Agora que os dias começam a ficar mais pequenos e os mais pequenos exultam por voltar à azáfama da escola – enquanto nós, adultos, lhes invejamos os quase três meses de férias –, talvez seja tempo de fazer contas à vida. Sobretudo à dos portugueses. Dados da Pordata mostram-nos que, no ano passado, 38,9% das pessoas em Portugal não tinham capacidade para pagar uma semana de férias fora de casa. Estamos a falar de praticamente metade da população. Este ano, naturalmente que os dados ainda não estão fechados, mas a confirmar-se o que foi sendo noticiado, os números podem ter aumentado.

Este ano, o preço do alojamento no Algarve, destino querido em território nacional, registou um aumento de entre 5% e 10%, segundo os responsáveis da hotelaria. Valores incomportáveis para grande parte dos portugueses, mas que continuam a garantir uma ocupação a rondar os 90% graças aos estrangeiros. Na região do Douro, o preço médio da noite em unidades hoteleiras de três ou quatro estrelas fixou-se em redor dos €300 e se tentasse marcar uma semana em hotéis de cinco estrelas, não raras vezes lhe dariam orçamentos de cinco dígitos, para uma família de quatro pessoas. E isto só incluindo alojamento e pequeno-almoço.

É claro que, ao mesmo tempo que muitos portugueses não tiveram outra opção senão a de passar férias em casa – ou em alojamentos de família e amigos, se tiverem esse privilégio –, as redes sociais e a imprensa da especialidade explodiam de alegria com os veraneantes de 2024: o ator Richard Gere de férias nos Açores, com a família; os pilotos de Fórmula 1 Max Verstappen e Lando Norris a passearem pela Comporta com os amigos e as namoradas; a modelo Mariana Goldfarb a tirar fotografias em cada praia nacional; a princesa Eugenie da Grã-Bretanha a passear com os filhos… A nata das celebridades internacionais faz disparar os alarmes positivos dos gastos de estrangeiros, anima os organismos oficiais de Turismo e, naturalmente, as empresas de hospitalidade que a recebem. Tudo boas razões para se continuar a subir o preço – mesmo que o serviço tenha decaído para níveis que, em muitos lugares, deviam envergonhar as administrações. Entretanto, os portugueses são cada vez mais remetidos para um lugar de uma espécie de “cidadãos de segunda categoria” no país onde vivem, trabalham e pagam impostos, durante todo o ano.

Que quase 40% das pessoas não tenham capacidade para pagar uma semana – em 52! – de férias por ano para desfrutarem com a sua família devia preocupar-nos a todos, porque é mais um sinal de que algo está muito errado num país que se diz desenvolvido. Sobretudo quando esse mesmo país se congratula por ser a escolha de estrelas do cinema, da televisão ou do desporto. Quando é que deixámos de ter direito a aproveitar aquilo que o nosso pequeno retângulo à beira-mar plantado tem de melhor? E até quando vai durar esta cegueira de governantes e de empresários em relação ao seu contributo para o aumento de uma desigualdade que tanto criticamos noutras nações pelo mundo fora?

É natural e expectável que nem todas as pessoas possam ter acesso à totalidade das opções para umas férias descansadas. Mas ignorar que existe quem não pode sequer pagar uma semana fora de casa porque Portugal agora só tem preços para turistas que nunca fizeram contas à vida parece-me apenas falta de respeito. E, como sempre na História, talvez fosse importante recordar que ela se repete. No dia em que os estrangeiros encontrarem outro destino para passear, talvez os portugueses já tenham desistido de aproveitar Portugal. 

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Maria Luís Albuquerque vai ser a Comissária Europeia indicada por Portugal. A escolha é boa. Tem um currículo público e privado importante, destacando-se o seu papel como ministra das Finanças no Governo de Passos Coelho. É o exercício deste cargo que levanta à esquerda uma onda de oposição, e quase indignação, sobre esta opção do primeiro-ministro. Curiosamente, é também a razão que justifica esta escolha.

Maria Luís Albuquerque foi, de facto, a ministra da Austeridade da Troika, mas desempenhou tão bem o seu cargo que conseguiu, em conjunto com o Governo, tirar o país do aperto em que estava, num prazo curto e até muito saudado. Tão saudado que os portugueses, apesar dessas agruras, deram uma vitória eleitoral ao PSD/CDS.

