
Em palco, estão oito adolescentes, entre os 13 e os 17 anos, cinco deles surdos
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O espetáculo começa com uma voz, no escuro, a cantar Dancing in the Dark, de Bruce Springsteen. Depois, o foco salta da audição para a visão, e assim vagueará durante todo o tempo, num estímulo constante de ambos os sentidos. Em palco, estão oito adolescentes, entre os 13 e os 17 anos, cinco deles surdos. Para eles, foi criada uma composição musical original, transmissora de vibrações que suportam a coreografia. Em Surdina paira num limbo entre dança/música e movimento/som, considerando os primeiros produtos culturais e os segundos processos físicos.
O projeto surgiu no âmbito do Paralelo, programa de aproximação às artes performativas do Teatro Municipal do Porto, que pretende abranger públicos diferenciados. Marco da Silva Ferreira, convidado a assumir a direção artística, admite não ter sido fácil desbloquear inibições. “A dança não fazia parte da vida da comunidade surda porque, normalmente, vem atrelada à música”, conta o coreógrafo. “Quase todo o seu comportamento corporal era baseado numa enciclopédia visual, e os jovens funcionavam muito por cópia, sentiam-se inseguros e era muito difícil começarem a dançar sem terem alguém ao seu lado”, adianta. Para conseguir avançar, o segredo foi abandonar as suas próprias expectativas e construções sobre a surdez e o som. “Teorizava demasiado e não conseguia ver nem ouvir aquelas pessoas que tinha à minha frente”, confessa Marco da Silva Ferreira. Com o decorrer do projeto, soube lidar com os tempos, propostas, vontades e motivações daqueles adolescentes. E da competição e energia típicas desta idade retirou corpos e movimentos próximos de uma dança abstrata (um piscar de olho involuntário ao trabalho de Merce Cunningham), com menos referências culturais simbólicas, da qual acaba por despontar uma poética própria.
Em Surdina > Teatro Municipal Campo Alegre > R. das Estrelas, Porto > T. 22 606 3000 > 13-14 jul, sex-sáb 21h30 > €5