Dois anos após a morte de Hugo Chávez (05/03/2013), o seu sucessor, Nicolás Maduro, não conseguiu endireitar o rumo da ?Venezuela. A “pátria do socialismo do século XXI” dirige-se a passos largos para o caos económico e social, senão para a confrontação política violenta.
A inflação projetada para 2015 é de 200% e o país parece encaminhar-se para um “default”. O Orçamento de Estado contava com um barril de petróleo a 60 dólares, quando este está na casa dos 50. Se a tendência continuar – e a Agência Internacional de Energia prevê que continue -, em pouco tempo (um ano), Caracas terá de fazer uma escolha difícil: alimentar o seu povo ou pagar o serviço da sua dívida, de 4,84 mil milhões nos próximos 12 meses. Pior: segundo o FMI, a economia deverá contrair uns brutais sete por cento este ano e o défice orçamental já está na casa dos dois dígitos.
Nicolás Maduro, um antigo sindicalista e o mais fiel dos seguidores de Chávez, de quem se diz “filho”, falhou em manter a grande conquista do falecido líder. A redução substancial da pobreza conseguida pelo “comandante eterno” esfumou-se.
De novo pobres
Segundo um estudo realizado em conjunto pelas universidades Símon Bólivar, Central de Venezuela e Católica de Caracas – realizado antes mesmo da queda acelerada do preço do ouro negro -, o país já tinha voltado aos níveis de pobreza e miséria extrema de 1998 (o mesmo é dizer, do início do chavismo). Os lares em situação de pobreza são 48,4% do total – contra 45,8% em 1988. Cerca de 3,5 milhões de lares são caracterizados como pobres, 1,7 milhões destes como extremamente pobres.
Isto, quando se morre nos hospitais por falta de coisas básicas. Veja-se o caso de Carmen Perez contado recentemente pelo Daily Telegraph. A mulher morreu de falha do coração, no hospital da universidade de Caracas, com os cirurgiões prontos a operá-la. Durante uns dias, ainda teve uma réstia de esperança, quando uma busca frenética por todo o país conseguiu desencantar uma das duas válvulas cardíacas de que necessitava. Mas a segunda não se encontrou em lado nenhum.
Faltam coisas caras, como remédios para tratar certos tipos de cancros, e outras menos caras – máscaras de proteção, aspirinas, insulina. Muitas vezes, os aparelhos de raios X,?os desfibrilhadores, os aparelhos de ultrassons estão parados, por falta de dinheiro para a sua manutenção.
As ‘novas profissões’
Nos supermercados do Estado, onde se formam longas filas de centenas ou mesmo de milhares diariamente, o índice de escassez é de 60% – seis em cada dez produtos que se desejam não estão disponíveis. Há faltas de tudo: do papel higiénico ao óleo de cozinha, ao champô, aos preservativos.
Graças a um sistema de câmbio do bolívar para o dólar altamente distorcido (existem quatro taxas diferentes), é mais rentável aos importadores grossistas ganharem com a especulação cambial pura e simples do que a distribuir os bens pelo mercado. Assim, duas das mais novas profissões venezuelanas são a de estar na fila (para vender o lugar aos que não têm tempo para isso) e traficar comida nos barrios (bairros), uma atividade que pode render lucros de 150% e mais.
O problema é tal que o Governo mandou instalar 20 mil leitores dactiloscópicos nos seus supermercados – com a justificação oficial de combater os “especuladores”. Mas outra forma de olhar para estes modernos leitores de impressão digital é notar que eles constituem, também, um velho sistema de “senhas de racionamento”. Um exemplo anedótico: a McDonalds da Venezuela deixou de vender batatas fritas…
O país com as maiores reservas de petróleo provadas do mundo consegue ser ainda um dos campeões mundiais da violência ?(24 mil mortes por homicídio em 2013) e da sobrelotação prisional (com 270%),
Nicolás Maduro, que viu a sua liderança após a morte de Chávez reconfirmada em abril de 2013 com apenas 1,5% de vantagem (e numa eleição cuja legalidade foi bastante contestada pela oposição) enfrentou sérios motins sociais em fevereiro do ano passado (43 mortos). Poderá ser uma questão de tempo até que a classe média volte às ruas, fortalecida pela abrupta queda do poder de compra nos, mais pobres, tradicionais setores de apoio ao Governo, precipitando-se assim um confronto entre as duas partes do país. Este risco de confrontação violenta é notado por várias organizações internacionais, como, por exemplo, o International Crisis Group.
