Não é que se vislumbre o mundo inteiro e arredores, do 15.º andar da torre 3 das Amoreiras, envidraçado a toda a volta. Mas lá do alto, com Lisboa a exibir-se em modo 360º, não custa imaginar o escritório da Talkdesk como uma janela panorâmica para o mercado global. A Ponte 25 de Abril, ali em frente, até é gémea da Golden Gate em São Francisco, capital das empresas tecnológicas sem fronteiras. E depressa se assimila a metáfora ao ouvir-se as conversas em inglês entre portugueses, americanos, suecos, brasileiros, ucranianos ou sérvios, cada um agarrado a dois (ou três) computadores, engenheiros de t-shirt e alguns de calções, que a temperatura convida e o patrão não se importa.
Também ajuda saber que, quando não estão a jogar pingue-pongue ou a descontrair nas bolas de pilates à disposição, aquelas 150 pessoas, em colaboração com outras tantas em São Francisco e 50 no Porto, dão vida a esta startup portuguesa em mais de 50 países, contribuindo para receitas anuais que já superam os 25 milhões de dólares.
Nem o mais otimista dos empreendedores poderia antecipar que, ao fim de seis anos, uma brincadeira de crianças crescidas se transformasse numa empresa candidata a conquistar o famoso estatuto de unicórnio (atingir uma avaliação de mil milhões de dólares), até agora exclusivo da Farfetch no universo de startups fundadas em Portugal. No verão de 2011, Tiago Paiva e Cristina Fonseca, colegas no Instituto Superior Técnico já com o canudo na mão, só queriam ganhar um computador, o primeiro prémio de um concurso lançado por uma firma americana. Mas a ideia de criar um call center armazenado na internet, sem recurso a servidores, routers, cabos, telefones e toda a parafernália logística dos centros de atendimento tradicionais, não só lhes deu a vitória como garantiu o primeiro investimento.
Na apresentação que foram chamados a fazer nos EUA, um elemento do júri dirigia uma incubadora de startups em São Francisco e, a troco de 50 mil dólares, desafiou-os a instalarem-se naquela região mundialmente conhecida por Silicon Valley. Tiago, então com 24 anos, pegou no telefone. “Já não vou de volta”, informou os pais. “Há pessoas que preferem ser um peixe grande num aquário pequeno. Nós preferimos ser um peixe pequeno num aquário grande e lutar para chegar ao topo”, ilustra o CEO da Talkdesk à VISÃO.

Marcos Borga
A crescer tanto que os investidores batem com o nariz na porta
De um ano para o outro, só na área das tecnologias de informação e comunicação, Portugal viu disparar de 40 para 67 as chamadas scaleups, designação dada às startups em rápido crescimento e que angariaram, pelo menos, um milhão de dólares em rondas de investimento. É um sinal de vitalidade, reforçado pelo facto de 130 milhões dos 350 milhões de dólares levantados, desde 2010, por este conjunto de empresas, ter sido obtido no último ano. Representam nada menos do que 38% da verba total, o que significa que “Portugal está a crescer duas vezes mais depressa do que a média europeia”, assinala o mais recente relatório da plataforma Startup European Partnership.
O crescimento da Talkdesk, porém, não se mede em investimento captado, até porque desde outubro de 2015 que não precisa de levantar dinheiro no mercado para se manter numa acentuada curva ascendente. Bastam as receitas que o negócio já gera para alavancar essa trajetória, bem expressa na recente decisão de alugar um segundo piso nas Amoreiras para contratar 25 pessoas por mês até 2020. Ou na recusa, só nos últimos dois anos, de 200 milhões de dólares de investidores, como avança o CEO Tiago Paiva, mais interessado em preservar o máximo possível o controlo sobre a empresa. “Por vezes, temos ofertas tão aliciantes que são difíceis de rejeitar, mas se puder não ir mais ao mercado… ah!, não vou, não.”
Não é por isso de estranhar que, apesar do acesso mais faciliado ao capital, a principal mais-valia de Silicon Valley seja outra, no entender do ex-estudante do Técnico. É que a coabitação com os melhores alimenta-lhe a ambição a cada dia que passa: “A grande diferença é a mentalidade que se ganha. Olho o CEO da Zendesk ou da Salesforce e quero ser como eles. Se calhar é por isso que a Talkdesk continua a crescer.”
Era uma vez na América
Antes de se formar em Engenharia de Telecomunicações no Técnico, Tiago Paiva já havia estudado na Suécia e, nas semanas anteriores ao destino o desviar para os Estados Unidos da América, estava convencido a passar um ano na Índia. Queria voltar ao estrangeiro, sentir o mundo. Em Silicon Valley, não demorou a familiarizar-se com a montanha-russa de sucessos e fracassos que caracteriza o percurso das startups.
O investimento inicial prometido só chegou ao fim de alguns meses e depois também se esgotou. Os primeiros três anos, conta, foram uma luta para desenvolver um produto capaz de competir e vender. “Cada vez que falava com um possível cliente, faltava sempre qualquer coisa”, recorda, sobre o tempo em que não havia receitas e se viu obrigado a tomar conta de cães e crianças para pagar despesas. A sua primeira casa na Califórnia foi um estúdio que partilhou com cinco desconhecidos, de modo a atenuar a renda de 1 600 euros. Divertido, relata como dormiam alinhados em sacos de cama, o que chocou os seus pais na primeira visita. “Que desgraça”, disseram-lhe. “Tens boas condições em Portugal e vieste para esta miséria.”
Seis anos mais tarde, a Talkdesk “é um negócio que dá muito dinheiro”. Mais de mil empresas dos cinco continentes usam este call center de múltiplas funcionalidades, como a de permitir o acesso ao historial de interações com determinado cliente assim que a chamada surge no sistema. Um computador com acesso à internet e auscultadores é tudo o que é necessário após criar-se uma conta online e subscrever o serviço.
A web é também o escritório de Tiago Paiva, a quem basta o telemóvel para trabalhar. Dá jeito para quem se desloca todas as semanas a Los Angeles, de 15 em 15 dias a Nova Iorque e todos os meses a Lisboa. Um dos próximos passos é cotar a Talkdesk em Bolsa, acaba por revelar: “Não há data prevista, mas vamos lá chegar de certeza.”