O forte programa de austeridade não nasceu com a então ministra das Finanças, ou com Passos Coelho, mas vinha do tempo do Governo socialista de José Sócrates, que foi obrigado a chamar a troika em condições dramáticas para o país. Rapidamente, Passos Coelho e a ministra perceberam que o programa negociado na altura estava longe da realidade que o país vivia, e isso obrigou a medidas mais duras, mais complicadas e difíceis, mas com um resultado mais rápido e eficaz.

Assim sendo, Luís Montenegro fez muito bem em escolher Maria Luís Albuquerque para o «governo» europeu porque sabe, por experiência própria – quantas vezes não teve de defender a ministra e o Governo na AR – que é competente, focada e determinada, tudo qualidades que a Europa precisa em Bruxelas.

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Uma consequência profunda, embora pouco assinalada, da vaga populista dos últimos anos é a contínua e persistente degradação do debate público, cada vez mais reduzido a trocas de acusações. Ainda por cima, quando estas são formuladas, quase sempre, através de um vocabulário direto e sem outra preocupação que não seja a de fazer despertar emoções básicas, que conduzam à repulsa do adversário ou à adesão irracional àquilo que se transmite. O resultado está à vista: todo e qualquer acontecimento ou assunto é depressa transformado num motivo de indignação e qualquer caso menos esclarecido é imediatamente alcandorado à categoria de escândalo. Nessa voragem, em que se repetem acusações e indignações sempre pontuadas por uma profusão de pontos de exclamação, é fácil perder a noção da realidade e lançar a confusão sobre o peso e a função específica de cada palavra.

Perante a nossa apatia e sem sequer nos incomodarmos verdadeiramente, enquanto comunidade, tudo passou a ser uma “vergonha” e qualquer motivo é suficiente para alguém decretar que estamos perante uma “invasão” ou prestes a entrar em “guerra”. Sabemos que essa escalada é potenciada pelas redes sociais, com os seus algoritmos ensinados a identificar e a exponenciar as polémicas mais ruidosas e que melhor alimentam o negócio das partilhas e visualizações. Mas o problema é que esta pulsão não se manifesta apenas no mundo virtual, em que todos podem debitar a sua opinião e são, em simultâneo, também alvos fáceis para os exércitos profissionais de bots e para as milícias de vigilantes que se aglomeram na net, sempre prontas a arrasar quem as contraria ou pensa de maneira diferente. Este clima permanente de confronto, de polarização e da mais absoluta ausência de tolerância está hoje presente em todo o lado. Tornou-se norma. E, aos poucos, vai contaminando todo e qualquer debate, como se as discussões acaloradas entre apoiantes de clubes rivais de futebol fossem a matriz que, para captar atenções, tem de ser usada em qualquer assunto, independentemente da sua importância.

Embora esta realidade seja hoje observável em qualquer parte do mundo, ela é particularmente visível, devido à força e à influência mediática, no atual ambiente político dos Estados Unidos da América: um país profundamente dividido em dois blocos, já sem qualquer ponto de contacto entre eles, que parece caminhar para algo muito próximo de uma guerra civil. E o mais impressionante é a velocidade com que tudo se processou, perante a passividade e a contribuição dos dois lados.

Na convenção do Partido Democrático de 2012, para a reeleição de Barack Obama, o ex-Presidente Bill Clinton foi, num discurso histórico, um dos primeiros a alertar para o que estava, então, a iniciar-se, com a radicalização da ala mais conservadora do Partido Republicano. E fê-lo de uma forma que merece ser lembrada: sublinhando que algumas das medidas mais importantes dos seus mandatos, que coincidiram com o período de maior prosperidade e paz dos EUA, só foram possíveis devido à confluência de interesses entre os dois partidos.

Desde que Donald Trump entrou em cena, essa tendência só se tem agravado, tanto nos EUA como no resto do mundo. Sempre com o mesmo objetivo, comum a todos os populistas – mas que também se vai observando, tantas vezes, nos argumentos de quem os combate: a exploração da raiva dos eleitores, os apelos ao combate e a obliteração, à lei da bomba, de tudo o que possa proporcionar o mínimo ponto de contacto ou de entendimento entre os apoiantes, fiéis ou circunstanciais, dos dois lados.

