Calma. Portugal ainda não perdeu.” Com esta frase, Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), elimina qualquer conjetura ou jornal internacional que ponha o Porto fora da corrida para receber, em abril de 2019, a Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla inglesa). E prova disso é que, na contagem decrescente, tanto o telefone do seu gabinete como o seu telemóvel não têm parado de tocar. Do outro lado “estão colegas a fazer campanha pelas suas cidades”. Ora, explica o ministro, “eu também estou a fazer a minha”.
Nesta última semana antes da decisão que anunciará a cidade escolhida – a votação dos 27 Estados-membros da União Europeia decorrerá segunda-feira, 20 – tudo se resume a uma questão de contabilidade. Tendo sido cumpridas as questões técnicas e condições impostas pelo exigente caderno de encargos, é a política que entra em jogo. E aqui “há um trabalho de formiguinha a fazer, em que a discrição é o mais importante”, avança o ministro. “Tenho de conquistar 26 países para votar em Portugal, quando todos estão a tentar conquistar uns aos outros.”Neste jogo de charme ou poder, as relações diplomáticas contam para reunir e trocar votos. E há cálculos a fazer. Há 27 países a votar em 19 candidaturas. Cada país tem seis votos, os três primeiros são para si próprio, dois para a segunda escolha e um para a terceira. “Se na primeira votação um país tiver 14 votos, ou seja, for a primeira escolha para 14 países, automaticamente ganha. Se isso não acontecer, haverá voltas sucessivas com os dois melhores classificados até encontrar o vencedor. O importante seria passarmos à segunda volta”, confessa à VISÃO Ricardo Valente, membro da comissão nacional de candidatura em representação da Câmara Municipal do Porto.

“O Porto tem uma candidatura forte mas, no final, a decisão é política”, diz Ricardo Valente, representante da Câmara do Porto na candidatura
Lucília Monteiro
O MNE está ainda a “usar os contactos ao mais alto nível do Governo” e ele próprio a “realizar diligências”, usando também os embaixadores, para “negociações de trocas de apoios, pois ainda há portas a que é preciso bater”. E assegura fazer todos os esforços a pensar numa primeira volta. “Portugal guarda três votos para si e tem três para a troca. Se há oito países que não se candidatam [Chipre, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Luxemburgo e República Checa], cada um tem seis votos para a troca. Portugal também tem seis votos para dar na candidatura da Agência Bancária Europeia”, explica Santos Silva, sem querer levantar mais o véu.
Transponha-se este calculismo contabilístico para 27 países, 19 dos quais candidatos à EMA e oito candidatos à Agência Bancária Europeia (alguns países candidatam-se às duas, mas só podem ganhar uma, e a votação decorre no mesmo dia), imagine-se a complexidade e a dificuldade dos equilíbrios, nos quais a Aicep e o Turismo de Portugal também tiveram um papel. “Houve contactos parceiro a parceiro. Esta não é uma campanha dirigida à opinião pública”, remata Santos Silva.
Os pontos fracos
O processo de candidatura de Portugal à EMA começou torto. A primeira escolha foi Lisboa e depois a troca desta pelo Porto fez com que a campanha arrancasse tarde. A partir de então, Ricardo Valente e Eurico Castro Alves foram os homens do Porto na comissão nacional de candidatura, muito acompanhada no terreno pelas secretarias de Estado dos Assuntos Europeus – primeiro Margarida Marques e, depois, Ana Paula Zacarias – e pelo ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes.
As primeiras ações foram para apresentar a candidatura junto dos cerca de 900 funcionários da EMA, dar a conhecer a cidade, eliminar uma possível opinião negativa e uma recusa de se transferirem de Londres para o Porto. A equipa dirigente levantou uma série de questões relacionadas com um dos três edifícios propostos para a nova sede, as escolas para os filhos e as acessibilidades e ligações diretas do aeroporto do Porto, uma vez que muitas delas usam ponte aérea com Lisboa.
A questão dos edifícios estará ultrapassada. Quanto às escolas internacionais, foi detetada uma incapacidade de acolher cerca de 300 crianças entre os
3 e os seis anos. “Mas isto já foi corrigido”, explica Ricardo Valente. “O Porto assumiu o compromisso de criar dois estabelecimentos de ensino pré-escolar. Uma por construção própria e outra em parceria com uma entidade privada, o CLIP, para acolher as crianças da EMA.”
