É invulgar uma empresa de engenharia portuguesa poder orgulhar-se de estar ligada às canções de artistas famosos como Lady Gaga ou Enrique Iglesias e a grupos de rock como os Depeche Mode ou os Simply Red. A Vicoustic comete tal proeza. As soluções acústicas de vanguarda são música para os ouvidos de César Carapinha, 39 anos, e Jorge Castro, 32, os fundadores, há seis anos, da empresa.
Os produtos da Vicoustic fazem as delícias de produtores musicais e são utilizados nos estúdios das britânicas BBC e ITV. É através dos estúdios de gravação do produtor John Cohen que a Vicoustic se associa às canções de Lady Gaga. As suas soluções viajam pelo mundo inteiro. Um recente projeto envolve o fornecimento para várias instalações da NATO.
A capacidade de inovação promete tornar Paços de Ferreira, a cidade que acolhe a sua principal base, na capital da acústica portuguesa. O último desafio foi instalar uma câmara sonora que, beneficiando de uma parede que se move, permite simular ressonâncias a baixas frequências, entre 40 e 100 Hertz. A espuma técnica que reveste o cubo de betão é um dos segredos do projeto e teve de ser importada diretamente da BASF alemã. “Em todo o mundo, só a NASA tem um laboratório semelhante, com a mesma gama de funcionalidades”, comenta Jorge Castro, engenheiro de acústica com formação na Universidade de Salford, em Manchester. Ele é a alma criativa da empresa, um investigador que procura estar sempre um passo à frente da concorrência.
Só assim uma marca que sofre com o défice de visibilidade de Portugal e fatura 3 milhões de euros (em 2012) se consegue impor num mercado dominado por gigantes como a americana Armstrong, com vendas de 1,7 mil milhões de euros. “Os fabricantes estavam acomodados e investiam pouco na investigação e desenvolvimento.
A nossa vantagem reside nas soluções inovadoras, com preços competitivos”, explica Jorge Castro. Outra vantagem “é a excelência dos fornecedores” com que a empresa lida. Por isso, instalou-se em Paços de Ferreira, aproveitando a sabedoria do cluster do mobiliário.
César Carapinha é o estratego do negócio, o impulsionador da ofensiva externa que leva os produtos da Vicoustic a mais de 50 países. No dia em que a Exame visitou a sua plataforma logística e o centro de investigação, havia encomendas para despachar para países como Egito, Ucrânia, Cazaquistão ou Líbano. César abandonou o curso de Matemática Aplicada para se dedicar ao negócio de importação de painéis acústicos. Mas depressa verificou que era possível fabricar em Portugal painéis de maior qualidade do que os da marca americana que representava.
Autoeuropa da acústica
A Vicoustic replica no negócio da insonorização o modelo da Autoeuropa na indústria automóvel. Lida com um universo alargado de fornecedores da fileira da espuma, madeira, tecidos e componentes metálicos, cabendo depois a uma das uni dades agregar os componentes e proceder à montagem final das soluções desenhadas pela sua equipa de engenharia. Em cada um dos sectores celebrou uma parceria de carácter tecnológico que aprofunda a sua vocação revolucionária. Nos painéis de madeira, por exemplo, o parceiro é a Sonae Indústria. A Vicoustic “dá a ideia e os parceiros testam a sua viabilidade”.
Uma das vantagens “é que os industriais do Norte com quem trabalhámos não sabem fazer nada mal”, diz Jorge Castro.
Em 2013, uma das novidades será a instalação na base de Paços de Ferreira de uma linha de montagem de alguns dos produtos do seu catálogo, com mais de 60 famílias de soluções. Mas, já em janeiro, vai inaugurar em Seattle (Estados Unidos) a sua primeira sucursal no exterior. O investimento de um milhão de dólares cabe ao parceiro local.
O mercado americano fora propositadamente negligenciado. Não valia a pena investir num mercado sem a empresa ter capacidade para responder à potencial procura. A Vicoustic agilizou o circuito fabril, consolidou o centro de investigação e abre um novo ciclo que lhe permite a disputa dos grandes mercados.
A ofensiva americana liga-se também com o plano de instalar uma unidade fabril na Malásia. A nova base destina-se a abastecer os mercados asiáticos e concede músculo à Vicoustic para crescer nas vendas.
César Carapinha não revela os detalhes do plano na Malásia, mas conta que o parceiro é o herdeiro do dono do império de autorrádios Clarion.
Em 2013, a Vicoustic estará pela primeira vez numa feira internacional para o sector da construção – a Batimat, em Paris – num sinal de que o mercado da acústica industrial (hotelaria, escritório e residencial) passa a fazer parte da sua pauta de negócios.
Da ITV à BBC
Com dezenas de estúdios, discotecas, restaurantes ou escolas insonorizadas em todo o mundo, César e Jorge têm dificuldade em apontar o projeto mais arrojado ou emblemático da Vicoustic. Sim, a Igreja de São Gabriel, no Líbano, ou os estúdios da televisão iraniana IRUB foram experiências virtuosas e estimulantes. Mas, se têm de apontar um projeto marcante, citam, pela coragem e risco, o da televisão britânica ITV. Fora a insonorização, em 2010, dos estúdios da Limepictures, que despertara a curiosidade do mercado de radiodifusão britânico para as soluções acústicas de uma pequena e desconhecida empresa portuguesa. O sucesso do projeto levou a que a ITV lhe adjudicasse o projeto do seu estúdio em Leeds. Na altura, “os concorrentes ingleses e a própria consultora que assessorou a ITV torciam pelo nosso fracasso”, recorda Jorge Castro. O desafio era arriscado e consistia em garantir um tempo de reverberação inferior a 0,6 segundos, lidando com frequências de 125 Hertz. Se o resultado não fosse atingido, o cliente não pagava. Mas tudo o que podia correr bem correu mesmo bem. Foi “uma bofetada de luva branca em quem desconfiava da nossa capacidade”.
O sucesso acionou uma espiral virtuosa que levou outras cadeias de televisão a recorrer aos serviços da marca portuguesa.
A BBC foi uma delas. O primeiro contrato envolveu o tratamento acústico de zonas do estúdio em Londres em que é gravada a sitcom “EastEnders”, uma séria no ar há mais de 30 anos. Foi o início de uma bela amizade entre a Vicoustic e a BBC, que se aprofundou com outros projetos conjuntos, entre os quais se incluem intervenções na Media City, em Manchester.
Na acústica, os vencedores impõem-se “pela competência técnica, pela capacidade de inovação e estética”, refere César Carapinha. A combinação perfeita dos três fatores permitiu à Vicoustic ganhar a confiança do mercado. Um outro atributo é ter equipas que testam e montam as soluções acústicas. Os equipamentos “podem ser copiados, o serviço não”.
César e Jorge ainda se lembram do tempo em que a Vicoustic era uma empresa de dois jovens de T-shirt que trabalhavam 24 horas por dia, tentando singrar no mercado. Seis anos e dois milhões de euros de investimento depois, a Vicoustic conta já com 17 especialistas e os seus produtos envolvem diretamente mais de 100 empregos industriais. Sem ruído, a empresa toca uma nova sinfonia no mercado da acústica.
Este artigo é parte integrante da edição 345 da Revista EXAME