O combate aos inimigos da democracia e de uma sociedade mais justa não pode ficar resumido aos apelos à resistência. Precisa também de transmitir alegria e, acima de tudo, de insuflar esperança – porventura, aquilo de que mais sentimos falta no mundo atual, dominado pelos sentimentos de vingança, de perseguições aos outros, de conflito permanente, dinamizado pelos populistas.

Se for eleita Presidente da nação mais poderosa do planeta, Kamala Harris não vai, de certeza, resolver todos os problemas do mundo. Mas, para já, teve uma virtude, como candidata frente a Donald Trump: soube restaurar a alegria que deve estar inerente a qualquer projeto de esperança por uma sociedade melhor. E isso, só por si, já devia fazer toda a diferença.

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Palavras-chave:

A 11 de março de 1985, uma segunda-feira, o Presidente dos Estados Unidos da América, Ronald Reagan, é acordado às 4h da madrugada, para ser informado de que o líder soviético, Konstantin Chernenko, tinha morrido. Pouco depois, sabe-se que Mikhail Gorbachev é o novo homem forte em Moscovo. Quatro anos e meio depois, há de cair o Muro de Berlim. E em 1991 a União Soviética (URSS) deixa de existir. Ronald Wilson Reagan, o vencedor da Guerra Fria, não gostava de segundas-feiras. Não consta que tivesse passado a gostar. Mas aquela contribuiria para lhe reservar um lugar na História.

Intimidade O Presidente dos EUA recebe a amiga em Camp David

Ronald Reagan não gostava de segundas-feiras nem tinha paciência para longos relatórios ou memorandos. Acreditava que uma simples folha A4 dispunha de espaço suficiente para colocar um líder de equipas ao corrente do essencial, um ponto em comum com o português Mário Soares, figura que considerava “impressionante”. Nascido em Tampico, um vilarejo do Ilinóis, 1911, filho de pai comerciante e mãe doméstica, era um rapaz da classe média. O atraente nadador salvador acabaria por cumprir o sonho de chegar a Hollywood, a “Meca do cinema”. Love in the Air, de 1937, é o seu primeiro filme. Casa-se com Jane Wyman, uma atriz mediana, de quem se separará em 1949. Na II Guerra Mundial, está nos nos FMPU (First Motion Picture Unit), unidade de propaganda criada por Hollywood. Depois da separação, conhece Nancy Davis, a mulher da sua vida. É contratado como porta-voz da General Electric e percorre o país de autocarro, porque não gosta de voar.

Desperta para a política com Barry Goldwater, candidato republicano em 1964, que perderia para o democrata Lyndon Johnson. Faz um memorável discurso de apoio ao nomeado e dá nas vistas. Eleito governador da Califórnia em 1966, está lançado. Mais tarde, o Presidente Nixon confia-lhe a missão de explicar a Chiang Kai-shek, líder nacionalista de Taiwan, que o restabelecimento de relações com a China não põe em causa o apoio à ilha.

A menina Maggie

Nascida em Grantham, no Lincolnshire, em 1926, filha de um pastor metodista e de uma dona de casa com quem nunca se deu bem – “deixámos de ter coisas para dizer uma à outra a partir dos meus 15 anos” –, Margaret Hilda (Thatcher, pelo nome do futuro marido), a primeira mulher chefe de governo do Reino Unido, nunca foi feminista. No seu executivo, era ela a única mulher. Tinha de ser mais estudiosa, mais trabalhadora, mais decidida, mais firme e mais competitiva do que era suposto esperar de uma senhora. Acreditava que se chegava ao topo por mérito e não por favor – ou quotas. Nunca perdeu, por causa disso, uma certa feminilidade desarmante e o Presidente francês François Mitterrand dela dizia que tinha “os olhos do Calígula e a boca da Marilyn Monroe”. Devorava longos relatórios, documentos e papéis oficiais, noite dentro. Devia adorar segundas-feiras.

