Quando no final de janeiro voou para o país mais populoso do planeta, Mariana Domingues não adivinhava o que a esperava. Para a jovem de Leiria, 30 anos, que aceitou um emprego como au-pair na casa de uma funcionária da companhia petrolífera chinesa, era a aventura de uma vida. A trabalhar num escritório, tirou licença sem vencimento e voou para Dalian, no outro extremo do país, perto da fronteira com a Coreia do Sul.
“A proposta inclui cama, comida e roupa lavada, além de uma pequena mesada, para ensinar inglês a uma criança de quatro anos”, conta a rapariga, pelo WeChat, o sistema de conversação que naquele país substitui o Whatsapp. Levanta-se às seis e meia da manhã e, até às dez da noite, com direito a um pequeno intervalo durante a sesta do miúdo, está ao seu serviço.
“Como é que ia supor uma coisa destas”, segue, antes de nos falar dos outros efeitos do vírus mortal, que assola agora o mundo inteiro. Bem que cumpriu a quarentena a que todos foram obrigados, e usa sempre máscara. Mas os traços ocidentais do seu rosto não a livram de continuar a ser olhada de lado.
O inimigo é o outro

D.R.
“Com os casos nacionais a descer, e os importados a aumentar, ser estrangeiro na China tornou-se uma experiência estranha”, desabafa a jovem,a partir da cidade de Benxi, zona rural onde floresceu um centro metalúrgico e onde vive a avó da criança. Foi ali que a acolheram nas três primeiras semanas, em quarentena, depois de aterrar na China, e onde a família passa muitos fins de semana. ” Parece que somos o inimigo.”
Teve de se inscrever na polícia e, como estrangeira numa cidade pequena, foi várias vezes impedida de frequentar restaurantes. “Ou então, quando chegava, via várias pessoas levantarem-se e saírem”. Por todo o lado há uma brigada do termómetro, pronta a medir a temperatura a tudo e todos. E máscaras, muitas máscaras.
“As autoridades chinesas preocuparam-se muito em dar toda a informação sobre o vírus, depois de terem adiado a sua comunicação. Deram máscaras a toda a gente e repetem-no todas as semanas.”
Por detrás da máscara

Nesse primeiro tempo de estada, saiu de casa apenas três vezes. Quando finalmente se instalou em Dalian, passou mais três semanas com um polícia à porta, para lhe tirar a temperatura à entrada e à saída. Agora que passaram mais dois meses já sai de casa mais tranquila, mas quando está fora da cidade não o faz sem a família. “Uma vez, numas termas, vieram mesmo convidar-me a sair.”

Ainda assim, é muito menos do que passam os estrangeiros que chegam agora. Mal aterram, são levados de autocarro para um hotel, onde têm de cumprir a quarentena, pago do seu bolso.
“O governo aqui não abre o jogo, quase desesperei por falta de informação. A doença tornou-se assunto tabu. Acredito para não criar ansiedade, aqui vivem muitas pessoas. “Aqui pode-se morrer de pânico”. Aqui, sublinha, explicaram tudo sobre a forma como o coronavírus de propaga. Mas não sobre os casos: se eram muitos ou poucos, ou sequer quantos havia, dia a dia, como estão a fazer em Portugal”. Ali, sublinha, não dizem nada. Aliás, “agora, na rua dizem que está tudo bem.”