De um lado, uma linha de vivendas, cada uma com uma casota para o cão no pátio, separadas por árvores de um parque florestal que se estende para trás. Do outro, um bloco de prédios com lojas no rés do chão, serviços básicos do dia a dia: um café, uma loja de informática, um cabeleireiro, uma mercearia, um pronto-a-comer e… uma sex shop. O cor-de-rosa-choque da porta da rua não engana: lá dentro, encontramos todo um mundo que saiu da intimidade do quarto.
“As pessoas vêm cá abastecer-se como quem vai à farmácia”, conta Susana Abreu, 33 anos, a dona da loja, depois de revelar que foi a forma que encontrou de criar o seu próprio emprego: “Aqui uma loja de sapatos nunca ia dar”, justifica, convicta.
Estamos perto de Santarém, na Urbanização Jardins de Cima, e não há sinais de qualquer indignação por perto – nem mesmo quando aquela Love Shop abriu se repetiu o cenário vivido na vizinha Rio Maior, quando outro alguém se aventurara naquele tipo de empreendimento, corria o ano de 2003. Na altura, a distância de menos de 300 metros da escola obrigara-o a fechar poucos dias depois.
A viver ali a poucos quilómetros, Susana, que trabalhou vários anos numa oculista, não se lembra desta história. Mas ao ficar desempregada quando engravidou da filha, Lara, 7 anos, decidiu criar o seu próprio emprego e pensou logo que retorno garantido ao fim do mês era uma sex shop. “Até foi em conversa com o meu marido e depois tive o apoio do centro de emprego, para criar o projeto de negócio.” A mãe, no início, ainda torceu o nariz: “Vais destruir muitos casamentos!” “Hoje sei que salvei muitos”, riposta, a sorrir. E recorda a história de uma cliente que levou uma lingerie nova para estrear no Dia dos Namorados. “O marido dessa senhora, dono de uma loja de animais, retribuiu enviando-lhe um cão com um cartão a dizer: ‘Porque não lhe posso dar nada que seja mais fofinho’.”
O resto da família também lhe dá o máximo apoio: tanto as duas irmãs, também suas clientes, como os sogros. Quando engravidou do mais pequeno (Miguel, 2 anos), manteve-se a trabalhar até ao parto. “Depois, tirei seis semanas de licença e foi a minha mãe e a minha sogra que estiveram aqui na loja, para não fechar.” E ainda lhe vão muitas vezes dar uma ajuda, seja à semana ou ao sábado à tarde.
Questionamo-la então sobre quem vai ali – Susana nem hesita: “Toda a gente.” Garante que tem clientes sempre mas nota-se mais nos dias de receber. Ou seja, primeiro vêm os reformados, entre 10 e 12, “sobretudo homens depois dos 60, que vão buscar os potenciadores”. Depois, quem recebe reforma do Estado, por volta do dia 19; a seguir, chegam os dos vencimentos na Função Pública, entre os dias 23 a 25 – e os outros vêm mais perto do dia 30. “Compram todo o tipo de coisas para manter a relação.” Como quem diz, lingerie, óleos de massagem, vibradores… Ainda há alguns mais tímidos, que telefonam antes a fazer a encomenda, levam dinheiro para pagar a pronto e, às vezes, pedem-lhe o favor de guardar tudo num saquinho do Continente. Mas a maioria assume sem vergonhas – “até brincam: vou ali à minha doutora” – e não se acanha nem quando uma ou outra geringonça avaria: “Às vezes dizem: ‘ah, o vibrador não funciona’. Na maioria das vezes é só uma pilha. Mas também troco, como tem garantia de dois anos… costumo dizer que é como um eletrodoméstico.”
E se houve uma ou outra situação indelicada quando abriu, agora até os casais com filhos lhe batem no vidro a acenar-lhe bom dia. No ano passado a loja foi até palco para cinema, quando os produtores de O Eclipse em Portugal lhe propuseram usá-la como cenário nas cenas em que a personagem de Fernanda Serrano, dona de uma sex shop, aparecia. “Posso ainda mostrar aqui o Giant Lover, outro protagonista nesse filme”, brinca Susana, a apontar para um dildo tamanho XL, numa prateleira com muitos outros vibradores, de tamanhos e cores variados. “Custam entre 15 e 80 euros, são para todas as bolsas”, para depois acrescentar que quem é cliente habitual acumula 25 por cento de desconto em cartão.
Nada que atrapalhe sequer o comércio em volta. Carla Gonçalves, 39 anos, dona do Mistura Fina, um pronto-a-comer, explica que quando lhe perguntam onde fica a sua loja, costuma responder: “Sabe onde fica a sex shop? É ao lado!”