Na madrugada de 14 de abril, milhões de mensagens circularam nas redes sociais a alertar para o apocalipse. Pela primeira vez desde a proclamação da República Islâmica do Irão, em 1979, o governo de Teerão atacava diretamente a maior potência militar do Médio Oriente – e a única com um arsenal nuclear. Para trás ficavam quase 45 anos de rivalidades, sabotagens, batalhas clandestinas e assimétricas, ataques furtivos e conflitos por procuração. O regime teocrático tinha de fazer algo de diferente após o que aconteceu, a 1 de abril, no seu consulado em Damasco, na Síria: um bombardeamento cirúrgico, alegadamente realizado por uma esquadrilha de caças israelitas, matou 16 indivíduos nas instalações, incluindo o general Mohammad Reza Zahedi, um dos principais comandantes dos Guardas da Revolução (a força pretoriana dos aiatolas) e responsável pela coordenação das operações no país presidido por Bashar al-Assad e com o Hezbollah libanês. Ou seja, Teerão levou 13 dias para reagir ao que entendia ser um casus belli (a violação da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas) e levar a cabo a sua vingança pelo atentado nunca reivindicado por Telavive. O guia supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, tinha já avisado que Israel não poderia ficar impune e que a “paciência estratégica” do seu país se esgotara, para dar lugar ao que o comandante-chefe das forças armadas, o general Mohammad Hossein Bagheri, descreveu como a “doutrina da nova equação”: “O regime sionista ultrapassou uma linha vermelha inaceitável para nós. (…) Tínhamos de responder a esta ação. (…) As nossas forças armadas estão em prontidão total e esperamos que esta operação seja precursora da vitória da oprimida nação palestiniana.” Em suma, de agora em diante, segundo este influente oficial, tudo será transparente e brutal: “Quando o regime sionista atacar os nossos interesses, as nossas propriedades, os nossos cidadãos, a República Islâmica vai contra-atacar imediatamente.” Isto é, face a qualquer “imprudência” israelita, Teerão desencadeará uma iniciativa “muito mais forte”.
Em teoria, foi isso mesmo que ocorreu nas primeiras horas de 14 de abril, quando foram lançados, pelo menos, 320 projéteis voadores rumo a Israel. No entanto, como admitiu Mohammad Bagheri aos meios de comunicação social, num depoimento reproduzido na íntegra na página online da revista francesa Le Grand Continent, os aliados do Estado hebraico foram antecipadamente avisados: “Nós transmitimos uma mensagem por intermédio da embaixada da Suíça [país que garante os interesses político-diplomáticos dos EUA em Teerão, desde 1980], explicando que, se houver cooperação entre o regime sionista e a América (….), as bases americanas na região deixam de estar em segurança.” O resultado de tal aviso, que Telavive e Washington negam, traduziu-se na forma como foram neutralizados 170 drones, 120 mísseis balísticos e 30 mísseis de cruzeiro. Graças à mobilização de várias unidades militares de diferentes países (ver caixa) e do sofisticado sistema de defesa antiaérea de Israel (composto pela Cúpula de Ferro, pela Funda de David e pelo Sistema Flecha), só meia dúzia de mísseis se aproximaram dos alvos definidos, em particular as bases aéreas de Nevatim e de Har Qeren (vulgo site 512, controlado exclusivamente pelos EUA), ambas no deserto do Neguev. A única vítima da chuva de fogo iraniano foi uma menina beduína, de 7 anos, que se encontra hospitalizada. A (baixa) velocidade e as falhas técnicas da maioria dos engenhos voadores (alguns disparados do Iraque, da Síria e do Iémen) levaram o governo liderado por Benjamin Netanyahu e a maior parte dos analistas a classificar o ataque como um “fiasco”. Com o detalhe adicional de Teerão ter vindo entretanto afirmar que dava por “concluída” a retaliação e de querer “evitar uma escalada militar” em todo o Médio Oriente.