A Unicef publicou um relatório do Institute for Health Metrics and Evaluation que refere que cerca de uma em cada três crianças com menos de 19 anos – cerca de 800 milhões no total – possui níveis de chumbo no sangue iguais ou superiores a 5 microgramas por decilitro, um nível que a organização considerou grave. As autoridades afirmam que as crianças em todo o mundo estão a ser “envenenadas numa escala massiva e, até agora, não reconhecida”.
Apesar de este ser um problema mundial, quase metade destas 800 milhões de crianças vive na região do Sul da Ásia.
Na verdade, e segundo a Organização Mundial da Saúde, não existe um nível seguro de exposição ao chumbo porque mesmo em concentrações muito baixas, este atua como uma toxina perigosa.
“Este é um panorama absolutamente chocante”, disse Nicholas Rees, autor do relatório. “Há muito tempo que sabemos da natureza tóxica do chumbo, mas não sabíamos quão difundida era e quantas crianças estava a ser realmente afetadas”.
O chumbo é um metal que, há uns anos atrás, era amplamente utilizado em várias situações, e que produz uma poderosa neurotoxina (uma toxina agressiva, mesmo quando está presente em poucas quantidades) que é prejudicial para as crianças, principalmente para as crianças com menos de cinco anos. Esta substância pode atacar fortemente o cérebro ainda em desenvolvimento, e causar danos neurológicos, danos cognitivos e físicos, que perduram a vida toda. O chumbo também “imita” o cálcio nos ossos, acumulando-se no corpo das pessoas, causando danos noutros outros órgãos vitais, como os rins, coração e pulmões.
“O chumbo, que apenas gera sintomas no início, causa danos silenciosos à saúde e ao desenvolvimento das crianças, com consequências potencialmente fatais”, disse a diretora do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Henrietta Fore. “Conhecer a extensão da contaminação por chumbo e entender a destruição que causa na vida de indivíduos e comunidades deve inspirar medidas urgentes para proteger as crianças de uma vez por todas”.
Existem vários factos para justificar esta exposição das crianças ao chumbo: a reciclagem clandestina de baterias de chumbo comuns nos automóveis é um dos principais fatores. Nos países menos desenvolvidos, o aumento da reciclagem clandestina, juntamente com a falta de regulamentação para a reciclagem, significa que cerca de 50% das baterias de chumbo são recicladas de maneira perigosa na economia paralela, denuncia a Unicef.
Outras fontes desta situação são atividades como mineração, pintura e pigmentos à base de chumbo ou gasolina com chumbo (que diminuiu significativamente nas últimas décadas), bem como as latas de alimentos e em especiarias, cosméticos, brinquedos e outros produtos de consumo. O chumbo também pode ser encontrado na água por causa dos canos que são feitos deste material.
Richard Fuller, da Pure Earth, uma ONG que colaborou com o Unicef no relatório, disse que as pessoas ainda estavam pouco conscientes dos danos causados pelo chumbo no nosso dia-a-dia. “Fizemos um ótimo trabalho ao retirar o chumbo da gasolina, mas o uso do chumbo aumentou depois de cair nas décadas de 1970 e 1980”, disse. Fuller refere que, embora os níveis de chumbo possam parecer pequenos, nas populações o dano é significativo. “Definitivamente, esta não é uma questão trivial.”