É o primeiro despedimento de uma figura pública na sequência de utilização de dados de localização do seu telemóvel. Estes dados foram obtidos legalmente e seriam supostamente anonimizados. No entanto, o cruzamento de várias fontes permitiu concluir que o Grindr, uma app de encontros popular na comunidade homossexual, estava a ser acedido frequentemente na casa do Monsenhor Jeffrey Burrill, no seu local de trabalho, na casa de férias e na casa de familiares. Com estes cruzamentos todos, alega-se que o padre era o utilizador desta aplicação e o clérigo acabou mesmo por ter de abandonar as suas funções na Igreja.
A utilização da aplicação por si só não é indicativa de nada, mas a Igreja Católica proíbe qualquer tipo de relação sexual aos seus membros e no caso da US Conference of Catholic Bishops, a que Burrill pertencia, as instruções eram para os padres não estarem sequer presentes em casamentos gay.
Os dados que resultaram neste despedimento foram obtidos de forma legal e provêm de operadoras móveis que os vendem a vários parceiros, como agências de publicidade, agências de autoridade, serviços e até caçadores de recompensas. A informação foi revelada pela The Pillar, uma newsletter sobre a Igreja Católica, que explica que conseguiu ‘des-anonimizar’ os dados para correlacionar a utilização do Grindr com o telefone de Burrill a partir da análise de 24 meses de informação. Os dados permitiram concluir que um smartphone acedeu ao Grindr todos os dias em várias localizações cujo denominador comum é o padre, como sendo a sua morada principal, a casa de férias ou outros sítios.
Andrés Arrieta, diretor na Electronic Frontier Foundation, explica que apesar de os dados vendidos serem anonimizados pelas operadoras “há empresas que lucram ao descobrir quem é a verdadeira pessoa por trás dos dados”, cita o ArsTechnica. Esta informação na verdade não é completamente anónima, no sentido em que tem um identificador único, tornando relativamente fácil o processo de reconstrução para se conseguir chegar à identidade do utilizador. Os defensores da privacidade pedem que sejam aplicadas várias técnicas para garantir a verdadeira anonimização da informação, como a injeção de ruído nos dados ou a eliminação destes identificadores únicos.