Quando se fala de crédito à habitação, a atenção dos consumidores concentra-se quase sempre na prestação mensal. É compreensível. Afinal, é esse o valor que sai da conta todos os meses e que tem impacto direto no orçamento familiar.
No entanto, focar-se apenas na prestação pode levar a ignorar um dos elementos mais importantes de todo o contrato: o spread.
A razão é simples. Pequenas diferenças no spread podem parecer quase irrelevantes quando olhamos para percentagens. Mas, quando aplicadas durante 30 ou 40 anos sobre dezenas ou centenas de milhares de euros, essas diferenças transformam-se em muitos milhares de euros.
E é precisamente por isso que compreender o que é o spread, como funciona e como pode influenciar o custo total de um crédito é um dos exercícios de literacia financeira mais importantes para quem está a contratar ou já tem crédito à habitação.
Afinal, o que é o spread?
A taxa de juro de um crédito à habitação com taxa variável resulta, normalmente, da soma de dois componentes: Taxa de juro = Euribor + Spread
A Euribor é o indexante. Varia ao longo do tempo, sobe e desce de acordo com as condições do mercado.
O spread é diferente. É a margem comercial definida pelo banco e permanece contratualmente fixa durante toda a vigência do empréstimo, salvo situações específicas de contratação e/ou renegociação.
Na prática, o spread representa a remuneração que o banco acrescenta ao financiamento e resulta da avaliação que faz do risco da operação, do perfil do cliente e da estratégia comercial da instituição.
É por isso que duas pessoas com créditos semelhantes podem ter spreads, por vezes bastante, diferentes. E é também por isso que comparar propostas apenas pela prestação inicial pode ser enganador.
Quando algumas décimas fazem toda a diferença
Muitas pessoas olham para a diferença entre um spread de 0,75% e um spread de 1,00% e pensam: “São apenas 0,25 pontos percentuais.”
Mas vejamos o que acontece num exemplo concreto. Imagine um crédito à habitação de 200.000 euros, com prazo de 30 anos. Se compararmos duas propostas exatamente iguais, mudando apenas o spread:
- Proposta A: spread de 0,75%
- Proposta B: spread de 1,00%
A diferença mensal pode parecer relativamente modesta. Mas ao longo da vida do empréstimo essa diferença pode representar vários milhares de euros em juros pagos ao banco.
Agora imagine um financiamento de 250.000 ou 300.000 euros. Ou imagine que essa diferença se mantém durante décadas. Aquilo que parecia um detalhe transforma-se num custo muito significativo.
O erro mais comum na contratação
Quando alguém está a comprar casa, existe uma enorme pressão emocional. Há visitas, avaliações, documentação, prazos para cumprir, escritura para marcar e uma vontade natural de concluir rapidamente o processo.
Nesse contexto, muitos consumidores analisam apenas duas questões:
- O crédito foi aprovado?
- Qual é a prestação mensal?
Mas estas não são as únicas perguntas que importam. Existem outras tão ou mais relevantes:
- Qual é o spread?
- Esse spread é competitivo face ao mercado?
- Está dependente da contratação de produtos adicionais?
- O custo desses produtos compensa a redução do spread?
- Qual é a TAEG da operação?
- Qual será o custo total do crédito ao longo dos anos?
Aceitar a primeira proposta sem comparação é um dos erros mais caros que se pode cometer num crédito à habitação. Porque aquilo que não é analisado na contratação pode acabar por ser pago durante décadas.
E quem já tem crédito?
Existe uma ideia muito enraizada de que o spread é algo que ficou decidido no dia da escritura e que nunca mais pode ser alterado. Mas a realidade é mais dinâmica do que isso.
- Ao longo dos anos, o mercado muda;
- Os bancos alteram campanhas comerciais;
- Os perfis financeiros dos clientes evoluem.
E aquilo que fazia sentido quando o crédito foi contratado pode já não ser a melhor solução atualmente.
Por isso, quem já tem crédito deve fazer uma pergunta simples: “Se contratasse este crédito hoje, teria as mesmas condições?”
Em muitos casos, a resposta é não. E quando a resposta é não, faz sentido analisar alternativas.
Rever não é sinal de problema
Tal como temos vindo a referir ao longo desta rúbrica, rever um crédito não é um sinal de dificuldade financeira. É um sinal de gestão consciente.
Aliás, é precisamente quando a situação financeira é estável que existe maior capacidade para comparar, negociar e decidir.
Por isso:
- Se vai contratar crédito, compare propostas e analise cuidadosamente o spread;
- Se já tem crédito há vários anos, confirme se as condições continuam competitivas;
- Se nunca fez essa análise, talvez este seja um bom momento para começar.
Porque alguns dos maiores ganhos financeiros não resultam de aumentar rendimentos. Resultam simplesmente de tomar melhores decisões sobre compromissos que já existem.
Ter finanças com cabeça não significa conhecer todos os detalhes técnicos do sistema financeiro. Significa compreender aqueles que têm verdadeiro impacto na sua vida, perceber que, num crédito à habitação, os grandes custos raramente estão escondidos em decisões dramáticas e que, muitas vezes, estão em pequenos números que parecem insignificantes no momento da assinatura. E significa comparar antes de contratar e questionar antes de aceitar.
Porque, no crédito à habitação, algumas décimas podem parecer pouco hoje. Mas podem custar milhares de euros amanhã.
No próximo artigo, vamos explorar outro dos conceitos mais falados — e simultaneamente menos compreendidos — do crédito à habitação: a Euribor.
Vamos perceber porque sobe e desce, como influencia diretamente a prestação mensal, por que razão duas famílias com o mesmo spread podem pagar prestações diferentes ao longo do tempo e o que deve realmente preocupar os consumidores quando ouvem falar da evolução das taxas de juro.
Porque compreender a Euribor é compreender uma das variáveis que mais impacto tem no orçamento de milhares de famílias portuguesas.
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