Será um Dia Mundial do Teatro atípico, com as cortinas dos palcos corridas, mas em que teatros nacionais e companhias procuram encurtar a distância com o público, ainda que sem palmas. Nesta sexta-feira, 27 de março, o dia comemora-se um pouco por todo o País. No Porto, o Teatro Nacional São João recorda as palavras do poeta António Ferreira, “Grã remédio é ter o espírito armado à má fortuna”, em Castro – o espetáculo que tinha estreado em março, com encenação de Nuno Cardoso –, e faz a sua transmissão online, às 22h, no site e nas páginas no Facebook e no Instagram.

Umas horas antes, às 18h, haverá também uma visita guiada online pelo edifício classificado como monumento nacional, conduzida por aqueles que o estudaram, reabilitaram, dirigiram ou que já pisaram o seu palco: entre eles, Luís Soares Carneiro, João Reis, Emília Silvestre e António Durães, numa edição do realizador Luís Porto. Mas a celebração mantém-se ao longo de uma semana, com a disponibilização das quatro peças que compõem a saga Ubu, de Alfred Jarry, em ebooks de download gratuito, bem como a coleção integral dos Manuais de Leitura, os programas de sala que acompanhavam todos os espetáculos.
Desde há uma semana que o Teatro Nacional D. Maria II também abriu uma janela virtual para as produções e coproduções que passaram pelos seus palcos nos últimos anos, exibidas no seu site às sextas e sábados, às 21h. Nesta sexta, 27, haverá sessão dupla: às 11h, a pensar no público infantil, A Origem das Espécies, uma criação de Carla Maciel, Crista Alfaiate, Marco Paiva e Paula Diogo, a partir de Charles Darwin; e, às 21h, Sopro, de Tiago Rodrigues, em quatro versões diferentes: em português, com interpretação em Língua Gestual Portuguesa e nas versões legendadas em inglês e francês.
Durante a tarde, dois projetos do D. Maria II ganham vida online, no Instagram do teatro. Às 14h, o D. Maria II e a Casa Fernando Pessoa promovem uma Maratona Clube dos Poetas Vivos, com 38 convidados a fazer as leituras em direto, tais como André e. Teodósio, Carla Bolito, Flávia Gusmão, Joana Bértholo, Sandra Faleiro e Sara Tavares. Às 17h, é a vez do TEATRA, o podcast mensal do D. Maria II, ocupar o Instagram com uma emissão especial ao vivo, onde a jornalista Mariana Oliveira conversará em direto com vários artistas portugueses sobre o seu trabalho e a forma como se estão a adaptar a este momento particular. Entre eles, Elmano Sancho, Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo, Inês Barahona e Miguel Fragata, Isabel Abreu, Mariana Monteiro e Tiago Rodrigues.
Para ver igualmente a partir do sofá, o Teatro São Luiz disponibiliza no site, ao longo deste dia e até à meia-noite, sete espetáculos que ali se estrearam. É o caso de Júlia, de Daniel Gorjão, a partir de August Strindberg; As Ondas, de Sara Carinhas, a partir de Virginia Woolf; O Dia do Juízo, texto de Ödön Von Horváth e encenação de Cristina Carvalhal; A Voz Humana, de Francis Poulenc e Jean Cocteau, com voz de Lúcia Lemos; Professar, de Lígia Soares e Sara Duarte; e, para os mais novos, Oceano, de Ainhoa Vidal, e O Convidador de Pirilampos, de António Jorge Gonçalves, com texto de Ondjaki.