De formação vitoriana rígida – ordem, economia, dever, trabalho, patriotismo –, procurou estabelecer no governo todo um programa de valores, à antiga, a que, embora mais flexível e adaptável do que aparentava, foi fiel, nunca perdendo a coerência, mesmo ao preço de uma impopularidade que, em certos setores, se traduziu por perpétuo e puro ódio. Licenciada em Química, por Oxford, fez uma pós-graduação como advogada de barra, profissão que exerceu. Foi eleita deputada pelo Partido Conservador em 1959 e rapidamente se destacou pelo discurso claro e desassombrado e, depois, pela telegenia e o estilo convincente de comunicação. Na década de 70, o Reino Unido combinava uma inflação insuportável, que chegou aos 27%, em 1975, com uma taxa de desemprego que não parava de crescer.

Anfitriões Nancy e Ronald Reagan estabeleceram uma familiaridade crescente com Margaret, que em muito ultrapassava a relação diplomática

Em 1976, a antiga superpotência colonial teve de pedir um empréstimo ao FMI. A década terminou com o famoso “inverno do descontentamento” de 1979, depois de ter chegado a haver duas eleições gerais no espaço de um ano, em 1974, no rescaldo da crise do petróleo. Margaret Thatcher, que passara por um governo conservador em 1970, como secretária de Estado da Educação e Ciência, acabou por disputar o lugar do seu antigo primeiro-ministro Edward Heath, que caíra politicamente de podre, sem que nenhum dos barões (homens) tivesse a ousadia de avançar. Aproveitou a oportunidade, já depois de ter feito propostas disruptivas, quando fora porta-voz dos tories para a habitação, preconizando que os inquilinos da habitação social pudessem comprar as casas que habitavam. Era o primeiro lampejo de um “capitalismo popular”, de que foi pioneira, e que viria a implementar no governo, estendendo-o ao mercado bolsista, quando gigantescas privatizações levaram o executivo a incentivar o cidadão comum a comprar ações. (Claro que, como sempre acontece, mais tarde, tudo acabaria nas mãos de um pequeno grupo de grandes tubarões.) Esta receita seria aplicada, em Portugal, pelos governos de Cavaco Silva, discípulo assumido, pelo menos, no início, da senhora Thatcher, com quem também tinha em comum a noção de common sense vinda de origens relativamente humildes.

A Sociedade Reagan & Thatcher, Lda.

Se Ronald Reagan é o protagonista da queda da URSS – e sem dar um único tiro –, também é certo que nunca o teria conseguido sem as reformas de Gorbachev, forçadas por uma pressão internacional de figuras como o Papa João Paulo II (ver caixa), a ajudar a Leste, e Margaret Thatcher, a auxiliar a oeste, sobretudo, no quadro da NATO. Naquela que seria a parceria preferencial, na cruzada contra o “Império do Mal” – nome dado por Reagan à URSS e seus satélites – e na definição de uma nova ordem económica e monetária global, que se estendeu até aos nossos dias, é impossível ignorar o fator humano e a química pessoal: Ronald e Margaret perceberam que estavam no mesmo comprimento de onda, no momento em que se conheceram, em fevereiro de 1981. Em janeiro de 1986, por exemplo, Thatcher passa por dificuldades no Parlamento britânico e Reagan faz-lhe uma chamada de conforto, só para lhe dar ânimo. Em fevereiro de 1987, Thatcher retribui, quando Reagan tem dificuldades equivalentes, no Congresso. “Telefonema de Margaret e Denis [marido de Thatcher] a dizerem que, por lá, as pessoas ainda gostam de nós…”, regista Reagan, no seu diário. O mesmo diário onde, a seguir ao primeiro encontro, na Casa Branca, em 1981, o Presidente resume a reunião na Sala Oval: “Ela mantém-se firme em relação aos soviéticos.” Em julho, Thatcher volta ao diário de Reagan, depois de uma conferência com aliados, no Canadá: “É um pilar de força e uma sólida amiga dos EUA.” A mesma reunião onde Reagan conhece outros líderes europeus, como Helmut Schmidt (chanceler da Alemanha) e François Mitterrand (Presidente francês). Nalguns atritos com os dirigentes europeus, quando se discutem questões económicas, conta sempre com o apoio de Thatcher.

