Estávamos em pleno mês de agosto quando a minha vinha ardeu. Como boa parte dos portugueses, também eu estava na praia. Acompanhava, pela televisão, os desabafos exaltados dos autarcas, ao mesmo tempo que tentava obter notícias sobre o fogo: para onde se dirigia e se a minha vinha tinha sido atingida.
Pelas quatro da tarde, consigo falar brevemente com o meu tratorista, que me relata que o fogo segue descontrolado em direção à vinha. A chamada cai – e, com ela, a minha esperança. À hora de jantar, recebo um vídeo que confirma o rasto negro que já se antecipava. À mesa, onde no dia anterior planeávamos a vindima, partilho-o com a minha família. Desolado e sem reação, recolho-me numa profunda tristeza.
No dia seguinte, viajo para a Meda, onde ficam as vinhas. A viagem dura quase seis horas. Após alguns telefonemas com vizinhos e amigos, a revolta começa a tomar conta de mim. Os relatos coincidem: aldeias inteiras sem um único bombeiro, falta de meios aéreos. “É mato, deixa arder” parecia ser o mote. Quem definia a estratégia estava a centenas de quilómetros de distância, e as suas ordens eram executadas por voluntários que, não raras vezes, não tinham formação para tamanha responsabilidade.
Finalmente, chego à vinha. Está um dia muito quente. O fumo é abundante. Alguns dos esteios de eucalipto que sustentam a vinha ainda fumegam; outros desapareceram por completo, consumidos pelo fogo. A terra exala cinza. As videiras perderam o viço: as folhas, encarquilhadas, confundem-se com o solo despido. Ao meu redor, as cinzas do mato percorrem os vales, apenas interrompidas por nuvens espessas de fumo que anunciam novas ignições.
Já no café do mercado, na Meda, reencontro vizinhos e amigos. Estamos exaustos. Enquanto nos lamentamos, surge na televisão um representante do Governo a anunciar medidas de apoio que chegariam ao terreno no prazo máximo de dez dias. “São todos iguais”, ouve-se, num desabafo de quem já se desencantou com tantas promessas.
Os dias seguintes são atípicos. As encostas da vinha que escaparam à voragem do fogo estão no ponto de vindimar. A alegria de estarmos perto de colher a novidade do ano vínico dá-me alento para superar o luto. Muito se deve ao esforço do meu tratorista e do meu enólogo que, empunhando uma giesta, conseguiram salvar uma boa parte da vinha. Os mostos são de excelente qualidade. A cinética da fermentação é perfeita. Os vinhos prometem.
Num desses dias, entretido pela azáfama da vindima, sou subitamente atraído por um grasnar muito familiar, mas que, ainda assim, não consigo identificar de imediato. Aproximo-me do cimo da encosta e avisto um corvo – nunca tinha visto um por estas paragens. O seu corvejar ressoa pelos vales, atento aos víveres que não escaparam ao fogo.
A caminho da adega, passo pela avenida principal da Meda, que rasga a cidade de norte a sul. Sou interpelado por uma dezena de pessoas que aguardam em frente à sede da Proteção Civil local. São vítimas da tragédia, à procura de apoio do Estado. Entre elas, há quem nem sequer consiga delimitar o seu terreno, abandonado há décadas. Percebo então que o espírito necrófago dos corvos veio para ficar.
Chega, por fim, o momento de lavar os cestos. Arrumamos a adega e provamos os vinhos. Por norma, o relatório de vindima centra-se nos aspetos exclusivos da vinha e do vinho, mas este ano, por força das circunstâncias, as conclusões são mais abrangentes.
O ano vitícola começou muito chuvoso e prolongou-se assim pela primavera. A videira cresceu com vigor. Devido à elevada humidade, foi um ano propício a doenças. Em junho, um calor intenso e fora de época secou o fruto quase até à sua essência. Como praticamos uma agricultura regenerativa, tivemos um cuidado especial na gestão do enrelvamento, procurando promover maior biodiversidade. Dias antes da tragédia, percorria a vinha com orgulho perante esse equilíbrio. Estava longe de imaginar o que viria a acontecer. O fogo irrompeu pela vinha, alimentado pelo combustível vegetal que cobria o solo.
Um destino ingrato para quem acreditava estar a ajudar a vinha. E, como eu, muitos outros agricultores viram os seus esforços de conversão para uma agricultura mais consciente dissiparem-se num mar de cinzas. Sentimo-nos abandonados por quem nos incentivou a fazer diferente.
Num país onde a Natureza é frequentemente tratada com desprezo, quem trabalha com ela fica mais vulnerável. O mato, que não se explora nem se reivindica, é deixado à sua sorte. Esquecemo-nos de que a nossa identidade, enquanto povo, se confunde com o território. A inteligência do lugar é fundamental para a vida coletiva, como bem insiste o engenheiro Carlos Cupeto.
A cultura, enquanto repositório da inteligência humana, escasseia nas nossas vidas. E não é apenas no interior. Um pouco por todo o lado, essa falta revela-se: nos campos, nas escolas, nas empresas, nas cidades, nos gabinetes governamentais. O principal atributo da civilização humana está em decadência.
O novo ciclo vegetativo recomeçou com a chegada da primavera. As chuvas históricas deste inverno beneficiaram as reservas hídricas nas vinhas. Apesar do golpe, mantenho-me de pé. Acabámos de engarrafar as novas colheitas do branco. O tinto continua a estagiar nos pipos. Amparado pela família, festejo os meus 40 enquanto planeamos a nova vindima que está aí à porta.
Três escolhas sobreviventes

Casa Mouraz Branco 2024
Produtor: Casa Mouraz
Região: Tondela (Dão)
PVP: €12,25
Vinhas ardidas em 2017
Pater Reserva Tinto 2020
Produtor: Casa Agrícola Pinto do Amaral
Região: Meda (Douro)
PVP: €18
Vinhas ardidas em 2025
Rufia Tinto 2021
Produtor: João Tavares Pina
Região: Penalva de Castelo (Dão)
PVP: €11,75
Vinhas ardidas em 2024