Como um abraço aos espectadores que estão em casa, já há mais de uma semana que o Teatro Aberto tem promovido a apresentação online, através do site da companhia, do arquivo dos seus espetáculos. Mesmo que saibam que “o teatro acontece ao vivo. Os registos não são teatro”. Até dia 1 de abril, sempre às 21h, será possível assistir à peça A Verdade, de Florian Zeller, com interpretações de Joana Brandão, Miguel Guilherme, Patrícia André e Paulo Pires.
Já o Teatro Experimental de Cascais estreia, nesta sexta, 27, às 21h30, as Noites de Teatro, gratuitas, no seu canal Youtube , com a disponibilização de um espetáculo histórico, feito em 1980: Auto da Índia, de Gil Vicente, com encenação de Carlos Avilez e cenografia e figurinos do Mestre Júlio Resende, gravado no Brasil, nos estúdios da Globo. Outras oito sessões estão programadas, sempre às segundas-feiras, até dia 18 de maio, de anteriores produções, como O Comboio da Madrugada, de Tennessee Williams, ou Woyzeck, de Georg Büchner.
A proposta do Teatro Viriato é original: pede ao público, artistas e comunidade em geral para, neste Dia Mundial do Teatro, partilharem um desejo que gostariam de ver concretizado no regresso àquela sala de espetáculos de Viseu. Terão apenas de enviar um vídeo para bilheteira@teatroviriato.com ou por mensagem através da página de Facebook do Teatro Viriato. Quando tudo voltar à normalidade, quem sabe não será concretizado?

A Teatro Nacional 21 opta por celebrar o Dia Mundial do Teatro, reformulando para uma versão doméstica o texto Veneno, de Cláudia Lucas Chéu, interpretado por Albano Jerónimo na sua própria sala de jantar e transmitido em streaming direto, às 21h. Um monólogo violento e perturbador, adequado aos tempos que vivemos, dadas as circunstâncias de isolamento do personagem. Durante o dia, haverá leituras de textos que fizeram parte do percurso da companhia, levados à cena nos últimos dez anos, lidos por um grupo heterogéneo de 21 atores, como Rita Blanco, Bruno Nogueira, Isabel Abreu, Luísa Cruz, Ana Busttorf, Virgílio Castelo e Custódia Galego, a partir das redes sociais.
A companhia Cegada, residente no TEIV- Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, em Vila Franca de Xira, promove igualmente livre acesso, no Facebook, a conteúdos digitais do seu trabalho, no âmbito das (possíveis) comemorações do Dia Mundial do Teatro. Estão previstas as peças Casal Aberto, de Dario Fo e Franca Rame, Fronteira Fechada, de Alves Redol, a par de espetáculos destinados à infância como O Gigante Egoísta ou O Príncipe Feliz, a partir de Oscar Wilde, ou ainda Dom Quixote de La Mancha, a partir de Miguel de Cervantes.
No site da Companhia de Teatro de Almada haverá uma programação regular com a transmissão de gravações de algumas das suas produções. Nesta sexta, 27, às 21h, será exibida em streaming a peça para jovens O Mandarim, de Eça de Queiroz, com encenação de Teresa Gafeira, o espetáculo que tinham programado para celebrar este dia, e que ficará disponível on-line durante uma semana. A partir de 3 de abril, exibirão Os Directores, de Daniel Besse, com encenação de Joaquim Benite.

A crise pandémica não permitiu que o Teatro da Garagem estreasse esta semana, no palco, a nova produção Mundo Novo, com texto e encenação de Carlos J. Pessoa, mas a companhia fez uma adaptação (os atores foram filmados em videoconferência) para a poder partilhar online, através do canal próprio no Vimeo e da plataforma RTP Play. Uma história avassaladora, que será dividida em 16 episódios (cada um corresponde a uma cena), partilhados até 10 de abril. A palavra ao encenador: “Não podemos deixar de ser livres, não podemos deixar abalar a nossa crença na surpresa e no amor. O outro não é a perdição viral, o outro não é a morte, o outro é a vida, o outro sou eu. Se o amor não vencer a perdição, tem de, pelo menos, ficar a promessa. O Teatro da Garagem promete isso, não pararemos. Que a catástrofe não seja apenas o fim, mas o princípio; um bom princípio, um princípio melhor.”