“O problema do vencedor é ele não ter curiosidade pelo vencido. Na Europa, fomos surpreendidos porque não tivemos curiosidade suficiente para ver o que se estava a passar na Rússia”

“O problema do vencedor é ele não ter curiosidade pelo vencido. Na Europa, fomos surpreendidos porque não tivemos curiosidade suficiente para ver o que se estava a passar na Rússia”

Escolheu o género do romance para falar sobre uma realidade que, enquanto ensaísta, conhece bem: os meandros políticos de Moscovo. Em O Mago do Kremlin (Gradiva, 276 págs., €15), o italiano Giuliano da Empoli, 50 anos, inventou uma personagem, baseada em Vladislav Surkov, cujo paradeiro hoje se desconhece, mas que, até fevereiro de 2020, foi conselheiro pessoal de Putin. Vencedor do Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, o livro tem suscitado grande interesse internacional, sobretudo por revelar muito daquilo que são os bastidores da política do Presidente russo, do perfil de liderança às estratégias de poder. Em entrevista à VISÃO, comenta a guerra na Ucrânia e a reação europeia ao conflito desencadeado pela invasão, em fevereiro de 2022. Conselheiro principal do antigo primeiro-ministro italiano Matteo Renzi e fundador do think tank Volta, Da Empoli considera que a pandemia e a guerra fizeram os europeus compreender a importância da construção europeia: “Permanecem os valores nacionalistas, o discurso contra as minorias e os migrantes, mas já ninguém quer sair da Europa.”

Um cientista político prefere escrever uma ficção a um ensaio, para, como já explicou, se aproximar da realidade. Por ser mais fácil, por não precisar de especificar os factos?
Não, para mim, foi até mais difícil. Estou tão habituado a escrever ensaios e livros de não ficção que poderia apenas tê-lo feito mais uma vez, sem qualquer problema. Os factos do livro são todos reais, e também mantive os nomes das personagens quando falo de figuras que existem mesmo. Basicamente, quando uso um nome verdadeiro, significa que me estou a colar aos factos; quando uso um nome inventado, como o da personagem principal [Vadim Baranov], quer dizer que tomei algumas liberdades. Mesmo que seja inspirado numa figura real [Vladislav Surkov], alterei a sua história pessoal, e as suas ações são mudadas aqui e ali. Fi-lo porque considero que os romances conferem uma diferente conceção da realidade.

Apanham melhor o ambiente?
Exatamente, os romances apanham muito melhor o ambiente do que os ensaios. O ambiente, as emoções, a parte irracional, as contradições, os paradoxos… E, como esta é uma situação muito complexa, cheia de contradições e paradoxos, até um pouco louca, senti que, se quisesse realmente entrar no Kremlin, seria melhor percorrer os caminhos do romance. É como se fosse apenas outra porta de entrada para o Kremlin.

De que maneira desenvolveu a pesquisa?
Fiz tudo o que costumo fazer numa pesquisa clássica, quando estou a escrever um ensaio: entrevistas, algumas viagens e, sobretudo, muitas leituras. Mas aí está, novamente, a vantagem do romance: apercebi-me de que podia usar toda a minha experiência, enquanto cientista político e até enquanto conselheiro político. Senti até que poderia utilizar, digamos, toda a minha experiência de poder. Ainda que a tenha tido em contexto italiano e europeu, como se tratava de um romance, achei que poderia usar essa experiência para descrever o poder russo. Algumas dinâmicas de poder e alguns mecanismos judiciais são universais, acontecem de forma semelhante em contextos diferentes. Claro que, em Portugal, em Itália e em França, existem outros limites ao poder e aos instintos, mas alguns mecanismos são mais ou menos universais: por exemplo, a forma como a corte funciona em torno da figura poderosa, a maneira como as pessoas se comportam, como tentam agradar ao todo-poderoso ou a forma como este reage.    

