“Ela não se vai lembrar de nós, mas vai ter uma casa para crescer”

“Ela não se vai lembrar de nós, mas vai ter uma casa para crescer”

É madrugada na vila de Lukashivka, no Oblast de Chernihiv, no Centro da Ucrânia. De dentro das tendas, ouve-se o zumbido dos drones a voar lá fora. Estes “pássaros” (como são chamados pelas tropas russas) estão apenas de passagem. Na rede social Telegram, as tropas ucranianas relatam a sua trajetória ao minuto.  A maioria acaba abatida, com explosões ruidosas que os locais já conseguem identificar. “Este é dos nossos”, garantem.

Neste acampamento da associação Repair Together, que se dedica à construção de casas para famílias a quem a guerra roubou o teto, os voluntários podem escolher entre dormir numa tenda ou num dos três quartos a servir de dormitório. Mas, apesar de as noites estarem cada vez mais frias, dormir dentro de portas não é necessariamente mais confortável. 

A casa que dá abrigo ao grupo também foi vítima dos combates diários durante o período de ocupação russa, em março de 2022. Os buracos das balas ainda são visíveis nos portões e as condições são bastante precárias. As camas são improvisadas em placas de esferovite e a higiene é um dos grandes desafios. Mas já há água quente para os primeiros a chegar ao duche…

Guerra e paz A casa que dá abrigo ao grupo foi vítima dos combates diários durante o período de ocupação russa

Na verdade, as condições do campo (ou a falta delas) parecem ser secundárias. Neste momento, vivem aqui 16 pessoas, na sua maioria jovens, oriundos de várias partes da Ucrânia e do mundo. Quase todos ficam “o máximo tempo possível,” dizem. Alguns vinham apenas duas semanas e, entretanto, passaram vários meses. Sacrificaram o conforto e o tempo em família, mas encontraram neste acampamento um sentido de propósito e de comunidade que não tinham em casa. 

Anton tem 24 anos e é natural de Chernihiv. Apesar de não ter chegado a ser capturada, a sua cidade esteve cercada por tropas russas durante 20 dias, e as batalhas diárias deixaram um rasto de destruição. Foi isso que o levou a juntar-se à Repair Together, e que mudou drasticamente a sua vida. No início da guerra, queria juntar-se ao exército ucraniano. Passados dois anos, acredita que poderá ser mais útil nas cadeiras da universidade, e prepara-se para começar um mestrado em Políticas Públicas. 

“Fiz uma licenciatura em Engenharia Informática, que não está relacionada, mas o trabalho na associação mostrou-me que temos falta de pessoas que implementem políticas públicas eficazes e organizadas. Apesar de me aproximar da idade de alistamento (na Ucrânia a idade mínima são os 25 anos), continuar a estudar é um direito que tenho. E alguém tem de se preparar para ajudar o país depois da vitória,” defende.

O irlandês Eoin carregou o jipe com todasas ferramentas que tinha e fez mais de três mil quilómetros para ir ajudar um país em guerra

Se esse dia chegar, talvez Vera regresse a Kiev para retomar a sua carreira de estilista. Por enquanto, celebra o seu aniversário de 30 anos no acampamento da associação e não faz planos para o futuro, que “já não é garantido”. 

“Quando a guerra começou, senti que não fazia sentido perder tempo a desenhar roupa, que precisava de fazer algo mais útil. A primeira vez que vim para Lukashivka, para ajudar a Repair Together, vinha apenas quatro dias, mas no final desses quatro dias já não quis ir-me embora. Senti que era mesmo isto que queria fazer”, confessa.

Também Eoin, um irlandês proprietário de uma quinta de criação de perus, sentiu que era altura de mudar de vida quando viu as imagens de destruição que lhe chegavam pelas notícias. Deixou para trás a sua vida em Kells, carregou o jipe com todas as ferramentas que tinha e fez mais de três mil quilómetros para ir ajudar um país em guerra. 

“Eu tinha alguma experiência de carpintaria, então decidi que poderia ser útil aqui. Enchi o meu jipe com ferramentas e vim para Kiev,” conta. Desde então, a sua vida é exclusivamente dedicada ao trabalho na associação, com exceção dos meses mais duros de inverno em que interrompem atividade.

“No ano passado, fechámos o campo no final de novembro porque as condições meteorológicas estavam a ficar demasiado duras para conseguirmos trabalhar. Ainda assim, foi um último mês muito difícil. Muito frio, dormíamos em tendas, trabalhávamos todo o dia à chuva e no dia seguinte vestíamos as mesmas roupas molhadas. Foi absolutamente horrível. Mas queríamos terminar o trabalho a tempo, para que a obra resistisse durante o inverno. Este ano, estamos a pensar fechar no final de outubro e voltamos ao trabalho assim que o tempo começar a melhorar”, garante.

Enquanto fala, e coordena os trabalhos que decorrem numa das casas, vê chegarem os proprietários desta moradia, que trazem consigo uma bebé. “É por ela que estamos aqui,” lembra Eoin à equipa. “Ela não vai lembrar-se de nós, talvez nem desta guerra. Mas vai ter uma casa para crescer, e por isso vale a pena continuar.”

Dizem que enquanto existirem crianças, existe também esperança. Aqui, numa aldeia fustigada por balas e traumas, são várias as histórias sobre os dias escondidos nas caves. Mas a preferida de todos é a de um nascimento, num abrigo subterrâneo, ao som de tiros e explosões, de uma bebé a quem chamaram Viktoriya.

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