Um chapéu de chuva transparente, com uma vareta partida. Os prédios desfocados pela chuva, através do plástico. A imagem entrou-me nas mensagens e fiquei a olhar para ela. “O teu velhinho chapéu de chuva hoje voltou a dar jeito, mas a Ingrid deu conta dele. Reciclei-o no ecoponto amarelo, proferindo algumas palavras.” Já não me lembrava daquele chapéu de chuva nem de o ter deixado com alguém. Fiquei a olhar para a mensagem, tentando recordar-me daquele objeto e das circunstâncias em que o deixei para trás, esquecendo-o para sempre até uma tempestade o quebrar e eu ser, assim, notificada do fim de alguma coisa de que já não me lembrava. A velocidade das mensagens, das informações, das solicitações, arrasta-nos como ventos ciclónicos e erode a memória, pensei. Andamos soterrados em notificações, mensagens que treslemos, emails que apagamos com alívio e culpa, incapazes de responder a tudo, bloqueados pela ideia de que devíamos ir aonde não estamos, com a sensação constante de que estamos a perder alguma coisa.
Enquanto o vento e a chuva arrastavam carros, tombavam gruas, arrancavam as raízes das árvores, eu estava fechada num estúdio de televisão, a comentar o debate da segunda volta das presidenciais. Lá dentro, apenas uma chuva de picardias, palavras levadas pelo vento, aquecidas pelo sol intenso dos holofotes. Quando saí, encontrei à porta um bombeiro. Não podia ser bom sinal, brinquei. E não era, explicou-me. Mas eu cheguei a casa sem grandes sobressaltos e no scroll das minhas redes sociais, as únicas tempestades trazidas pelo algoritmo vinham das ruas de Minneapolis. Tinha o feed cheio das imagens de manifestantes, caminhando debaixo de neve, de crianças levadas pelo ICE (a polícia anti-imigração de Donald Trump), de todos os ângulos possíveis dos que caíram às mãos desses agentes. Mas nenhum sinal de que, muito mais perto de mim, o vento e a chuva arrasavam o País, deixando para trás um rasto de destruição e morte.
Foram precisas várias horas para entender. Leiria parecia “um cenário de guerra”, vi nas notícias, que iam mostrando partes do País alagado, automóveis virados ao contrário. E não era só em Leiria. Havia um homem morto em Vila Franca de Xira. Mais mortos noutros locais. Vários estragos em vários pontos daquilo a que em tempos algum político se lembrou de chamar “o País real”, esse cenário inventado para dar autenticidade à tentativa plástica de se mostrar próximo daquilo que se desconhece.
Fui, então, à procura desse “País real”, devastado por tempestades sucessivas de nomes estrangeiros, que antigamente eram só mau tempo e agora são depressões ou uma “ciclogénese explosiva”. Pôr nomes nas coisas costuma ser uma forma de nos dar a ilusão de as controlar, mas neste caso parece que só serve para as tornar uma força maior do que nós. A Kristin, a Ingrid e o Joseph estão no Olimpo lançando raios sobre as nossas cabeças.
Dizia que fui à procura do País real. Mas foi pelo Google, claro. O que é que me apareceu? Notícias, muitas delas naquelas fiadas contínuas, que os sites agora dizem ser “ao minuto”, onde tudo parece que está a acontecer ao mesmo tempo, mas não se percebe o que é mais importante e temos a sensação de que rapidamente tudo ficará engolido pela amnésia da internet, incapaz de deixar marca, um título que seja, que daqui a uns meses nos ajude a lembrar o que aconteceu. Também encontrei fotografias, muitas delas assinadas por pessoas que as tiraram com os telefones e as enviaram para as redações.
“A bolha mediática”, como dizem alguns com escárnio, foi a que me permitiu inteirar-me do que tinha acontecido. E onde encontrei um texto da Paula Sofia Luz, no Público, que resume na primeira pessoa o inferno de uma noite de impotência, que é só mais uma num rol de tragédias que, de vez em quando, assolam o País. “Às 3 da manhã a chuva em Pombal era tão intensa que me trouxe à memória a enxurrada de 2006, quando aqui percebemos que, afinal, o nosso maior medo só era o fogo até percebermos o quanto pode a água. Sabemos agora que é o vento, afinal, o mais perigoso.” Nas redes sociais, a bolha do algoritmo tornou para mim tudo o que se estava a passar a poucas centenas de quilómetros num ângulo morto. Nas minhas redes sociais, não tinha acontecido nada.
Os políticos foram aparecendo. Os de Lisboa quase a medo, pedindo que não houvesse precipitações. Os do terreno lançando as mãos à cabeça. “A nossa vida, a partir de hoje, mudou durante os próximos meses”, disse o presidente da Câmara Municipal de Leiria (por acaso, eleito pelo PS), apelando, a “um sentimento solidário” da comunidade, numa notícia da Lusa. Quantas vezes “a nossa vida mudou”? Quantas vezes passámos nos últimos anos por “tragédias” que só podemos lamentar? A quantas famílias enlutadas vimos políticos solenes enviar “sentidos pêsames”?
E quantas vezes será preciso que aconteça para que se perceba que a construção de uma comunidade não devia fazer-se em cima de um “sentimento solidário”? Os sentimentos, caros políticos, podem ficar para as nossas vidas privadas e a solidariedade é uma opção. A construção de soluções comuns não devia ser opcional. Devia ser a base de tudo. Porque quando o fogo arrasa as terras, quando a água inunda as casas, quando o vento leva tudo à frente, percebemos que o que nos faz renascer das cinzas, o que nos enxuga as inundações, o que nos prende ao chão e nos dá teto são as soluções coletivas que formos capazes de construir. Não é o cada um por si. Ninguém se lembra de chamar unicórnios, startups e empreendedores para ajudar. Ninguém se põe à porta das empresas a exigir que deem gratuitamente auxílio a alguém.
Houve um tempo em que quase toda a gente, da esquerda à direita, entendia isso. Agora, são capazes de começar a gritar que “vem aí o socialismo”, se lhes falarmos nisto. Mas só quando acabarem de gritar que “o Estado falhou” e que “o Estado tem de dar” isto e aquilo.