De olhos bem fechados experimente comprar um bilhete de comboio numa máquina com ecrã tátil. Ou faça um pagamento num terminal sem teclas: que solução, além de dar o seu código secreto ao empregado? Estas são apenas duas das armadilhas que os avanços tecnológicos pregaram às pessoas com deficiência visual. A solução passará por integrar nos novos equipamentos ferramentas como leitores de ecrã ou assistentes pessoais. No início de abril, o Facebook anunciou a introdução do Texto Automático Alternativo, uma funcionalidade que vai permitir aos invisuais ouvirem uma descrição automática das fotografias partilhadas naquela rede social. Ainda sem data de lançamento definida, surgirá de forma faseada em diferentes países.
“É na escrita que se sente mais que o tátil é uma barreira”, explica Fernando Santos, técnico informático da ACAPO Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal.
Utilizar um teclado virtual pode ser uma carga de trabalhos. Os carateres não são diretos, há um “delay” até que a letra premida apareça no ecrã e o sintetizador de voz demora a atuar. Tudo funções que dificul- tam a tarefa de escrever. Habituado a testar as mais inovadoras aplicações, Fernando Santos acredita que “nos tempos mais próximos não será possível desenvolver apps que substituam a bengala, muito por culpa de um problema do sistema de GPS que, propositadamente, tem uma margem de erro na casa dos 10 a 20 metros. Mesmo que a margem fosse menor, não ajuda a passar entre um carro e uma parede.”
VER COM OS OUTROS SENTIDOS
João Barroso sonha, precisamente, em conseguir tornar as bengalas cada vez mais sensitivas e imprescindíveis. Há seis anos que o professor de informática na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro lidera uma equipa de investigação que desenvolve diversos projetos para cegos. Criaram uma bengala eletrónica, a CE4Blind, em conjunto com a universidade do Texas, nos EUA, cuja primeira versão começou por ler as etiquetas (tags) colocadas quer na rua, quer no interior dos edifícios, com indicações para chegar a um elevador, por exemplo. “O cego pode depois carregar no joystick incorporado no punho da bengala e receber mais informações desses pontos de interesse”, explica o investigador. Ainda em protótipo, as bengalas feitas de uma fibra leve e com a eletrónica incorporada no tubo, vibram antes de se ouvir a informação num auricular. Há um ano, começaram a fazer o upgrade do equipamento, incorporando mais sensores que reconheçam os passos da pessoa e a guiem como um GPS.
Esta nova versão da bengala eletrónica quer eliminar o uso do telemóvel, em simultâneo, deixando uma mão livre.
Já Filipe Almeida e Silva tem o sonho de “criar uma rede gigantesca invisível” que chegue, pelo menos, aos 65 milhões de cegos europeus, entre os quais há 160 mil portugueses. Ouvida a explicação de como funciona a My Eyes, tudo parece possível.
A inovação desta app prende-se com a combinação de três tecnologias (geofencing, beacons e text to speech) agrupadas numa única aplicação, o que tornará possível chegar a um centro histórico, a um hospital ou a um centro comercial e ouvir, como se de um telefonema se tratasse, informação tão variada como se há um buraco na via pública, se o raio X fica ao fundo do corredor ou se a loja procurada fica ao dobrar da esquina. “Estas aplicações marcam uma nova etapa, auxiliando as pessoas cegas na sua vivência diária, ajudando-os a suprir a incapacidade que têm”, salienta o investigador do ISCTE. A My Eyes já mapeou Fátima, com a Via Sacra ao pormenor (a pensar na vinda do Papa Francisco em maio de 2017), Marina de Vilamoura, Cascais, Sintra, Coimbra, Batalha, Tomar, o Campera Outlet, no Carregado, e o Estádio Universitário de Lisboa.
Outro verdadeiro “trabalho de vanguarda” está a ser feito por Tiago Guerreiro e Hugo Nicolau, ao disponibilizarem gratuitamente os modelos de duas ferramentas que facilitam a escrita em alfabeto braille nos smartphones.
