O presidente da Ação Democrática Independente (ADI), maior partido da oposição, chegou ao Aeroporto Internacional Nuno Xavier num voo privado pelas 12:45 (mais uma hora em Lisboa), onde era aguardado no exterior por milhares de apoiantes, vestidos com t-shirts e bonés amarelos e azuis, as cores da ADI.
Quando saiu do avião Trovoada empunhou uma bandeira de São Tomé e Príncipe e percorreu todo o gradeamento exterior do aeroporto, onde se concentravam os seus apoiantes, que o descreviam como que o “pai grande” e o saudaram com entusiasmo.
Aos apoiantes, Patrice repetia “uan” (um, em crioulo forro, o lugar em que o ADI surge no boletim de fotos), ao que aqueles respondiam “nhé pé” (‘escreve’).
“É Deus no céu e ele na Terra”, dizia uma mulher, que chegou ao aeroporto pelas 09:00.
Nas primeiras declarações aos jornalistas, Trovoada disse sentir “uma grande emoção” e que o seu desejo é “falar com os são-tomenses”.
“Trago uma mensagem de esperança. O país tem solução. Há dificuldades, existem sempre, mas há uma vontade firme de mudança do país. Há esperança no futuro”, afirmou.
O antigo chefe de governo afirmou ainda o propósito de apaziguar a sociedade e fazer de São Tomé e Príncipe um país “mais unido”.
Patrice Trovoada, que tem reclamado maioria absoluta para liderar o próximo governo de São Tomé e Príncipe, afirmou estar “confiante” na vitória, mas alertou que “até ao apito final” o jogo continua.
“Um aspeto muito importante é que estou cá. Diziam que eu não vinha, mas estou aqui”, salientou.
Questionado se receava algum problema com a sua segurança, o líder da ADI disse que a responsabilidade das pessoas e dos candidatos cabe ao Governo, acrescentando esperar que o mesmo “faça o seu trabalho”.
Trovoada afirmou ainda a esperança de que as eleições legislativas do próximo dia 25 sejam “livres, democráticas e decorram em paz”.
Do aeroporto, Patrice Trovoada seguiu a pé para a capital, onde está marcado um comício da ADI junto ao Estádio 12 de Julho.
Além dos milhares de apoiantes que esperavam Patrice Trovoada, algumas dezenas de pessoas quiseram mostrar o seu desagrado com o regresso do antigo governante. Em cima de carrinhas de caixa aberta, homens completamente vestidos com panos pretos dirigiam-se hoje de manhã para o aeroporto.
“Estamos de luto. Para nós, Patrice morreu”, disse à Lusa um dos homens, que criticava a ausência do ex-primeiro-ministro do país durante quatro anos.
Patrice Trovoada, que chefiou executivos são-tomenses em três ocasiões, a última das quais entre 2014 e 2018, com maioria absoluta, saiu do país pouco após as eleições legislativas de outubro de 2018, que o seu partido venceu, mas não conseguiu formar governo perante um acordo pós-eleitoral entre o MLSTP/PSD e a coligação PCD/UDD/MDFM, que reclamaram maioria absoluta.
Desde então, o antigo chefe de Governo tem apontado a falta de garantias de segurança para regressar ao país, nomeadamente denunciando o que disse ser a promiscuidade entre justiça e política, depois de um dos seus ex-ministros, Américo Ramos, ter sido detido pela Polícia Judiciária, sem mandado do Ministério Público, e outro antigo membro do seu executivo, Carlos Vila Nova — atual Presidente da República — ter sido impedido de viajar para Portugal.
A data de regresso de Patrice Trovoada ao país motivou especulação nos últimos dias, o que levou a ADI a fazer comunicados para desmentir possíveis datas da chegada do líder, enquanto opositores criticam a ausência prolongada do ex-primeiro-ministro.
“O poder quer fazer do regresso de Patrice Trovoada um tema de campanha, a ADI quer o regresso de Patrice Trovoada para reforçar o nosso trabalho político no terreno”, referiu o líder da ADI, que salientou que o Governo tem o dever de garantir a segurança das pessoas, nomeadamente dos candidatos às eleições.
No total, 10 partidos e uma coligação concorrem às eleições legislativas de 25 de setembro em São Tomé e Príncipe, que realiza no mesmo dia eleições autárquicas e para o Governo Regional do Príncipe.
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