Como se interessou pela figura de Surkov?
Durante a pesquisa para o meu livro anterior, Os Engenheiros do Caos, um ensaio sobre os novos spin doctors e as novas técnicas de propaganda, que, em português, apenas saiu no mercado brasileiro. Nunca conheci Surkov, mas, durante essa pesquisa, esbarrei com ele e fiquei impressionado porque até no Kremlin se tratava de uma figura original. O mundo do Kremlin é muito cinzento, cheio de burocratas, homens de negócios e gente do KGB. Surkov destoa de todo esse ambiente, é uma figura tão diferente que, em alguns aspetos, me parece saída de um romance. Não escrevi sobre ele em Os Engenheiros do Caos, mas decidi fazer um romance inspirado naquela figura.

O que pensa daquela definição (que já se tornou um clássico) de Angela Merkel sobre Putin, a de um líder do século XIX a viver no século XXI?
Não posso estar mais de acordo com essa definição de Angela Merkel. De certa maneira, Putin é um líder pré-moderno. Vemos isso no facto de ele ter enviado o seu exército para invadir outro país, algo que julgámos ter acabado. Também o observamos no modo como ele se posiciona enquanto líder. A questão é que, ao mesmo tempo que é um líder pré-moderno, tem também algo de pós-moderno. Surkov e a minha personagem, Baranov, são exemplo disso mesmo: são uma espécie de pós-verdade, combinam ideias e ideologias muito diferentes, misturam versões contraditórias.

São também essas as novas formas de propaganda?
Sim, as novas formas de propaganda misturam múltiplas narrativas, narrativas verdadeiras e narrativas falsas, voltam atrás e também combinam tempos históricos muito distintos. Baranov constrói todo este teatro político pós-moderno, cheio de manipulação e de informações que circulam na internet. O que considero interessante é o facto de a liderança de Putin ter, mesmo, estes dois componentes: Putin não é um líder moderno, mas é, simultaneamente, um líder pré-moderno e pós-moderno.

Os países do Ocidente e as chamadas democracias liberais estão preparados para enfrentar esses líderes, que são, ao mesmo tempo, pré-modernos e pós-modernos?
Não propriamente. Em primeiro lugar, as democracias liberais achavam que este lado pré-moderno dos líderes tinha acabado; em particular, na Europa e nos EUA, era como se estivéssemos a sair da História e já não existisse competição militar. Em segundo lugar, para os europeus (os americanos são diferentes nisto), até à invasão da Ucrânia, os conflitos diziam apenas respeito a acordos comerciais.

As novas formas de propaganda misturam narrativas verdadeiras e narrativas falsas, voltam atrás e também combinam tempos históricos muito distintos. Putin é, simultaneamente, um líder pré-moderno e pós-moderno

Acreditavam na célebre paz através da economia.
Sim, acreditámos na paz através da economia e achámos que a questão militar já não tinha nada que ver connosco. Pois bem, não só vimos que tinha como também vimos que não estávamos preparados para lidar com o que vinha aí. O problema reside ainda no facto de não termos sido suficientemente curiosos em relação ao que se passa noutros lugares. Em parte, foi também por causa disso que escrevi O Mago do Kremlin. Como já alguém disse, o problema do vencedor é ele não ter curiosidade pelo vencido. Na Europa, fomos surpreendidos porque não tivemos curiosidade suficiente para ver o que se estava a passar na Rússia. Tentar entrar na cabeça deles e analisar as coisas a partir do seu ponto de vista não significa que estejamos a justificar o que está a acontecer. Por exemplo, se quisermos explicar o que originou a II Guerra Mundial, e até os erros que foram cometidos pelos vencedores da I Guerra Mundial, não estamos a justificar o que fizeram os nazis; estamos apenas a tentar compreender o que aconteceu. Com a Rússia, penso que se passou algo de semelhante.