Os dois professores conheceram-se há oito anos enquanto faziam o doutoramento em Engenharia Informática no Instituto Superior Técnico. Desde então, investigam novas tecnologias na área da acessibilidade.
Com a evolução da tecnologia e as teclas dos telemóveis cada vez mais obsoletas, o projeto desta dupla tornou-se uma necessidade a aplicar nos ecrãs táteis. No site braille21.com pode descarregar-se (para Android) o OpenBraille, ideal para assuntos mais privados pois em vez de feedback auditivo permite receber notificações em braille.
A destreza com que Rodrigo Santos desbloqueia o smartphone para “ver” se tem chamadas perdidas, sms por responder ou novos e-mails, deixa qualquer pessoa boquiaberta.
O dedo desliza com tanta rapidez que não deixa ouvir o que o VoiceOver, disponível desde o primeiro minuto nos equipamentos da Apple, tem para dizer. “Se não fosse o Steve Jobs a implementar acessibilidade nativa nos iPhones, ainda hoje muitos fabricantes de telemóveis não teriam sequer pensado em recursos de acessibilidade, mesmo que básicos. A Microsoft, no Windows Phone, ainda hoje não pensou, e a Google só terá pensado nisso para os Android porque a sua concorrente direta estava a ganhar terreno com essa quota de mercado”, acredita o jurista e presidente do Conselho Fiscal e de Jurisdição da ACAPO.
Cego de nascença, Rodrigo Santos, 38 anos, anda sempre acompanhado pelo Babel, um labrador cão-guia, mas já não dispensa o uso das inúmeras apps que, hoje em dia, podem ajudar um cego. “A tecnologia abre-nos um mar de possibilidades, com a sua capacidade de processamento, de interação e de debitar informação em múltiplos formatos, mas pode também funcionar como uma barreira se as aplicações não forem bem desenhadas. Chamar-lhes “botão 1” ou “botão 2″ não nos serve de nada.”

O HoliBraille é uma ferramenta que facilita a escrita em braille em smartphones e outros dispositivos com ecrãs táteis
8 Apps que traduzem o mundo
TAXI-LINK
Para pedir um táxi, com a vantagem de indicar quanto tempo falta para o carro chegar.
Disponível para Android e iOS. Gratuito
LISBOA MOVE ME / PORTO MOVE ME
Pesquisa nas paragens dos operadores de transportes públicos quanto tempo falta para que chegue o próximo veículo. No caso da Carris, em Lisboa, a informação é dada em tempo real, o que não acontece com o Metro.
Disponível para Android e iOS. Gratuito
MOOVIT
Ajuda a andar de transportes públicos, traçando uma rota do ponto A para o ponto B, avisando onde deve sair.
Disponível para Android, iOS e Windows Phone. Gratuito
ARIADNE GPS
Indica o nome da rua e, em muitos casos, o número da porta. Permite explorar em detalhe o que há em volta, como monumentos ou universidades, bastando tatear o ecrã.
Disponível para iOS. Preço: €5,99
AUDIOLABELS
Associa uma etiqueta vocal a um código de barras fotografado ou a um QR Code, identificando com áudio os produtos de supermercado, por exemplo.
Disponível para iOS. Preço: €9,99
BE MY EYES
Recorre à câmara do smartphone, a uma ligação à internet e a um grupo de voluntários com visão. Através de uma chamada telefónica com vídeo, os voluntários descrevem aos cegos o que veem. Bom para saber a data de validade de um produto ou o melhor caminho a seguir na rua. Uma comunidade com cerca de oito mil invisuais para cem mil voluntários.
Disponível para iOS. Gratuito
BLIND TOOL
Software usa a câmara fotográfica dos smartphones para identificar e descrever objetos.
Disponível para Android. Gratuito
TALKING GOGGLES
São uma espécie de “óculos falantes” que convertem a câmara do telemóvel num reconhecedor ótico de caracteres, transformando, por exemplo, as legendas da televisão em texto audível.
Disponível para iOS. Gratuito