na Terra. Há muitas propostas para reduzir o impacto da agricultura, mas que não demonstram poder para alimentar oito mil milhões de pessoas. O maior desafio é alimentar o mundo sem devorar o planeta. É por isso que me interesso por novas técnicas em horticultura, que podem eliminar pesticidas sem afetar o rendimento das colheitas. Há novos conhecimentos na ciência do solo, que mostram como ajustar suavemente a química ou a biologia do solo sem a aplicação massiva de fertilizantes. Além disso, 50% a 80% do fertilizante que usamos é desperdiçado, simplesmente desaparece da terra, e essa é a primeira coisa que deveríamos eliminar. Temos de ser mais precisos na forma como o aplicamos.

Se esses princípios, aplicados na agricultura regenerativa, são tão produtivos, porque é que os agricultores não os aplicam?
Sou cauteloso com o termo “agricultura regenerativa”, que já se tornou greenwashing. Hoje, “regenerativo” está a ser usado da mesma forma que sustentável. É apenas uma palavra. “Pecuária regenerativa, antes conhecida como pecuária…” Muitas práticas diferentes, grosseiramente insustentáveis, foram agora rotuladas como regenerativas. Mas voltando à pergunta dos agricultores: alguns estão a adotar formas de agricultura mais ecológicas; outros querem fazê-lo, mas têm de ter os incentivos certos. Não há nenhum incentivo financeiro para que o agricultor trate melhor o seu solo e a vida selvagem, cause menos poluição… Temos de recompensar os agricultores por fazerem o que está certo e penalizar os que fazem errado. Em todo o mundo, gastamos cerca de 500 milhões de dólares por ano em subsídios agrícolas, e quase nenhum deles se destina a alcançar esses objetivos.

A sua proposta é dar incentivos financeiros para pôr a engrenagem a funcionar?
Sim, mas não é suficiente. Também precisamos de um enorme esforço governamental em pesquisa e desenvolvimento, porque, na maioria das vezes, a solução ainda não está totalmente desenvolvida.

É um dos subscritores de uma carta aberta que pede investimento europeu na inovação alimentar na Europa. Porque é que a Europa está atrasada nesta área?
A principal razão é o grande poder dos lobbies agrícolas na Europa. Sufocaram a inovação na agricultura europeia, porque querem continuar a fazer as coisas que os tornaram ricos. Não querem mudar. A mudança de modelo é uma ameaça para eles. Afinal, se encontrarmos maneiras de fazer mais com menos, precisaremos de menos produtos. Daí quererem impedir o surgimento de novas formas de produção de alimentos. É o caso de tecnologias como a fermentação de precisão, que poderia produzir alimentos ricos em proteínas de modo muito mais barato.

Não há também algum conservadorismo? A Itália, por exemplo, ameaça proibir a carne cultivada. A mesma coisa aconteceu com os organismos geneticamente modificados (OGM), a que a UE sempre se opôs. Porque tem a Europa uma visão tão negativa da inovação alimentar?
O modo como os OGM foram tratados na Europa causou enormes problemas e foi um desastre completo de relações públicas. Tudo parecia sinistro, com a Monsanto a anunciar a sua ambição de controlar a cadeia alimentar do campo ao prato. Eu opus-me, na altura. Portanto, sim, há um lobby corporativo, há o conservadorismo inato e há também esta história infeliz, que ajuda a explicar onde estamos hoje.

Mas não há igualmente uma opinião negativa das pessoas sobre inovações alimentares, como a fermentação de precisão, carne cultivada ou insetos?
A comida é algo com que não lidamos de forma racional. É uma reação instintiva, visceral, fortemente influenciada por aquilo a que estamos habituados. As pessoas ficam assustadas com o que é diferente. Mas temos de perceber que nos convencemos erradamente de que comemos uma dieta igual à dos nossos avós. Isso é um absurdo. Hoje, temos uma dieta padrão global. Entramos no supermercado e vemos uma vasta variedade de alimentos de todo o mundo. As nossas dietas são muito mais diversificadas do que eram antes e distintas do que imaginamos ser a tradicional. Antigamente, comia-se muito menos carne, queijo e salada. Muita gente comia basicamente ensopados de ervilhas e feijões. Era essa a principal fonte de proteína para muita gente.