Quanto à falta de ligações diretas no aeroporto do Porto, o ministro é taxativo: “É a lei da oferta e da procura. Se os funcionários vierem, as ligações aéreas também”. Ricardo Valente foi mais preciso: “Temos um aeroporto top a nível europeu, em termos de qualidade de capacidade de expansão. Vai terminar o ano com 11 milhões de passageiros, tem capacidade para 15 milhões e vai agora expandir para receber 20 milhões de passageiros em 2020.” E, neste ponto, é difícil passar em branco o abandono da TAP. “A nossa companhia de bandeira passou a ser a Ryannair, que vai montar um hub europeu no Porto. A Iberia também está a criar ligações diretas. O que vendemos é que com a instalação da agência o aeroporto tem capacidade de expansão e, se houver fluxo, as companhias irão acompanhar essas necessidades”, realça Ricardo Valente.
Vantagens competitivas
O Porto é a única candidatura a disponibilizar três edifícios para acolher a EMA, um dos quais a construir de raiz e dois a necessitar de extensões. Os projetos estão prontos a avançar e garante-se que tudo estará pronto no início de 2019. “A 17 de outubro, o Porto apresentou as três localizações com conceitos prévios. E passou a única candidatura com os três locais na zona verde”, conta o vereador da economia e turismo da autarquia portuense. “É relevante porque mostra o potencial de crescimento e a capacidade de receber grandes equipamentos. E os três estão em áreas centrais da cidade.”
De resto, vende-se qualidade de vida. O sol, uma cidade à escala, a praia, o rio, a mobilidade, as escolas dos filhos, tudo perto e sem perder muito tempo no caminho casa-trabalho. Algo importante para quem vem de uma megacidade.
Também é preciso ter casas para arrendamento. “Estamos a falar de 600 a 700 casas e este é um desafio para todas as cidades.” À semelhança da grande Londres, pensou-se no Grande Porto (Porto, Matosinhos, Gaia e Maia). Se a agência se instala por 25 anos, não é difícil convencer os promotores imobiliários e até alguns agentes a disponibilizar casas para arrendar. Ricardo Valente conta como mostraram as estatísticas: “Nos próximos dois anos vão ser construídos à volta de 19 empreendimentos, cerca de 4 500 apartamentos. Ficaram sossegados quanto a este ponto.” E os preços aparecem como outra vantagem competitiva: “Uma renda no Porto é cerca de 30% de uma renda em Milão e 10% em Londres. Somos a cidade melhor posicionada na qualidade de vida versus custo de vida, o que é importante”.
O centro, o leste e o norte
O Porto defendeu a sua candidatura com garras e dentes, mas afinal quais são as hipóteses de vencer? Para Ricardo Valente, o receio vem de Milão, Itália. “Está a jogar fortíssimo e tem a indústria farmacêutica mais forte da Europa. Estão ali para ganhar. Sentimos que estávamos perante um candidato completamente distinto de outros. Disse mal de outras candidaturas, o que não é normal. Milão quer mesmo a EMA.” Mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros também está atento ao norte da Europa, como Copenhaga ou Estocolmo. A Eslováquia, com Bratislava, aparece como a mais bem posicionada entre as candidaturas de leste. Mas especula-se acerca da sua proximidade com a Rússia e a segurança de dados de uma das maiores agências europeias.
“Em termos absolutos diremos que Milão é mais forte que o Porto e o Porto mais forte do que Bratislava. Mas onde é que a EMA estaria melhor em termos de qualidade e custo de vida, de segurança, estabilidade social, de bem receber uma comunidade estrangeira?”, questiona Ricardo Valente. “O Porto oferece um valor fundamental, mas os outros têm de votar em nós e, no fim, a decisão é política”.
Uma coisa é certa: “Haverá apenas um vencedor, mas serão 18 os derrotados”, diz Santos Silva. E, caso “a candidatura nacional seja derrotada”, será o ministro “o primeiro a dar a cara”. Até porque “o Porto foi uma candidatura forte” que, no final, será sempre vencedora, “porque ganhou notoriedade”. Ou seja, está preparado para futuras candidaturas, até pelo “reconhecimento internacional” alcançado junto de grandes empresas.
Ricardo Valente reconhece. “Houve um efeito muito positivo de arrasto, de divulgação da cidade, das suas capacidades. A partir do momento em que o Porto entra numa liga de cidades que têm capacidade para receber a EMA, com um caderno de encargos muitíssimo exigente, as empresas começam a olhar para o Porto com outros olhos.”
Artigo publicado na VISÃO 1289 de 16 de novembro