A Polónia na equação

Em julho de 1981, Ronald Reagan pondera se deve fazer alguma coisa para “ajudar o povo polaco”. Lech Walesa e o Solidariedade já mexem… A Polónia está no radar desde a eleição de Karol Wojtyla como o primeiro Papa vindo da Cortina de Ferro. A 30 de março desse ano, o Presidente fora alvo de um atentado em que por um triz não perdeu a vida. “Dói levar um tiro”, escreveu, duas semanas depois, no diário. A fratura de uma costela e a perfuração, por bala, de um pulmão são as consequências. Operado de urgência, recupera. A 13 de maio é a vez de o Papa ser baleado, em Roma. Recebido em junho do ano seguinte, no Vaticano, Ronald Reagan troca impressões com João Paulo II, sobre os mútuos “ferimentos de guerra”. Não por acaso, Fátima e os Pastorinhos estarão no centro do discurso de Reagan (filho de pai católico e de mãe protestante…) no Parlamento português em 1985 (ver caixa)…

Os dias de Reagan, na Casa Branca, são um corrupio de entra e sai dos grandes e dos pequenos dirigentes deste mundo. O diário regista, inclusivamente, as visitas do Presidente português Eanes, do primeiro-ministro Balsemão e (por duas vezes) do líder da oposição e depois chefe do governo, Mário Soares, “esse anticomunista furioso” (ver frases).

Margaret thatcher

1925-2013


Formação e trabalho
Licenciada em Química por Oxford. Formação em leis que permitiu o exercício de barrister – uma figura equivalente a advogado de contencioso

Família
Casada com Denis Thatcher. Dois filhos

Início na política
Eleita deputada à Câmara dos Comuns, pelo Partido Conservador, no distrito de Finchley, em 1959

Chegada ao governo
Secretária de Estado para a Educação e Ciência no executivo conservador de Edward Heath, entre 1970 e 1974

Líder da oposição
Disputa o lugar de Heath, em 1975, e é eleita líder dos “tories”, chefiando a oposição até 1979

Primeira-ministra
Com o slogan “Não espere por uma vida melhor. Vote numa”, ganha as eleições em 1979

Políticas públicas
Desregulamentação do setor financeiro, liberalização da economia, flexibilização do trabalho. Popular nos primeiros anos, por ter invertido a recessão, diminuído o desemprego e ganhado a Guerra das Malvinas, contra a Argentina

O fim da linha
Crescentemente impopular, eurocética, contestada pelo seu próprio partido, renuncia em 1990. Tornada par do reino, com o título de baronesa Thatcher de Kesteven, entra na Câmara dos Lordes. Depois de um período de demência, morre de AVC

Em 1982, a questão polaca entra definitivamente na agenda. O Papa, no Vaticano, apoia os esforços. Em março de 1982, Mitterrand chega a Washington, de Concorde. “Entendemo-nos bem, mas a imprensa tentou dar a entender que estávamos às avessas”, escreve Reagan. Discute-se o armamento francês na Nicarágua sandinista. A Guerra Fria está sempre no centro das atenções. Mas a economia também: Reagan, convencido pelos duros da escola de Chicago que escolheu para a área das Finanças, depois de ele próprio ter invertido, como governador, um défice crónico no estado da Califórnia, mantém sucessivos braços de ferro com o Congresso e com boa parte do seu próprio partido, para reduzir o défice por via da despesa e sem aumentar os impostos. Em agosto de 1982, o staff político reúne-se na Sala Oval e conclui que o Estado é um monstro dispendioso e incompetente e que é preciso cortar despesa.

A luta continua: no Dia de São Patrício, a 17 de março de 1983, em que é tradicional uma troca de presentes, recebe de Thatcher uma gravata com trevos. Nesse mês, mantém discussões com os congressistas, do comité do Orçamento. O ano de 1984 volta a abrir com a mesma questão. Os próprios republicanos querem aumentar impostos para reduzir o défice, mas Reagan e o secretário do Tesouro recusam. Preferem reduzir a despesa (exceto na área da Defesa). É neste quadro que, a 29 de janeiro, anuncia a recandidatura. O candidato democrata será Walter Mondale.

