Quando me deitei na noite de quarta-feira, 24 de abril de 1974, tinha acabado de passar os olhos pelo noticiário relacionado com as eleições presidenciais francesas marcadas para 5 de maio, disputadas sobretudo entre o socialista François Mitterrand, o gaullista Jacques Chaban-Delmas e o liberal Valéry Giscard d’Estaing – que, na segunda volta, viria a triunfar à tangente sobre o candidato da esquerda, no que seria o fim do gaullismo puro e duro, pouco depois da morte de Georges Pompidou. Tencionava ir, no dia seguinte, a uma tabacaria do Rossio comprar a última edição disponível do diário Le Monde e os números mais recentes dos semanários Le Nouvel Observateur e L’Express, grandes janelas rasgadas sobre o mundo, numa época em que ainda não era muito corrente ler, ou falar, em inglês.
Era redator do vespertino A Capital e, na primeira página da edição desse dia 24, tinha vindo anunciado que o jornal estaria presente no despique eleitoral gaulês “através do enviado especial Almeida Martins”. Ir a Paris era sempre uma excitação. Mas não cheguei sequer a ir ao Rossio no dia 25 e, mesmo que tivesse ido, não teria sido, decerto, para comprar Imprensa francesa, nem tão-pouco partiria para França nos dias imediatos. A verdade é que poucos portugueses se terão interessado, nos tempos mais chegados, pelo que se passava naquele país de além-Pirenéus.
