O que é que a Fundação José Neves (FJN) pretende com este estudo sobre o Estado da Nação?
É um estudo que vai ser atualizado anualmente. Queremos que seja a base de um conhecimento mais profundo, baseado em dados – INE, Segurança Social e várias bases -, trabalhado pela nossa equipa de research com investigadores das universidades do Minho e de Aveiro. Temos aqui matéria muito forte, dados que dizem o que aconteceu nos últimos 10 anos, na interseção da educação e do emprego. E inclui um capítulo mais conjuntural, sobre a covid e os seus efeitos em 2020.
E avançam um conjunto de ambições.
Porque queremos também apresentar uma visão de longo prazo para o que o País deveria atingir em 2040. Por exemplo, ter adultos e jovens mais qualificados, chegar aos 45% de adultos com ensino superior ou aos 25% de pessoas com formação ao longo da vida – hoje só temos 10,5%. Que 90% dos jovens tenham um emprego à saída da formação. Que Portugal esteja no top 10 dos países da União Europeia, com emprego mais sustentado em conhecimento e inovação.
Como podem garantir que se caminhe efetivamente para isso? Vão tentar algum tipo de compromisso com o Governo?
Estamos a entregar isto à sociedade. O objetivo é que Governo, empresas, outras instituições e fundações possam olhar para isto, porque são alterações estruturais que vão levar muito tempo. Vendo alguns indicadores, percebemos que demoramos quase 50 anos a chegar onde outros já tinham chegado nos anos 50. Partimos de uma situação muito negativa e com um atraso enorme, entrámos tarde na democracia, fez-se uma aceleração depois disso, mas ainda não é suficiente. A nossa ambição é apenas estarmos, daqui a 20 anos, onde estão hoje os cinco países europeus mais desenvolvidos e que também vão continuar a evoluir.
A nossa ambição é apenas estarmos, daqui a 20 anos, onde estão hoje os cinco países europeus mais desenvolvidos e que também vão continuar a evoluir.
Para isso é necessária uma convergência entre diversos atores, o que em Portugal nunca foi fácil. Como se consegue?
O estudo demonstra que o País está numa dificuldade enorme. Quando quase 50% dos adultos no mercado de trabalho tem, no máximo, o ensino secundário… e quando o emprego criado na última década é essencialmente qualificado, essas pessoas arriscam-se a ficar desempregadas, a não terem solução. O País tem de dar uma volta a isto. É importante haver um farol, precisamos de uma visão de longo prazo. Porque, apesar de um progresso muito significativo, temos défices muito grandes. Só 10,5% da população faz algum tipo de formação ao longo da vida. Mas se formos decompor isto, só 4,8% dos que têm o ensino secundário é que fizeram alguma formação ao longo da vida. Entre quem tem ensino superior, foram 22%.
O que é que isso nos diz?
Que as pessoas menos qualificadas estão a ficar mais para trás e as mais qualificadas é que estão a acelerar. E é preciso que todas acelerem. Por isso era bom que se lançasse esta discussão e se juntassem vontades. A FJN também usará este documento para decidir onde vai continuar a apostar. Até porque na maior parte destas matérias a solução não é de uma única entidade. Nem o Governo, com a melhor das intenções, consegue sozinho. Se as empresas não estiverem nisto, se cada um dos portugueses não acreditar que tem de estudar ao longo da vida para ter melhores qualificações e que essa é a melhor forma de poder evoluir na carreira e ser feliz, isto não vai funcionar. É preciso que todos estes atores se reúnam e decidam as prioridades de atuação. Não apenas a quatro ou cinco anos, mas numa continuidade de 20 anos, para que o País possa sair deste marasmo.
Portugal tem sempre muitos estudos e muitos planos estratégicos. Depois percebe-se que a gestão é sempre feita de forma casuística e de curto prazo, não é?
