Fizemo-nos à estrada com Ismael, rumo ao deserto. Percorremos a R317 ladeados de montanhas à esquerda e à direita, a ouvir músicas do álbum “Hayati” de Douzi Fahmin. O vale, pejado de milho e verde vivo, quebra a monotonia do espaço. O céu azul, sem uma única nuvem, deixa-nos sem teto para combater o sol intenso e o casario, de lama e barro, reflete a luz e aridez do ambiente. Sob ombreiras e arcadas, portas e ravessas, descobrem-se na penumbra, anciães de barbas e vestes brancas a ver quem passa. O ritmo abranda quando atravessamos os povoados. Observamos todas as caras, cumprimentamos todos os que se nos atravessam à frente. Acenam-nos com a cabeça, fazendo-nos lembrar as nossas aldeias tão verdadeiras e os velhos que as habitam e que nos dão as boas vindas e partidas, sem nunca nos terem conhecido na vida.
Vimos muitas crianças e muitas crianças vieram ter connosco. Corriam, aproximavam-se do carro e batiam efusivamente nos vidros, vindas de todos os lados e de lado nenhum, sem que pudéssemos retomar caminho sem remorsos, por não termos para dar o que elas nos pediam. Miúdos com idades compreendidas entre os 3 e os 12 anos. Rapazes e raparigas, sem pais por perto, reclamavam algo, sem nunca nos sorrir. Pareciam zangados e ao mesmo tempo tão inocentes.
Carregavam a poeira da estrada, encardida nas roupas e a irreverência da infância estampada na cara. As miúdas tinham cabelos aloirados, esgrouviados, e caminhavam desengonçadas com putos ainda mais pequenos ao colo. Os rapazes barravam caminho e eram sem dúvida os que corriam mais. Custou-nos muito, muito mesmo, vê-los reduzir à retaguarda, à medida que nos voltávamos a afastar. Ficavam cada vez mais pequenos, cada vez mais distantes, no retrovisor que ainda lhes guardava as dedadas gravadas na poeira da viagem.
Ismael percebeu o desconforto geral, antes mesmo de algum de nós o ter desabafado. Mandou-nos parar em Timarirhine e saiu do carro. Voltou com um grande pacote de caramelos na mão e disse: “É isto que eles vos pedem!”.
A partir dali parámos sempre que nos pediram. Lutávamos entre nós para ver quem conseguia dar mais caramelos e quem os fazia chegar a mais gente. Picámos todas as aldeolas e com a mesma satisfação, vimos as reações atrevidas dos mais pequenos com quem nos íamos cruzando. Pediam sempre mais e nunca nos agradeceram. Nem era essa o objetivo.
Arrepiámos caminho, quando acelerámos um pouco mais. Esgravatámos as entranhas o Alto Atlas, enquanto o vale afunilava e as encostas das montanhas se tornavam mais íngremes. À atmosfera alaranjada e esmagadora, juntavam-se umas quantas curvas em zig-zag. Ficámos siderados pela paisagem, como se fossemos formigas no curso de um gigante. Tínhamos finalmente chegado ao desfiladeiro prometido.
Um corredor estreito e cor de laranja, de paredes verticais, tão profundo e abrupto que nem a luz do sol consegue penetrar e alcançar as margens do Rio Todra. Chamam-lhe Garganta e percebe-se porquê.
A margem e o rio estendem-se lado a lado. Em terra, caminha-se sobre a estrada de betão e no rio, a água corre entre os bancos de seixos, arrastados e amontoados pelas correntes. Muitas famílias caminham descalças sobre o leito, já que a água lhes dá pelos tornozelos. Passeiam em grupo e deixam-se fotografar. Na estrada o vaivém de carros e camionetas entrelaça-se com os magotes de turistas a “penantes”. Há também camelos para alugar e bancas com turbantes e lenços para quem quiser comprar. Quando demos meia volta à marcha, para voltar ao carro, ainda vimos, estupefactos, uns quantos jovens a escalar as encostas sem quaisquer proteções que os salvassem de eventuais quedas mais aparatosas.
