Tendo Jorge Bergoglio notabilizado-se enquanto Papa pela sua forma próxima de estar com as pessoas e de as inspirar nos ideais de comunhão e fraternidade, deixa um legado muito próprio no que à economia diz respeito.
Durante o seu papado, fez questão de exortar os jovens à criação de um movimento que cuidasse, especificamente, dos problemas económicos contemporâneos, nomeadamente a pobreza, a desigualdade e a emergência climática.
Dirigido a quem pensa e executa a economia (economistas, investigadores, empreendedores, gestores e demais decisores e contribuidores de organizações com e sem fins lucrativos) a denominada Economia de Francisco é um legado importante do pontificado que agora termina. O nome Francisco surge para invocar Francisco de Assis, tentando este movimento pensar, transformar e executar a economia, atualizando os ideais de humanismo e fraternidade dessa figura histórica para dar resposta aos problemas da economia do presente e do futuro.
Na carta que escreveu por ocasião do lançamento desse movimento, o Papa Francisco disse: “…encontrar-me com quantos estão a formar-se e começam a estudar e a pôr em prática uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta. Um acontecimento que nos ajude a estar unidos, a conhecer-nos uns aos outros, e que nos leve a estabelecer um “pacto” para mudar a economia atual e atribuir uma alma à economia de amanhã.; …é preciso corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito pelo meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, e equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das gerações vindouras.” in «Carta do Papa Francisco para o evento “Economy of Francesco” [Assis, 26-28 de março de 2020]».
Sucede que tudo isto encaixa bem com os ensinamentos que retiramos da análise científica da felicidade, nomeadamente o que se pode aprender com os estudos da economia da felicidade. Aí, vemos que o crescimento económico, por si, não garante aumentos na felicidade, que o capital social e o capital relacional são fundamentais para aumentar a felicidade dos povos, que o desemprego é dos maiores destruidores de felicidade e que a qualidade do nosso emprego é fundamental para nos sentirmos satisfeitos com a vida. Estudos mais recentes têm, também, mostrado como o cuidar do ambiente pode ser causa e consequência de uma sociedade mais feliz. Note-se que podia não ser assim. O Papa Francisco refletiu à luz de um pensamento milenar religioso. A economia da felicidade é um ramo muito recente (tem cerca de 30 anos) da ciência económica e usa o método científico. Mas o facto de haver tais coincidências é auspicioso: significa que há pontes entre quem quer chegar a um mesmo destino, a felicidade, mas escolhe uma perspectiva doutrinária ou o caminho da ciência. É uma comunhão feliz.
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