Foi “quase sem contar” que Rui Martins se sentou ao volante do Aston Martin do mais famoso agente secreto do mundo e acelerou pelas ruas de Roma em perseguições a alta velocidade. Alegadamente, “um dos duplos do filme magoara-se durante as filmagens” na capital italiana e o português foi chamado à pressa para a missão de ajudar o espião ao serviço de Sua Majestade. “Não fiz de duplo do Daniel Craig, porque ele não tem apenas um, é uma equipa… mas fiz perseguições e conduzi o Aston Martin e o Jaguar”, diz, sem disfarçar uma pontinha de orgulho.
Se fosse chamado para um casting a valer, Rui Martins tinha boas hipóteses de ganhar o papel de protagonista, num filme sobre si próprio. Era, talvez, a grande oportunidade para ser ator e “cumprir aquele sonho de infância”, alimentado desde que se lembra de ser gente, de quando foi, ainda pequenino, viver para França com os pais. Tem o guião da sua vida bem decorado e pronto a debitar quase de cor e salteado a cada entrevista para jornais, revistas e programas televisivos de entretenimento.
A uma carreira assim, tão cheia de ação e glamour, só faltava mesmo um pequeno detalhe: que tivesse realmente participado no filme. “Nem nesse, nem na maioria dos que constam do seu currículo”, afirma indignado o presidente da Association Stoppons les Arnaques aux Castings (algo como ‘associação para parar com os embustes nos castings’). James D. Chabert, dirigente desta associação, com sede em França, numa conversa telefónica com a VISÃO, nem deixa o assunto alongar-se muito e dispara logo que ouve falar em Rui Martins: “Esse senhor nem é duplo, nem comediante, é um verdadeiro mitómano e nada do que diz é verdade.”
Papéis imaginados
Estes são alguns dos grandes sucessos de bilheteira em que Rui Martins diz ter participado como duplo. Na verdade, não entrou em nenhum. VEJA AS FOTOS
Take 1, ação
O guião inicial deste trabalho foi abandonado à nascença. A ideia era falar da estreia de um filme, o mais recente de uma conhecida saga “de ação sem limites, efeitos visuais e momentos de entretenimento fantásticos”, assim rezava o e-mail da agência de comunicação. O que havia de diferente na proposta era a possibilidade de falar com o duplo português, com vasta carreira e alguns filmes conhecidos do grande público, que também participava na película. Segundo os promotores, ele estaria disponível para uma entrevista sobre a carreira e a participação nas gravações. Horas mais tarde, a agência de comunicação enviou outro email a avisar que ficava tudo sem efeito. Tinha havido um engano e o referido duplo afinal não participava no filme e por isso o estúdio não autorizava «o recurso ao seu testemunho». Isso era um problema da agência. A história do duplo continuava a valer por si só e merecia ser contada. Mas foi aí mesmo que começou outro filme porque, na verdade, o nome de Rui Martins não surge em nenhuma das fichas técnicas de qualquer das outras películas que figuram no seu currículo.
A viver agora em Espinho, depois de ter passado a maior parte da vida em França, Rui Martins, 49 anos, acede a conversar com a VISÃO numa esplanada perto do Casino. Aparece vestido de forma discreta e na mão traz um saco já gasto, com dois fatos de piloto para a fotografia, tal como combinado. Repete tudo o que sempre disse: que é duplo de cenas de condução e começou a carreira no cinema em França, depois de ter conhecido Rémy Julienne, um famoso coordenador de duplos – entretanto já retirado – e que fizera quase todos os filmes de várias vedetas gaulesas, como Jean-Paul Belmondo. “Foi o Rémy, que então estava a fazer a saga dos filmes Taxi, que me perguntou se queria experimentar. Fui à escola de duplos dele e assim comecei”, conta.
Daí até ao contacto com as estrelas do grande ecrã foi um salto e, por entre um encolher de ombros, desbobina, como se fosse a coisa mais natural do mundo, o convívio tu-cá-tu-lá com vedetas como Matt Damon, por exemplo. Foi, diz ele, “o compincha das noitadas” da equipa de filmagem em Paris, no filme Bourne Identity (Identidade Desconhecida). ‘‘É muito divertido, muito modesto. Mas no fim foi-se embora e não pagou a conta do bar’’, conta com um sorriso. Apesar de não ter aparecido em destaque na tela, Rui Martins garante ter protagonizado uma das cenas mais conhecidas do filme, aquela em que Damon conduz um mini vermelho pelas ruas de Paris, a fugir da polícia. “Tinha de descer uma rua estreita que terminava numa escadaria e estava a chover. Quando cheguei aos degraus ia com mais velocidade do que devia e o carro saltou e bateu com força mas seguiu. Ficou tão bem que os produtores quiseram guardar a cena e foi a que ficou.” Amizade mais recente é a de Brad Pitt, com quem Rui diz ter começado a falar por e-mail, a preparar as gravações de Go Like Hell, uma película ainda em rodagem. Neste filme, “além de duplo de Brad Pitt”, vai ter também “a oportunidade de juntar o mundo do desporto automóvel com o da representação, interpretando o papel de um mecânico nesta história da rivalidade entre a Ferrari e a Ford, durante os anos 1960, nas 24 de Le Mans”.
Oscar de melhor montagem
Quem não se conforma com o que considera ser “tamanha aldrabice” é Michel Julienne, filho de Rémy, e há vários anos coordenador de duplos de boa parte dos filmes que Rui afirma ter feito, como Michel Vaillant, Lucy, ou as sagas Taxi e Transporter. Só há poucas semanas Michel teve conhecimento das façanhas de que o português se vangloria e é taxativo a afirmar “nem sequer o conhecer” e que nunca trabalhou com ele, “nem como duplo, nem como coisa nenhuma”.
Mesmo confrontado com estes desmentidos, Rui Martins continua a afirmar que conhece Michel Julienne, de quem até é “amigo no Facebook”. E acrescenta: “Se não fosse amigo dele não o mencionava, caso contrário ainda me podiam processar, não é?”
Na sua página de perfil na conhecida rede social, Rui Martins coloca frequentemente imagens de cenas de filmes, dando a entender que participa neles mas sem nunca o afirmar claramente. Há exceções, como as montagens de uma notícia do jornal The Guardian e outra do site Hollywood News, que davam conta do início das gravações de Go Like Hell, acompanhadas de imagens dos dois atores. O “duplo” aproveitou para colocar uma foto dele ao lado e incluiu-se também no destaque. Ou aquela outra de Daniel Craig, sentado a uma mesa num intervalo das filmagens e onde se vê parte de um outro braço, de copo na mão, mas sem que seja possível identificar o rosto. No post de Rui, a legenda da imagem era: “Em modo cheers, everyone!!! Com Daniel Craig, depois de um dia de gravações de Spectre”.
Quem sabe, talvez um dia o convidem mesmo para fazer um filme e ele possa concretizar o sonho “não apenas de conduzir e partir carros” mas também de “beijar a atriz”.