
Todos fazem parte desta prática artística: os objetos roubados (mantas de avião…), os objets trouvés, os souvenirs afetivos (dez pacotes de açúcar podem ritualizar encontros). “É como se eu congelasse a memória”, explica Ana Pérez-Quiroga. Conta: “Em 2010, apercebi-me que as escolhas a que submeto os objetos são idênticas às que faço quando produzo arte, partilham o mesmo protocolo artístico.” Criando registos fotográficos desses objetos – livros, loiça, jarras de flores, tudo – e catalogando-os, assim mapeando o quotidiano, o projeto Breviário do Quotidiano consuma-se na sua casa – contemplável via site (www.anaperezquirogahpme.com), ou possível de viver (alugada por duas noites).
Um processo de fusão entre arte e vida de uma assumida herdeira duchampiana: “Quando se vai a um museu, percebemos que uma obra tem uma moldura dada pela instituição, e apercebida pelo público. Aqui, quem legitima a obra de arte sou eu. Duchamp não seria tão esteticizado, mas eu tenho essa dimensão. Se não, estaria a fazer antropologia”, defende. No Arquivo Municipal de Lisboa, revela 1388 fotografias de seis mil objetos, a que se juntam uma chaise-longe, uma mesa e um candeeiro, feitos de propósito “para criar a ideia de habitat, de lar doce lar”. Uma casa de substituição, um deslocamento conceptual, que sublinha a “performance da vida” e “a importância de viver o momento”.
Breviário do Quotidiano #8 – Lisboa, 2016 > Arquivo Muncipal de Lisboa/Fotográfico > R. da Palma, 246, Lisboa > T. 21 884 4060 > até 28 mai, seg-sáb 10h-19h