Ao mesmo tempo, Caracas é confrontada, internacionalmente, com as práticas de tortura das suas polícias e com a detenção arbitrária dos opositores políticos – há duas semanas Antonio Lezdema, presidente da Câmara de Caracas, recolheu aos calabouços da SEBIT (a polícia secreta ou a polícia política, consoante o ponto de vista), e sábado,14, Rudolfo González, um dissidente de 63 anos, morreu nessas mesmas cadeias, aparentemente de morte autoinfligida ?(enforcamento).
Mais prosaicamente, o jornal El Periódico?Venezolano conta que, em janeiro, um jovem foi preso por distribuir cafés com uma mensagem colada ao copo junto a uma fila de supermercado. Os cafés diziam: “Não te habitues: podemos viver melhor.”
Outros fatores apontados para uma cada vez mais autocrática Venezuela são as dificuldades impostas aos media independentes – como, por exemplo, negando papel aos jornais ou não renovando licenças a rádios e televisões, a lei que permite aos militares o uso de “força potencialmente letal” contra os manifestantes e o hábito de governar ao abrigo de poderes excecionais.
Chávez mete cunha a Deus
Mas Maduro – homem que fala com Chávez através de passarinhos, e entende que este, ao chegar ao céu, influenciou Deus para que um Papa sul-americano fosse eleito cá na terra – reage às adversidades proclamando intentonas, golpes e conspirações a cada ?15 dias. Ainda este sábado, a operação Escudo Pátrio contou com um exercício adicional, envolvendo militares e membros das milícias populares, para se defender de uma suposta “agressão imperialista”. Barack Obama ajudou, ao declarar sanções a uma mão-cheia de burocratas chavistas (sete), com a Casa Branca a afirmar que a Venezuela constituiu uma “ameaça extraordinária” aos EUA, na semana passada. Esta blague política – nem sequer a oposição ao chavismo a viu com bons olhos – deu ao antigo condutor de autocarros a desculpa perfeita para tornar a pedir e a conseguir à Assembleia Nacional o poder de governar por mero decreto.
Mas daí a acreditar-se – como Maduro parece acreditar, ao dizer que o seu país “não é a Líbia ou o Iraque” – que a Venezuela está a beira de ser invadida pelos EUA vai um passo de gigante. Os EUA já reiteram que não planeiam qualquer ação belicosa contra Caracas e reforçou que as sanções eram contra indivíduos ligados diretamente ao desrespeito dos direitos humanos e não contra o Estado da Venezuela.
Maduro, claro, poderia sempre alegar, com razão, que os direitos humanos são brutalmente desrespeitados na Arábia Saudita e que nem por isso Riade deixa de ser um forte “amigo” dos EUA. Mas não se está a ver que uma potência esgotada pelas complicadas situações do Afeganistão e do Iraque e com uma opinião pública, agora, pouco dada a intervenções militares no exterior, embarcasse nessa nova aventura. Mais uma vez, no entanto, Maduro conta a seu favor com a memória do golpe de 2002, que depôs Chávez por umas horas e que os bolivarianos atribuem aos EUA. Mas a paranoia bolivariana é tal que não é difícil encontrar declarações como esta, de Diosdado Cabelo, vice-presidente do Partido Socialista e presidente da Assembleia Nacional: “O imperialismo, quando ameaça com palavras, trata de convencer à bomba. Estas agressões não são novas. O Presidente Chávez enfrentou-as e eu estou cada vez mais convencido de que isso lhe custou a vida.”