Depois das gargantas ainda fizemos uma última paragem nos arredores, em Tinghir, para contemplar o vale tomado pelas palmeiras, a perder de vista. As mesmas que garantem a continuidade das colheitas de tâmaras e respetiva comercialização – alavanca da economia local.
A partir de Tinghir, partimos rumo a Hassilabied, uma pequena povoação próxima de Merzouga, às portas do deserto do Saara. De todos os trajetos percorridos foi este o de que mais gostámos. O tempo chegou para tudo e a terra pintou-se de todas as cores. Nas aldeias que fomos atravessando, o vestuário e a tonalidade da pele dos habitantes foi escurecendo.
Aqui há mais gente fora de casa e na rua, abundam os mercados a céu aberto, que atravancam o trânsito na única via de acesso às povoações. Ismael explicou-nos que as populações são mais fechadas e por isso menos dadas aos forasteiros que por lá passam.
Por estas bandas já o terreno é menos acidentado e a estrada cada vez mais reta. Os postes que levam os cabos elétricos seguem paralelos ao caminho e ao longe, avistam-se resquícios de montanha e encostas cinzentas e alaranjadas. O cenário torna-se cada vez mais estéril, cada vez mais seco. O calor aperta e a água nos garrafões escasseia. O cansaço trai a concentração, mas a música, os vidros abertos e a constante mutação da paisagem ajudam a ganhar resistência aos quilómetros percorridos e por percorrer.
Há operações STOP à entrada e saída das aldeias que vão surgindo pelo caminho. Os polícias e militares controlam a velocidade dos carros através de radares portáteis, que os próprios carregam de braço estendido, uns metros antes das barreiras onde nos obrigam a parar e seguir viagem.
Antes de chegar ao deserto, a terra tingiu-se de vermelho, amarelo, depois cinzento e finalmente laranja. Nunca a paisagem marroquina nos tinha cativado desta maneira. Na hora de virar para Merzouga, a lua surgiu, sobre as dunas, quase cheia e ao mesmo tempo tão cheia de luz. Ismael fez questão de nos recomendar o Auberge Kasbah Des Dunes, para assentar arraiais. O hotel, propriedade de um amigo, ficava numa das franjas de Hassilabied, pequena localidade situada junto a Merzouga. O edifício-fortaleza constituído apenas por piso térreo é murado a toda a volta. O encanto pitoresco do local descobre-se já dentro de portas, no pátio interior, onde existe apenas uma oliveira, três mesas e um par de cadeiras. O sol já se tinha posto, a noite já tinha rendido o dia, mas as paredes ainda emanavam calor. Eram feitas de adobe, uma mistura que envolve terra, água, palha e fibras e que resulta numa argamassa resistente às oscilações de temperatura, próprias do deserto, e às chuvadas, raras mas severas quando dão o ar da sua graça. E foi precisamente isso que aconteceu. Poucos minutos tinham passado desde da nossa chegada, quando o clima resolveu brindar-nos com uma tempestade de areia e depois com uns chuviscos de consolação.
Aproveitámos o breu da noite para contemplar o céu estrelado, a partir do terraço do albergue, oscilante a cada passada e flexível ao peso de cada um de nós.
Houve tempo e paciência de sobra até chegarmos a acordo com o dono do Albergue. Negociámos uma dormida no local, outra no deserto, sempre com o pequeno-almoço incluído. Ficámos também a saber que existem dois fusos horários praticados no país. Para efeitos oficiais e obrigações de Estado a hora em vigor é uma, mas entre a população, as combinações acordam-se para 60 minutos mais tarde. Confuso? Talvez. É como se vigorassem em simultâneo, no mesmo país, horários de verão e inverno. Foi essencial que nos explicassem o caso, uma vez que a jornada para o deserto tinha hora marcada, por isso precisávamos de saber por qual dos dois regimes nos íamos guiar, afinal.
Depois de muitas propostas e contrapropostas de parte a parte, conseguimos levar a nossa avante. E assim foi. Era tempo de descansar, mesmo com baratas a circular sobre o corpo, bagagem e afins. O calor era bastante e a sede insuportável. Estávamos exaustos e era urgente recarregar baterias antes pisar as areias escaldantes do deserto e ouvir histórias contadas no silêncio mais absoluto que alguma vez pudemos experimentar.