O Reino Unido torna-se o primeiro país do mundo a dar luz verde à solução de edição genética CRISPR para tratamento de doenças. O regulador britânico aprovou a utilização do tratamento Casgevy para tratar duas doenças de sangue: uma variante de anemia que causa dores debilitantes e uma variante de talassemia, que obriga a transfusões regulares. Kay Davies, geneticista da Universidade de Oxford, congratula a aprovação que “pode vir a abrir a porta para outras aplicações de terapias CRISPR para cura potencial de muitas outras doenças genéticas”.
A terapia Casgevy vai atuar sobre os erros nas sequências de genes que codificam a hemoglobina, molécula que ajuda os glóbulos vermelhos a transportar oxigénio pelo corpo. Estas malformações na hemoglobina podem levar a várias doenças, incluindo uma variante de anemia que torna os glóbulos vermelhos mais ‘pegajosos’ e os leva a formar coágulos que reduzem a capacidade de o oxigénio chegar ao tecido, causando dores severas. Outra mutação faz com que os glóbulos vermelhos levem menos oxigénio ou não levem oxigénio de todo, conduzindo a quadros de fadiga, falta de ar e batimento cardíaco irregular.
O tratamento com Casgevy implica a retirada das células estaminais produtoras de sangue da medula espinal dos doentes e o uso da CRISPR para editar os genes, com uma molécula RNA que guia as enzimas para a região de ADN correta e uma enzima Cas9 que corta o ADN. A solução incide depois sobre os genes BCL11A que restringe a produção de hemoblogina fetal. Ao cortar este gene, o tratamento liberta, no organismo, a produção desta hemoglobina que não tem as anormalidades que levam àquelas duas doenças em adultos.
Antes de os genes editados serem colocados de volta no organismo, o paciente tem de passar por um tratamento que prepara a medula para a receção. “Os pacientes podem vir a ter de passar pelo menos um mês no hospital, enquanto as células tratadas ganham residência na medula e começam a produzir glóbulos vermelhos com uma forma estável de hemoglobina”, explica o regulador britânico em comunicado citado na Nature.
O tratamento está a ser testado em ensaios clínicos, com os voluntários a reportarem alguns efeitos colaterais, como náuseas, fadiga, febres e um risco aumentado de infeção, mas sem outras grandes preocupações de segurança. David Rueda, do Imperial College de Londres, lembra que “será essencial ver todos os dados de sequenciação do genoma destas células antes de chegar a conclusões. No entanto, este anúncio faz-me sentir cautelosamente otimista”.
Os reguladores dos EUA e da Europa estão também em processo de aprovação da Casgevy nos respetivos territórios. O principal desafio, nesta fase, prende-se com os elevados custos que estes tratamentos implicam, com as estimativas a apontar para valores na ordem dos 1,8 milhões de euros por paciente.