Sei que em Portugal se come muito peixe, e isso é outra coisa que tem de ser abordada, porque a pesca industrial é a principal causa do colapso do ecossistema marinho. Mas a mudança crucial é reduzir o consumo de produtos de origem animal

Há um vídeo seu em que tenta explicar que se, durante toda a nossa vida, tivéssemos comido alimentos originados pela fermentação de bactérias, a indústria da carne é que nos pareceria repulsiva…
É incrível como normalizamos a indústria da carne. Dizemos que é natural, mas não há nada de natural em ter 50 mil galinhas, dois mil porcos ou 100 vacas leiteiras num barracão, nem na forma como são alimentados. Ficaríamos horrorizados se víssemos este sistema pela primeira vez. “Ah, eu não como bactérias!” Então, que tal domesticarmos uma vaca selvagem e, além de a comer, misturarmos uma estranha secreção mamária branca que sai da vaca e juntá-la com uma substância química extraída do quarto estômago de um bezerro em amamentação, para formar uma massa instável de gordura e proteína? Depois, injetamos bactérias vivas, que digerem essa massa, e esperamos até os excrementos dessas bactérias ficarem duros e amarelos e cheirarem mal. E chamamos-lhe queijo. É uma noção muito mais nojenta do que cultivar bactérias e comê-las. Tudo isto é sobre as nossas expectativas culturais.

Há outro fator importante nas opções alimentares das pessoas: o preço. Vamos, algum dia, ter carne cultivada ou queijo de fermentação de precisão ao mesmo preço dos produtos convencionais?
No caso da carne cultivada, nunca. Será uma tecnologia importante, mas não mais barata, devido à complexidade do processo. Contudo, produtos de fermentação de precisão, sim. Na Europa, já há quem esteja a produzir estes alimentos. Estamos apenas a aguardar aprovação regulatória.

Devíamos, por outro lado, tributar a carne e outros alimentos pelo seu impacto no ambiente?
Sim. Primeiro, temos de eliminar os subsídios perversos. Parar de subsidiar a indústria da carne e dos cereais usados ​​para alimentar os animais. A produção de carne e a pecuária dependem totalmente dos dinheiros públicos. Sem isso, dava prejuízo e desaparecia. E o gado de pastoreio não é melhor, pelo contrário. Os danos ambientais são maiores, por quilo de produto, do que os animais de produção intensiva.

Mas esse é um chapéu para todos os casos? Por exemplo, em Portugal, os animais de pastoreio são importantes na prevenção de incêndios, entre outras coisas.
Sim, é verdade. Temos de fazer uma distinção entre o pastoreio de conservação e o de produção. Não vejo nada de errado em ter algum gado, por exemplo, para fins ecológicos. Mas esse é um sistema totalmente diferente, que produz uma pequena quantidade de carne. Se dependêssemos disso para obter a nossa carne, só os multimilionários a comeriam. Porém, é mais importante, do ponto de vista ecológico, maximizar a diversão ecológica, trazer de volta o maior número possível de espécies desaparecidas.

Existem mantras ecológicos enganadores, como a importância de comer produtos locais. No livro, explica que esse é um falso argumento, porque o transporte representa uma pequena fração das emissões. Há mitos verdes que são contraproducentes para a causa climática?
Sim, muitos. A questão das milhas dos alimentos é um exemplo clássico. Há boas razões para ter economias locais: mais empregos, melhores relações entre produtores e consumidores, maior responsabilização sobre a origem dos alimentos. Mas há um problema matemático fundamental: a maior parte da população mundial vive em cidades, e não há terra suficiente para cultivar alimentos nas suas proximidades. Temos de aceitar que o comércio alimentar a longa distância vai continuar. E, sim, os quilómetros percorridos pelos alimentos são uma pequena fração do impacto ambiental total. Teríamos de transportar um quilo de feijão seco 100 vezes à volta do planeta antes de ter o mesmo impacto ambiental que um quilo de carne bovina produzida num campo ao nosso lado.

É uma questão de tempo até a produção de carne chegar a um pico e, depois, começar a descer?
Espero que sim, mas isso só acontecerá com novas tecnologias. Podemos exortar as pessoas a comerem menos carne, mas, sem bons substitutos, é como dizer-lhes que usem menos combustíveis fósseis e não lhes dar energia solar ou eólica. Precisamos de alternativas melhores, mais baratas e mais saudáveis. Muitas das alternativas vegetais aos produtos de carne são, hoje, muito más. No entanto, com a fermentação de precisão, poderemos fazer produtos muito melhores e mais baratos.

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