Considera que a Europa também se recusa a compreender a nova ordem mundial?
Para nós, é muito difícil porque, na verdade, pensávamos que éramos essa nova ordem mundial. Tal como na tese do fim da História, em que julgávamos que tínhamos encontrado uma solução e que, a partir de então, todos gostariam de se tornar parecidos connosco. Era esta a ideia fundamental da Europa. E esta ideia, de alguma maneira, até me parece conter, em si, uma certa beleza – só que é uma beleza inocente. O que, hoje, se torna muito problemático é a Europa perceber que, afinal, não era nada assim. Isto é muito visível na reação europeia à guerra na Ucrânia. O primeiro impulso europeu foi tentar lidar com o conflito através das sanções, um mecanismo que corresponde ainda à maneira antiga de fazer as coisas. No princípio, os europeus pensaram que puniam comercialmente os russos e que os russos paravam a guerra. E o que, agora, estamos a ver é os europeus a aperceberem-se de que precisam de se rearmar, de construir novamente forças armadas. A Alemanha já está a fazê-lo…

Esse confronto com a realidade é o maior preço que a Europa vai pagar pela guerra na Ucrânia?         
Sim, provavelmente, o maior preço que os europeus vão pagar é perceberem que o seu modelo está a mudar. Julgo, porém, que, nesta mudança, neste processo, é muito importante que a Europa não perca a sua alma. De um certo ponto de vista, até é bom que sejamos forçados a enfrentar a realidade. Mesmo que precisemos de construir uma Europa mais forte no plano militar, também é muito importante não desistirmos daquela bonita visão que é, de facto, a fonte principal da ideia europeia. Mesmo que nos considerem um pouco ingénuos, é algo a que temos de nos apegar – porque é este, verdadeiramente, o espírito europeu. 

Os atuais líderes europeus estão preparados para isso? No seu país, em Itália, Mario Draghi, um dos últimos dirigentes dedicados à causa europeia, parece ter desistido…
Também estamos perante uma nova geração de políticos antieuropeístas. No meu país, em Itália, Giorgia Meloni sempre foi contra a Europa, mas a verdade é que, desde que venceu as eleições, abandonou completamente a ideia de querer sair do espaço europeu. Meloni pode até continuar a ser contra os valores europeus, mas sabe que os italianos querem permanecer na União Europeia. Em França, com Marine Le Pen, aconteceu o mesmo: há uns anos, Le Pen queria sair da moeda única, mas agora abandonou todas essas ideias. Acho que os líderes mais radicais estão a adaptar-se ao facto de, após a pandemia e a guerra na Ucrânia, a maioria dos europeus ter compreendido que precisamos mesmo da Europa. Claro que esses poderosos movimentos persistem, mas observo uma evolução positiva: permanecem os valores nacionalistas, o discurso contra as minorias e os migrantes, mas já ninguém quer sair da Europa.

Quando olha para os movimentos populistas e de extrema-direita pela Europa fora, entende que, apesar de tudo, há espaço para um certo otimismo?
Sabe, há muito tempo que me preocupo com esses movimentos, há muito tempo que os estudo…

Provavelmente, desde Silvio Berlusconi, que foi o primeiro líder populista dos tempos modernos, digamos.
Exatamente, desde Berlusconi. É, aliás, por isso que, de alguma forma, é mais fácil, para um italiano, observar tudo o que está a acontecer. Sempre disse que os italianos são um pouco o Silicon Valley do populismo. Experimentámos tantas coisas diferentes que nos tornámos especialistas nisto [risos]. Mas não estou, na verdade, mais preocupado hoje do que estive há uns anos. Penso que, no que toca a movimentos nacionalistas e populistas, já tivemos tempos piores. Houve momentos na História em que julgámos que a Europa iria desintegrar-se completamente, implodir… e nada disso aconteceu. É claro que esses movimentos regressaram, estão presentes em muitos países e continuam a ser perigosos, mas, ainda assim, consigo estar relativamente otimista. 

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