Desde que começou a pandemia, a comunidade científica tem vindo a descobrir que o SARS-CoV-2 deixa marcas em órgãos como os pulmões e o coração, mas as sequelas também ocorrem no plano cerebral. Na chamada Covid longa, problemas neuropsiquiátricos que persistiram ou se intensificaram nos seis meses seguintes à infeção parecem ser comuns, como mostra um estudo da Lancet , que envolveu mais de 236 mil pacientes com diagnóstico de Covid-19: a incidência estimada de um diagnóstico neurológico ou psiquiátrico meio ano depois foi de 34% e, nos doentes que tinham sido internados nos cuidados intensivos, esse valor atingiu os 46%, com destaque para as perturbações ansiosas e depressivas, quadros psicóticos e nevoeiro mental. Na edição de dezembro da National Geographic, a neurocientista e psiquiatra do Centro Médico Irving da Universidade de Columbia em Manhattan, Maura Boldrini, avançou a seguinte hipótese: alguns sintomas da Covid longa – foi identificada mais de uma centena, em dez sistemas de órgãos – espelham os causados por doenças que alteram a anatomia cerebral. É o caso das lesões provocadas por traumatismos e doenças como Parkinson, Alzheimer e Huntington, por acidentes de viação e infeções virais. Boldrini admitiu que “a tempestade de proteínas de citocinas inflamatórias” associada ao novo coronavírus pode desencadear uma desregulação na resposta imunitária ao ponto de originar a destruição permanente das células cerebrais. Dadas as alterações emocionais, cognitivas e interpessoais envolvidas, existe a possibilidade de mudanças ao nível da personalidade. “Podemos não voltar a ser os mesmos”, afirmou a investigadora à revista.
O vírus e a química cerebral
Tendo em conta o que se sabe até hoje no campo da personalidade – padrões de pensar, sentir e agir que definem a individualidade pessoal e social – é que ela se mantém constante ao longo da vida. Em face de doenças ou lesões que perturbam as funções cerebrais, é possível que surjam alterações no plano do caráter. No artigo refere-se o caso de um ex-fuzileiro naval e fotógrafo documental que desenvolveu sintomas psicóticos na sequência de uma infecção pelo SARS-Cov-2: Ivan Agerton começou a ter delírios paranóides, alucinações auditivas, condutas impulsivas e irracionais, chegando a ser hospitalizado, por duas vezes, numa unidade psiquiátrica. A “psicose Covid” desapareceu mas não se sabe ao certo quanto dura este e outros sintomas (dificuldades cognitivas, depressão, ansiedade, problemas de sono, dificuldades a executar tarefas de rotina) de que pode sofrer quem foi internado com Covid-19.
As células inflamatórias lançadas na corrente sanguínea para combater o vírus SARS-CoV-2 podem, embora indiretamente, ser responsáveis por mudanças na química cerebral e suas manifestações neurológicas
A associação entre mudanças de comportamento e alterações cerebrais é real na doença de Alzheimer: os danos causados pela acumulação da proteína beta-amilóide bloqueiam as vias de comunicação e levam à morte de neuronal; esquecimentos, desorientação, mudanças de humor e comportamentos erráticos são fruto dos danos no córtex cerebral.
Da mesma forma, quem sofre de Parkinson fica com os movimentos mais lentos, tremores e, não raras vezes, sofre de estados depressivos, ansiosos e apatia, devido à destruição dos neurónios responsáveis pela produção de neurotransmissores como a dopamina (ligada à sensação de prazer e à motivação) e a serotonina (regula o humor, o sono e o apetite).
As alterações cognitivas, de memória e a desregulação emocional eram comuns nos doentes com SIDA, no início da epidemia de VIH, e afetam quem sofreu lesões nos lobos frontais, após acidentes de viação ou em desportos de contacto, como o futebol. Maura Boldrini considera plausível que as células inflamatórias lançadas na corrente sanguínea para combater o vírus SARS-CoV-2 possam ser responsáveis por mudanças na química cerebral e suas manifestações neurológicas, mais ou menos duradouras. Fará sentido?
Cérebro, mente e imunidade
“O dano cerebral é raríssimo e é só causado nos doentes internados em cuidados intensivos, porque têm uma pneumonia por Covid-19 e falta de oxigénio ou devido a uma reação inflamatória muito grande”, afirma o diretor do Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, José Ferro. “O resto são reações de natureza psicológica, sobretudo perturbações ansiosas”, expectáveis numa doença que, nos casos graves, dura semanas e “as pessoas vivenciam-na como muito ameaçadora, até por estarem isoladas”. De resto, “os resultados dos exames de imagem feitos para avaliar o cérebro são, quase sempre, normais”.
Sobre a incidência estimada de diagnóstico neurológico ou psiquiátrico do estudo da Lancet, o especialista interpreta-as da seguinte forma: “Os doentes são muitos e alguns têm as doenças que são mais frequentes – acidente vascular-cerebral, demência ou Parkinson, por exemplo – que já existiam antes do diagnóstico ou foram diagnosticadas na altura”, ou seja, mais das vezes “não se podem atribuir à Covid-19”.