Totalmente de acordo. Por isso este documento se chama Estado da Nação e não Plano da Nação. Não teríamos essa arrogância. Aqui há dados e não opiniões. Isto fazia falta – olharmos para a última década, ver o que foi positivo e onde temos défices. O estudo mostra isso com clareza. Mas também é preciso projetar o futuro. Se efetivamente queremos ser uma sociedade de conhecimento, temos de atingir, dentro de 20 anos, estas metas. E se aplicarmos a mesma aceleração da última década, não chegamos lá. O que quer dizer que algo de diferente tem de ser feito. Esta é a nossa provocação, dizer que é preciso fazer mais e diferente. O que está feito não chega.

O salário médio de quem tem uma qualificação superior é €750 acima de quem não a tem. Compensa estudar.
Daí estabelecer ambições?
Porque também não é um estudo meramente de diagnóstico, é também um desempenho aspiracional. É possível lá chegar. Porque, se não fizermos nada, temos aqui problemas graves. Se não continuarmos a crescer, se continuarmos com uma população empregada que é das mais desqualificadas da Europa, vamos chegar a uma altura em que não vamos ter emprego para essas pessoas. O emprego está a evoluir noutro sentido e não temos ferramentas de requalificação ou de aumento de competências para elas, que lhes permitam ter outra oportunidade noutra carreira. Precisamos que todo o sistema reaja. É melhor dizer isto hoje do que daqui a cinco ou dez anos.
Não deveriam sugerir as orientações a tomar?
Não queremos passar por ser uns senhores que chegaram aqui há meia dúzia de dias e agora sabem como tudo isto se vai resolver. Não. Não sabemos. Sabemos é que, com dados e informação válida, conseguimos ter mais dados para atuar. Entregamos isto ao País, ao governo, à sociedade, a quem quiser tirar partido. Já falámos com o Presidente da República, havemos de falar mais. Pode gerar-se aqui um movimento em que muitas entidades, públicas e privadas, possam, cada uma delas, ir fazendo o seu trabalho. Nem é preciso que se juntem. O importante é termos ambições comuns e trabalharmos com o mesmo farol. O problema é que na maior parte das vezes não há um farol. E está cada um a trabalhar para seu lado, a não convergir.
Se já falaram com o Presidente da República falaram também com o Governo, as associações empresariais…?
Vamos conversar agora com os interlocutores aos mais diversos níveis, usando estes dados como base.
Há pessoas a chegar altamente qualificadas e depois os patrões e os chefes têm o 9º ano.
O estudo mostra que cresceu o número de licenciados. Não é bom?
Não é só isso que faz a diferença. As pessoas têm efetivamente de ter as competências. E, nalguns casos, nem é preciso grau, é preciso formação adequada. Conseguimos ver que os portugueses estão mais qualificados, mas que há um desajustamento entre a educação e o mercado de trabalho. Porque temos muitos recém-diplomados que chegam ao mercado de trabalho e, ou não têm emprego, ou uma parte deles está a fazer tarefas para as quais não precisa daquele nível de qualificação. Vemos também que estudar compensa, aumenta a probabilidade de se ter um emprego e, claro, de ter salários mais elevados. O salário médio de quem tem uma qualificação superior é €750 acima de quem não a tem. Compensa estudar. Mas também vemos que há algumas vantagens que têm diminuído, como os salários à entrada do mercado de trabalho. Também é preciso atuar aqui, pois não podemos dar uma mensagem errada aos mais jovens para que estudem e depois não lhes damos bons salários no futuro.
Há também um grande fosso intergeracional.
Portugal apresenta o maior gap, a maior diferença intergeracional: há mais jovens a chegar ao mercado de trabalho muito mais qualificados e depois temos uma massa de adultos (48,7%) no mercado de trabalho que têm, no máximo, o ensino secundário. E vemos que 46% dos empregadores tem apenas o 9º ano. Há pessoas a chegar altamente qualificadas e depois os patrões e os chefes têm o 9º ano. Gera-se aqui…
Como se resolvem esses paradoxos? Por exemplo, a formação ao longo da vida está sobretudo em falta nos mais pobres, nos que ganham menos. São precisamente os que têm os empregos mais pesados, que lhes ocupam mais tempo. Como podem arranjar tempo para estudar?
