A gula e a luxúria têm ligações ancestrais, não por se inscreverem na lista dos pecados capitais da Igreja, mas por, muitas vezes, uma conduzir à outra. Na Antiguidade, os grandes banquetes precediam grandes orgias. E ainda hoje, numa espécie de ritual, depois de um jantar a dois adivinha-se uma noite de amor. O prazer de comer e o prazer de, enfim, comer parecem manter-se intimamente ligados, como se o êxtase gastronómico implorasse o carnal. Há quem se apaixone por sabores, como se vê nestes dois filmes, Estômago, do brasileiro Marcos Jorge (já em sala), e Eu sou o Amor, do italiano Luca Gudagnino (estreia-se amanhã, dia 20). As mulheres destes filmes apaixonam-se pelos cozinheiros através dos seus cozinhados. Quando sensualmente saboreiam os seus pratos é como se estivessem a comer os chefs. E é pecado, já que, tal como Roberto Carlos cantava: “Tudo o que eu gosto é imoral, ilegal ou engorda”. A mulher do filme brasileiro é uma prostituta que se rebola de prazer ao trincar uma daquelas coxinhas de frango fritas e gordurosas que se vendem nas tascas, até nos custa a crer que aquilo seja assim tão bom. A mulher do filme italiano é uma aristocrata que se delicia com a rebuscada conjugação de sabores nouvelle cousine, com design, preparada a preceito por um cozinheiro de elite. Cada um com cada qual. Mas à parte desta coincidência gastronómica é mais o que separa os filmes do que os une. Estômago centra-se na personagem de Nonato, um desgraçado que usa os seus dotes culinários para tudo: arranjar emprego, arranjar mulher, ir para a prisão e até matar. Na prisão, sobe mesmo na hierarquia interna melhorando a comida dos companheiros. O filme tem uma estrutura bem conseguida: começa na boca, e acaba no rabo, como que sugerindo o percurso do aparelho digestivo, e conta em paralelo a história de Nonato fora e dentro do cárcere, fazendo coincidir os o momentos dos dois crimes que comete. Contudo, sofre algumas mazelas, típicas do cinema brasileiro, com um registo demasiado televisivo e um ‘mau’ humor, muito ingénuo, que quase deita tudo a perder. Enfim, é um filme que se come bem, à hora do lanche, como aquelas coxas de frango. Já Eu sou o Amor é um banquete da aristocracia milanesa, daqueles que anos depois ainda se pensa: comi tão bem naquele dia. Àqueles que se perguntam, por onde tem andado o cinema italiano de Rosselini e Visconti, de que nem Moretti nem Benigni são sucessores, aqui têm uma boa resposta. Eu sou o amor é um filme eminentemente viscontiniano, a começar pelo ambiente aristocrata em que a história se desenlaça e a acabar pelo magistral domínio do movimento da câmara de Luca Gudagnino. É um filme de uma sumptuosidade rara, com a espessura psicológica de um romance clássico russo e a temática universal do amor. Sobretudo da explicação de um amor impossível e impassível perante as atrocidades da vida. Tilda Swinton (O curioso caso de Benjamin Button), que faz de russa que se casou com um aristocrata rico, cumpre um dos melhores papéis da sua carreira. O realizador já lhe tinha dedicado o documentário The Love Factory (2002), e aqui fá-la brilhar, inclusive quando a actriz inglesa finge que não sabe inglês. O percurso da personagem é de tal forma rico, que esta começa no pomposo e luxuoso almoço de família no seu palacete em Milão e acaba nua numa gruta na estrada de San Remo. A ascensão e queda dos Recchi.
O amor come-se
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Estômago está para Eu sou o Amor, como uma coxinha de frango está para um prato de nouvelle cuisine