As guerras em torno do Orçamento e das políticas fiscal, monetária e financeira têm episódios recorrentes: o Orçamento seguinte, proposto pelo comité de finanças republicano, prevê cortes draconianos em despesa. Reagan interroga-se sobre se a proposta não será propositadamente dura para o levar a aumentar impostos, mas decide que não o fará.

“Não há alternativa”

Em Inglaterra, Margaret Thatcher faz a sua parte. Embora a economia não seja a sua área de formação, Thatcher estuda atentamente as teorias de Milton Friedman, da “Escola de Chicago”, que defendia que era a inflação, e não o desemprego, o principal flagelo económico. A regra de Friedman impunha que o controlo da inflação fluía do controlo da oferta de dinheiro e tudo o resto andava à volta desta regra. Estas teorias monetárias foram religiosamente seguidas pela administração Reagan, nos EUA, e pela Grã-Bretanha do thatcherismo. Thatcher rodeia-se de militantes da causa, o conselheiro económico Alan Walters e, sobretudo Sir Geoffrey Howe, ministro das Finanças (depois MNE), o grande artífice da dura política thatcherista, que viria a ser descartado e depois se vingaria, sendo crucial no processo que levou à resignação da primeira-ministra, em 1990. Também teve como peça-chave do seu gabinete o secretário particular Charles Powell e o assessor de imprensa, fundamental na sensível ligação com os tabloides, Bernard Ingham.

A deriva neoliberal thatcheriana viria a influenciar a “governança” do mundo ocidental e ainda hoje, com mais ou menos desvios, preside apolítica monetária do BCE ou da Reserva Federal e é mesmo seguida – com mais ou menos nuances de carácter social ou ideológico – por governos europeus de esquerda e de direita (que o diga a dupla Costa/Centeno, em Portugal). Postumamente, a célebre sigla inventada por Margaret Thatcher, a TINA, There Is No Alternative (não existe alternativa) foi fazendo o seu caminho. Até aos tempos da Troika, após a crise de 2008…

Dama de Ferro, alcunha dos russos

Limitar a oferta de dinheiro, reduzir o poder dos sindicatos (inimigo público nº 1), reduzir os impostos, desregulamentar o setor financeiro e incentivar as forças do mercado, acabar com o alto nível de dependência da Segurança Social. Estas as grandes linhas da receita thatcheriana, que, no primeiro mandato, conseguiu resultados na redução da inflação (não tanto do défice, a despesa até aumentou…) e na do desemprego.

O que hoje nos parece bastante familiar, nestas teorias, era um programa verdadeiramente disruptivo, nos anos 80, até para as mentes mais conservadoras. Não se pense que o seu gabinete esteve sempre com ela, e, muito menos, de início. Rapidamente o governo se dividiu entre os seguidores, os que não queriam problemas, e os contestatários, apelidados de wets (molhados) por temerem as reações populares e parlamentares às políticas da primeira-ministra. Só a vontade férrea de Thatcher – a Dama de Ferro, expressão cunhada pejorativamente por um oficial soviético, num jornal militar de Moscovo, e rapidamente popularizada no Ocidente como elogiosa –, permitiu avanços no seu programa. À medida que ia ganhando os braços de ferro, ia remodelando discretamente o governo, perguntando, a cada nova nomeação, se “aquele é dos nossos”. No seu primeiro encontro com Ronald Reagan, desabafou: “Procurei aplicar o meu programa passo a passo e já estou arrependida! Devia ter feito como vocês: aplicar logo o pacote todo!”

Ronald Reagan

1911-2004

Formação e trabalho
Radialista desportivo. Ator em Hollywood, durante 30 anos, desde 1937. Presidente da Screen Actors Guild e porta-voz da General Electric

Família
Dois casamentos: Jane Wyman (1940 a 1949) e Nancy Davis (1952 a 2004). Cinco filhos, um dos quais, adotado

Entrada na política
Inscrito no Partido Republicano, notabiliza-se com um impactante discurso de apoio ao candidato à Casa Branca, Barry Goldwater, em 1964

Governador
Eleito governador da Califórnia, em 1966. Inverte o défice do seu estado. Ganha popularidade e é reeleito em 1970