Não temos observado qualquer caso de perturbação orgânica da personalidade; registamos, sim, perturbações de ansiedade, depressivas e de sono, fadiga e stresse pós-traumático
Miguel Bragança, diretor do Serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto
Miguel Bragança, diretor do Serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, refere que “na nossa clínica, não temos observado qualquer caso de perturbação orgânica da personalidade; registamos, sim, perturbações de ansiedade, depressivas e de sono, fadiga e stresse pós-traumático.” O médico admite que nos casos de anóxia ou hipóxia cerebral (falta ou diminuição de oxigénio) grave, em que a pessoa fica ligada ao ventilador durante semanas, “pode sofrer lesões pela ação indireta do vírus, mas o cérebro têm neuroplasticidade e consegue regenerar-se”. Quando as lesões são irreversíveis, elas “só podem ser diagnosticadas ao fim de muitos meses”.
Veja-se o caso de Phineas Gage, operário americano cujo cérebro foi perfurado por uma barra metálica num acidente com explosivos, no século XIX. O homem sobreviveu mas, anos depois, teve uma mudança radical da sua personalidade: deixou de ser uma pessoa afável e passou a ter mau humor e condutas irresponsáveis. Mais tarde, o estudo do seu cérebro permitiu aos neurocientistas concluir que a lesão nos lóbulos frontais se traduzia em alterações do caráter. “Isto sim, é uma perturbação orgânica da personalidade, que afeta o cérebro, ou o hardware; no caso da Covid-19, temos perturbações funcionais, na mente, ou no software.”
Complexidade e poucas certezas
“O SARS-CoV-2 causa disfunção cerebral através de mecanismos mediados pela inflamação”, afirma o neurologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Filipe Palavra. Seja pela invasão direta ou devido à libertação de uma cascata de mediadores inflamatórios, “o dano cerebral existe, de facto, tal como no caso de outros vírus, entre os quais o VIH e o Epstein-Barr”. Porém, acrescenta, parece-lhe “demasiado alarmista colocar no mesmo artigo [da National Geographic] referências às doenças de Alzheimer, Parkinson e de Huntington”.
O diagnóstico de doença mental associada à infeção é complexo e tem muitas variáveis. Embora o SARS-CoV-2 seja uma delas, não pode ser a causa de todas as alterações identificadas, afirma o neurologista Filipe Palavra
Da mesma forma, será “exagerado” atribuir a doença mental exclusivamente à infeção pelo SARS-CoV-2: “A psicose, a ansiedade e os sintomas depressivos não podem ser vistos apenas à luz do processo agudo da infeção, sem ter em conta o confinamento, o isolamento social e a catadupa de informação negativa e pessimista sobre a pandemia.” Em síntese, o diagnóstico de doença mental associada à infeção é bem mais complexo, “com múltiplas variáveis envolvidas e, embora se reconheça que o vírus é uma delas, não pode ser visto como a causa de todas as alterações identificadas”.
Para António Pais de Lacerda, diretor do Serviço de Medicina 2 do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, “pode persistir alguma sintomatologia de vários órgãos após a doença provocada por SARS-CoV-2, durante um tempo que ainda não podemos dizer”, desconhecendo-se os efeitos da infeção viral a longo prazo.
A curto/médio prazo, em algumas pessoas que contraíram a infecção, “temos encontrado uma fadiga que perdura além de três meses e para a qual não se encontra outra explicação”, além de “aperto/cansaço torácico” com sensação de falta de ar, palpitações mais frequentes do que antes, dores musculares ou articulares, alterações gastrointestinais, e, acrescenta o clínico, “sintomatologia neuro-psíquica, com ansiedade e depressão, cefaleias e insónias, dificuldade de concentração e memória e períodos de confusão”.
Os agentes que invadem o nosso corpo não são os únicos responsáveis pelos efeitos neuro-psíquicos, ou outros, a longo prazo; há também a resposta do nosso corpo a essas invasões, gerando mecanismos de autoimunidade que vão permanecer
António Pais de Lacerda, diretor do Serviço de Medicina 2 do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte
No seguimento clínico de alguns dos doentes com Covid-19 internados no hospital, “é notória alguma diferença entre o antes e o depois da infeção”. Dito isto, António Pais de Lacerda relembra as repercussões da epidemia de encefalite que assolou a Europa e a América do Norte na segunda década do século XX, que “teve consequências a médio e longo prazo, por lesar núcleos da base do cérebro, causando parkinsonismo”. E reconhece, no que respeita ao SARS-CoV-2: “Os agentes que invadem o nosso corpo não são os únicos responsáveis pelos efeitos neuro-psíquicos, ou outros, a longo prazo; há também a resposta do nosso corpo a essas invasões, gerando mecanismos de autoimunidade que vão permanecer.”