Não temos a veleidade de dizer como é que tudo isto se resolve. Mas é verdade o que diz, este é um problema supercomplexo. Se não for agarrado o mais cedo e seriamente possível não vamos ter um progresso tão significativo como o dos últimos anos. Vamos deparar-nos com muitos fatores restritivos a este crescimento, por exemplo, na atração de investimento estrangeiro. Se não requalificarmos pessoas que hoje não têm oportunidades no mercado de trabalho, vai chegar uma altura em que não há mão de obra para aquilo que o mercado precisa. Esta é uma das grandes áreas de ação. Implica que haja formação para competências de mais curta duração, e que os que estão a trabalhar tirem um bocadinho de tempo. Mas também é preciso que as empresas lhes deem esse bocadinho…
Se não requalificarmos quem não tem oportunidades no mercado de trabalho, vai chegar uma altura em que não há mão de obra para o que o mercado precisa.
As mulheres estão a ultrapassar os homens nos níveis de qualificação, mas continuam a ganhar menos?
Percebe-se que o abandono escolar é maior nos homens do que nas mulheres e que estas estão mais qualificadas, têm maior quota de ensino superior e de mestrados e ganham menos na generalidade das profissões. Inclusivamente há profissões até bem qualificadas em que ganham, em média, menos 38%! É um cenário muito pouco positivo. Mas há aqui uma esperança: quando vemos as mulheres a ser claramente o grupo mais qualificado, não tarda nada que sejam elas a ter mais lugares de liderança e a corrigirem isto. Não em dois anos, mas talvez numa década ou duas.
Falam também que é necessário um novo alinhamento entre a educação e o mercado de trabalho. Quer dizer que todos vão ter de ser formados em tecnologias?
É natural que seja incorporada, na formação de curta duração, alguma noção de tecnologias, mas não têm de ser todos programadores, longe disso. Por exemplo, pessoas das áreas sociais fazem imensa falta às empresas, só que as empresas não sabem ainda que valor podem tirar delas. Um sociólogo ou um psicólogo numa empresa industrial pode acrescentar enorme valor à manufatura de um produto ao estar com os engenheiros e trazer o fator humano. É preciso que saibam o que é o mundo das empresas e não tenham apenas uma visão académica; que a empresa perceba que alguém com essas competências vai trazer valor, e que o queira; e que o sistema de ensino dê essa formação. Outro exemplo: há uma enorme procura de pessoas capazes de usar cnc’s, uns pequenos robots. Não é formação superior. E se calhar há pessoas que estão desempregadas aqui ou ali que, se tivessem acesso a esta formação, seriam absorvidas pelo mercado.
Tentava perceber quais poderiam ser os cursos do futuro. O ensino profissional teve bastante importância no não abandono escolar?
Sem dúvida. Podemos olhar para os dados e dizer que não estamos assim tão mal, em termos de ensino superior, comparados com a Alemanha. É verdade. Só que a Alemanha tem um sistema dual de ensino, em que grande parte da população entra no mercado de trabalho por via do ensino técnico-profissional. E fazem estudo contínuo, não precisam de ter uma licenciatura, nem serem todos doutores e engenheiros. Quem faz uma formação técnica boa, entra no mercado de trabalho e se continua a atualizar, tem bons salários e uma boa vida. O modelo português está ainda muito assente no aumento de qualificações no ensino superior. Mas é preciso perceber que o ensino técnico-profissional teve um papel enorme no não abandono escolar, porque cativou e segurou jovens para fazerem os seus estudos obrigatórios. Este é um bom sinal para que se continue a apostar, depois do 12º ano, numa formação que permita dar passos mais diretos para o mercado de trabalho.

Quando vemos as mulheres a ser claramente o grupo mais qualificado, não tarda nada que sejam elas a ter mais lugares de liderança e a corrigirem isto. Não em dois anos, mas talvez numa década ou duas.
A construção, que é um setor importante, tem uma dificuldade enorme em encontrar carpinteiros, eletricistas, serralheiros…
Claro. Conseguimos perceber que quando precisamos de alguém com essas qualificações são difíceis de encontrar e não são nada baratas! Conseguem ter um bom retorno financeiro. O País tem de valorizar essas profissões. Na transição rápida do pós-democracia, criou-se a ideia de que a sociedade só valoriza quem tem o dr. e o eng. antes do nome. Não deveria ser assim. Ser canalizador ou eletricista são profissões bem remuneradas e importantes para a sociedade. E há muita falta.
