Martin Scorsese cresceu numa rua de Little Italy onde, segundo a mitologia familiar que entretanto se tornou história do cinema, havia uma igreja de um lado e um clube frequentado pela máfia do outro. O rapaz asmático observava ambos. Chegou a passar pelo seminário, pensou no sacerdócio, descobriu entretanto outras tentações terrenas e acabou atrás de uma câmara. Gore Vidal resumiu a operação melhor do que qualquer historiador: naquele bairro podia ser-se padre ou gangster; Scorsese conseguiu ser os dois. A Cinemateca Portuguesa teve a excelente ideia de voltar ao local do crime. Trinta e cinco anos depois da retrospetiva de 1991, dedica-lhe durante todo o mês de setembro Martin Scorsese, Entre a Raiva e o Silêncio, um ciclo praticamente integral que atravessa mais de seis décadas de trabalho, da primeira curta universitária à monumentalidade de Assassinos da Lua das Flores. Ficção, documentários, filmes-concerto, televisão, cinema sobre cinema: uma oportunidade rara para verificar que reduzir Scorsese ao tipo que põe Joe Pesci a matar pessoas ao som dos Rolling Stones é tão rigoroso como resumir Miguel Ângelo dizendo que pintava tetos.
Little Italy, Jesus Cristo e os Rolling Stones
Tudo começa verdadeiramente em Os Cavaleiros do Asfalto (1973): Harvey Keitel, Robert De Niro, culpa católica, masculinidade em estado febril, pequenas dívidas, grandes egos e os Rolling Stones a fazerem aquilo que numa igreja seria responsabilidade do órgão. O programa da Cinemateca acerta no centro quando propõe ler a obra entre dois extremos: a raiva física e o desejo de silêncio espiritual. São precisamente esses dois homens que Scorsese passou a vida inteira a tentar reconciliar: o rapaz que conhece os códigos da rua e aquele que continua a perguntar se existe alguma possibilidade de redenção.
Por isso Taxi Driver (1976), O Touro Enraivecido (1980) e Tudo Bons Rapazes (1990) nunca foram simplesmente celebrações de homens violentos, apesar de alguns espectadores continuarem heroicamente empenhados em percebê-los dessa maneira. Travis Bickle, Jake LaMotta ou Henry Hill são criaturas que se destroem, convencidas de que estão a organizar o mundo. Scorsese filma-lhes a sedução com tanto talento que frequentemente é acusado de os admirar. O equívoco acompanha-o há meio século: mostrar o fascínio do mal não equivale a passar-lhe um certificado de boa conduta.
Talvez por isso a religião nunca tenha desaparecido da sua obra. A Última Tentação de Cristo (1988) provocou manifestações, boicotes e gente indignada com um filme que provavelmente nunca viu; Kundun (1997) procurou a espiritualidade no budismo; Silêncio (2016), projeto perseguido durante décadas, colocou dois jesuítas no Japão do século XVII e transformou a fé num território bastante mais incómodo do que um sermão dominical. A Cinemateca mostra os três, permitindo observar como o homem dos gangsters regressou vezes sem conta à pergunta que o perseguia desde criança: o que fazemos com a culpa depois de a violência acabar?
De Niro saiu, DiCaprio entrou, mais ou menos
Scorsese encontrou em Robert De Niro o rosto perfeito para o século XX e em Leonardo DiCaprio o cúmplice para sobreviver ao XXI. Entre ambos cabem O Rei da Comédia, Casino, Gangs de Nova Iorque, O Aviador, Entre Inimigos, Shutter Island e O Lobo de Wall Street. Hollywood levou décadas a dar-lhe o Oscar de realização e escolheu justamente Entre Inimigos (2006), um remake, depois de ignorar obras que já estavam instaladas na história do cinema. É difícil imaginar maneira mais hollywoodiana de redenção. O ciclo permite ainda recuperar obras injustamente empurradas para as margens: Alice Já Não Mora Aqui, extraordinário retrato feminino que valeu o Oscar a Ellen Burstyn, agora homenageada na Veneza 83; o delirante Nova Iorque Fora de Horas; A Idade da Inocência, prova definitiva de que Scorsese conseguia filmar a violência de uma chávena de chá com a mesma tensão de um revólver; ou Por Um Fio, Nicolas Cage a conduzir uma ambulância pelas noites de Manhattan como se Travis Bickle tivesse trocado o táxi pelos cuidados intensivos.
O homem que salva filmes quando não está a fazê-los
A grandeza de Scorsese mede-se igualmente pelo cinema que não realizou. Fundou, em 1990, a Film Foundation para preservar um património que a própria indústria, sempre muito sentimental quando chega a noite dos Oscars e bastante menos quando aparecem faturas de restauro, deixava deteriorar. A organização já ajudou a restaurar mais de 1100 filmes; o World Cinema Project, criado por Scorsese em 2007, recuperou até hoje 72 obras de 34 países. É também por isso que a Cinemateca programa A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies e Il Mio Viaggio in Italia: Scorsese fala de Rossellini, Powell, Fuller, Kazan ou dos grandes artesãos de Hollywood com um entusiasmo quase adolescente. Para ele, preservação nunca significou embalsamamento. Um filme restaurado serve para voltar a ser visto, discutido, amado ou detestado. De preferência numa sala e sem os algoritmo decidirem que, porque vimos Fellini, talvez gostássemos agora também de um vídeo de gatos.
A contradição é deliciosa: o homem que atacou a transformação dos filmes em “conteúdo” precisou da Netflix para fazer O Irlandês. E é precisamente O Irlandês (2019), produzido para a plataforma, que terá neste ciclo uma rara oportunidade de existir onde deveria ter existido sempre: num grande ecrã, a 26 e 28 de setembro. Seguem-se Assassinos da Lua das Flores, no dia 30, depois de Silêncio, como se a Cinemateca quisesse terminar o mês colocando frente a frente culpa religiosa e culpa histórica.
Scorsese, entretanto, ainda não fechou a loja. Já rodou em 2026 What Happens at Night, adaptação do romance de Peter Cameron, novamente com DiCaprio e agora Jennifer Lawrence, acompanhados por Mads Mikkelsen, Patricia Clarkson e Jared Harris. Um casal viaja para uma cidade europeia coberta de neve para adoptar uma criança e entra num universo progressivamente inquietante. Não existe ainda data oficial de estreia.
Aos 83 anos, Martin Scorsese continua portanto entre a igreja e a rua, a culpa e o prazer, Rossellini e os Rolling Stones, a preservação do passado e a urgência do próximo plano. A retrospectiva da Cinemateca começou a 1 de Setembro, mas ainda sobra quase um mês inteiro para entrar neste confessionário. E convém aproveitar: padres há muitos, gangsters também. Um homem capaz de transformar ambos em cinema desta maneira aparece com bastante menos frequência.