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Quando, perante determinadas matérias, não há tomada de decisão, iniciativa, as bases começam a ficar nervosas e a tentação é a de preencher o espaço e ocupar o poder”. Marques Mendes falava à VISÃO na sua qualidade de comentador e referia-se ao episódio em que a concelhia de Lisboa, sem avisar a direção nacional, anunciou que José Eduardo Martins, rosto da oposição interna a Passos Coelho, seria o coordenador do programa autárquico para a capital.
Na direção nacional, desvaloriza-se o episódio. Afinal, diz uma fonte do círculo restrito de Passos, o caso até pode ser benéfico ao líder que, de um dia para o outro, e mesmo antes de apresentar um candidato à Câmara, passou a ter quem fizesse oposição a Fernando Medina. Mas no resto do mundo social-democrata, há quem alerte: “Este caso criou um precedente”, indiciando que se possa replicar noutras freguesias (ou concelhos).
No Porto, por exemplo, há quem garanta que “está tudo sentado à espera das autárquicas, mas a olhar à volta”, à procura não de um candidato que faça frente a Rui Moreira, mas de uma alternativa ao líder.
Tudo se passa em surdina. O PSD é um partido que gosta de lideranças fortes e de quem se sacrifique pelo partido. Passos ganhou as eleições e tem toda a legitimidade para ocupar o seu lugar. Mas a opção de ficar à frente do maior partido da oposição não o ilibam de fazer oposição. O tempo do choque (de ganhar nas urnas mas não governar) já lá vai, bem como os meses em que andou a fazer de arauto da desgraça.
O PS está a governar com o apoio dos partidos à sua esquerda (“radicais”, repete-se no PSD) e a esperança de que caiam é cada vez mais vã. As bases, garantem várias fontes à VISÃO, só pedem que o partido reaja.
Passos podia aproveitar a discussão do Orçamento do Estado (OE), que será apresentado amanhã na Assembleia da República, mas o líder não se tem cansado de dizer que “não é do lado do PSD que tem de se esperar uma iniciativa em matéria orçamental”.
Os orçamentos, diz, “são o instrumento financeiro da política do Governo” e este não é o seu Governo. A estratégia de se manter passivo perante um OE de esquerda deverá ser, novamente, adotada neste OE.
Ou seja, o palco, nas próximas semanas, será da esquerda, a congratular-se com o trabalho realizado para “devolver dignidade aos portugueses” e “reduzir desigualdades”.
O tempo há de passar e o Orçamento também. Passos já fala menos “economês”, mas nem todos têm por certo que seja o suficiente para convencer o eleitorado de que há esperança. Pelo País, há autárquicas a preparar e quem anda no terreno garante que a falta de esperança com que o líder tem brindado os portugueses não abona a favor dos futuros candidatos. Passos tem um ano para preencher o “certo vazio” de que se fala pela social-democracia e devolver a perspetiva de poder ao PSD. Caso contrário, terá de começar a fazer contas aos seus dias à frente do partido.

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O CHOQUE
Em outubro de 2015, a coligação Portugal à Frente vence as eleições legislativas, mas sem maioria absoluta. 54 dias depois, quem toma posse, à frente de um Governo PS, com o apoio parlamentar do BE e do PCP, é António Costa. Portas abandona o CDS; Passos entra num prolongado estado de choque.
À ESPERA DO COLAPSO
Reeleito líder do PSD, passa os meses que se seguem ao congresso a anunciar desgraças. Só que o Governo não cai, a economia não colapsa, as sanções não chegam, não há eleições e o PSD não volta ao poder.
A 11 de julho, a sua ausência faz-se notar, em Belém. Pode ter ido ver a final do Euro a Paris, mas não deixa de ser o único ausente na receção oficial à seleção.
REANIMAÇÃO
Festa do Pontal. No meio do discurso catastrofista, Passos parece estar preparado para “abandonar o sofá de onde vê o discurso das esquerdas” (palavras de social-democrata) e mostrar que já consegue olhar, de novo, para o futuro. O partido bem se diz precisado de um líder que dê esperança ao País.
CRISE ATRÁS DE CRISE
1. Cristas lança-se à Câmara de Lisboa.
2. Passos aceita apresentar o polémico livro de José António Saraiva. Consegue livrar-se da incumbência, mas não do ruído.
3. A concelhia de Lisboa anuncia José Eduardo Martins como coordenador do programa autárquico para a capital. Passos não sabia, “nem tinha de saber”, diz. É o estado das coisas.
BATIMENTOS REGULARES
Depois das crises, a bonança. Passos deixou a macroeconomia pura para trás e volta a falar de esperança. Embora um certo PSD se inquiete pela “falta de estratégia” autárquica e apesar das dúvidas sobre se o PSD devia apresentar propostas para o Orçamento do Estado, os sociais-democratas dão o benefício da dúvida.
DIAGNÓSTICO FINAL
Passos ganhou as últimas legislativas e ninguém, até agora, o desafiou. Manter-se-á, seguro, até às autárquicas do próximo ano, para as quais definiu como meta ter mais câmaras e mais juntas que o PS.
Se não alcançar os resultados pretendidos… poderá ter de começar a contar os seus dias, à frente do partido.
(Artigo publicado na VISÃO 1232, de 13 de outubro)