Curiosamente, não vi nenhum indicador sobre a produtividade, algo que todos apontam quando se fala da necessidade de aumentar salários ou avançar para outras etapas.
Os nossos ângulos do Estado da Nação não são numa lógica económico-financeira. Temos de facto um problema de produtividade e a questão de não haver salários mais elevados, em muitos casos, não é falta de vontade dos patrões. É porque as empresas não libertam margem suficiente para pagar melhor. Se as empresas não forem mais inovadoras, não tiverem produtos mais diferenciados, que possam vender mais caro nos mercados internacionais, dificilmente se conseguirá aumentar salários. O caminho é pôr mais trabalhadores e gestores qualificados no mercado. Não é aumentar as horas de trabalho.
Falemos do impacto da pandemia. Em 2020, houve menos 60 mil jovens empregados e os mais novos foram os primeiros a perder o emprego. Isto deve-se à precariedade?
Tem a ver com o tipo de contratos, não necessariamente com a precariedade. Se um contrato de um ano chega ao fim a meio de 2020 e a empresa está sem clientes é natural que não seja renovado. Mas esta crise não é estrutural. Com a retoma da economia, estes jovens vão ter oportunidades. O que percebemos é que quem tem um nível de educação mais elevado esteve, apesar de tudo, mais protegido. Apesar de ter havido uma perda na generalidade do emprego, houve maior proteção nos graus de maior qualificação. Estudar e ter mais qualificação protege o emprego nos momentos de crise. E esta é uma mensagem muito forte que também sai daqui.
[Na Alemanha] quem faz uma formação técnica boa, entra no mercado de trabalho e se continua a atualizar, tem bons salários e uma boa vida.
Outra conclusão é que todos falam de teletrabalho como se fosse a nova realidade, mas afinal parece que não é para todos?
É para poucos. Em 2020, do total de trabalhadores, apenas 30%, – ou seja menos de um terço, estariam numa profissão em que potencialmente poderiam fazer teletrabalho. E desta percentagem, só uma parte é que o fez, independentemente da obrigatoriedade. E já agora, quem pode fazer teletrabalho? Pessoas com qualificações superiores. Deixamos de fora, mais uma vez, 70% da população. Esta ideia de que muita gente fez teletrabalho não [é correta]. Até pode ter feito um bocadinho mais de trabalho remoto, trabalho a partir de casa, que é algo distinto.
Confundiu-se muito o teletrabalho com o trabalho em casa?
Exatamente. Mas trabalho em casa, remoto, são mais 8%. Ficam 62% dos trabalhadores fora destas realidades. As empresas e quem fizer políticas públicas têm de perceber isto. Além dos efeitos na saúde mental e estabilidade emocional.
Cai por terra a ideia de que o teletrabalho veio para ficar. O que dizem é que “não é evidente que se tenha iniciado um movimento de transição mais permanente”. Porquê?
Ainda estamos no meio do furacão, é prematuro dizer que veio para ficar. Aliás, empresas e trabalhadores começaram a perceber o impacto que isso tem na sua vida, a dificuldade que têm em não se conseguir libertar do trabalho para além das horas normais, da mistura entre casa e família. E há também a necessidade de interação social. Teletrabalhar implica algumas competências, nomeadamente uma boa gestão do tempo. Não é fácil concentrar-me se tiver a família em casa e a casa for pequena. Tudo isto tem impactos muito grandes. Mas os nossos dados dizem é que há um número limitado de trabalhadores portugueses que efetivamente poderiam estar potencialmente em teletrabalho. Nem sequer é poderiam estar, mas poderiam potencialmente estar. Depois, é saber quantos estão interessados, parcialmente ou totalmente. Ainda demorará algum tempo ver onde isto vai aterrar em termos de solução final.
O caminho é pôr mais trabalhadores e gestores qualificados no mercado. Não é aumentar as horas de trabalho.