Candidato
Tenta a candidatura à Casa Branca, pelos republicanos, em 1968 e em 1976. De ambas as vezes, perde, nas primárias

Presidente
À terceira é de vez, ganha as eleições de 1980 e torna-se, em 1981, o 40.º Presidente dos EUA. É reeleito em 1984

Políticas e marcas
Liberalização da economia, baixa de impostos. Programa “guerra das estrelas” garante vantagem na disputa nuclear contra os soviéticos. Ganha a Guerra Fria

O fim da linha
Retira-se para o seu rancho, depois de dois mandatos, em 1989. Virá a sofrer e a morrer da doença de Alzheimer

A sua persuasão não deixava de incluir um pequeno toque de chantagem feminina, jogando com o facto de os cavalheiros conservadores do seu governo terem alguma hesitação em confrontar uma senhora “indefesa”, nas tensas reuniões do gabinete… Claro que não era estúpida e percebia quando tinha de mudar alguma coisa, uma das características que o discípulo anglófilo Cavaco Silva seguiria em Portugal. O primeiro-ministro português teve-a como modelo, pelo menos, até ao momento em que o euroceticismo na senhora Thatcher forçou a separação de águas: Cavaco, a gerir os milhões europeus, sabia muito bem de onde vinha o dinheiro…

Ainda no primeiro mandato, em 1980-81, Inglaterra enfrentou nova recessão, na sequência da segunda crise do petróleo. Mas a descoberta do precioso “ouro negro” no Mar do Norte foi um golpe de sorte que em muito ajudou a que, em 1983, o Reino Unido já tivesse recuperado a estabilidade orçamental, sem que isso se notasse nos bolsos dos súbditos britânicos. O país estava melhor, mas as pessoas não… O segredo da vitória eleitoral de 1983 não residiu, pois, na Economia (a austeridade tinha deprimido o PIB e os impostos não tinham, afinal, baixado…), mas na guerra.

Thatcher vai à guerra

Os mesmos wets que tinham contestado as políticas económicas voltaram a levar as mãos à cabeça quando Thatcher resolveu mandar a Armada para as Falkland (Malvinas), rapidamente e em força, decisão de alto risco que lhe valeu uma popularidade súbita.

Em abril de 1982, iniciaram-se as hostilidades, com o governo militar do ditador pró-americano Leopoldo Galtieri a reivindicar a soberania sobre o arquipélago, uma excrescência colonial inglesa que albergava cerca de duas mil almas britânicas. Os argentinos ocuparam mesmo parte das ilhas e hastearam ilegalmente a sua bandeira. O caso foi sério: no clube de futebol do Tottenham, pontificava o jogador argentino, grande estrela da “Seleção das Pampas”, Osvaldo Ardiles, que, durante a guerra, teve de ser emprestado ao PSG, voltando a Londres apenas quando o seu regresso foi julgado seguro…

Encontros Numa rara imagem com o empresário Donald Trump, futuro polémico Presidente dos EUA. Com João Paulo II, tinha em comum os atentados, ambos no mesmo ano

A administração americana ficou aflita com a decisão unilateral da Grã-Bretanha de fazer a guerra à Argentina nas barbas (geográficas) do gigante sul-americano. Reagan suplicou a Thatcher que optasse pela via diplomática ou que, pelo menos, não declarasse uma vitória total nas Falkland, o que poderia precipitar a queda de um governo amigo de Washington. Mas Thatcher mostrou-se inflexível. A Velha Albion, senhora dos mares, ainda tinha uma palavra a dizer. Um compromisso negociado cheirava a “apaziguamento” – e havia razões históricas (Munique, 1938…) que tornavam maldita essa palavra. O afundamento, por um submarino britânico, do cruzador argentino General Belgrano, a 2 de maio, com a morte de 363 tripulantes, foi o primeiro ato de guerra. E nem a perda de algumas vidas britânicas, em combates posteriores, fez Thatcher e o seu gabinete de guerra perderem a compostura. Sobretudo a primeira-ministra exibia uma calma olímpica. O povo inglês estava inteiramente ao lado do governo nesta missão e, com a vitória total, os números da sua popularidade dispararam para 51%. Depois de anos de decadência, depressão e sacrifícios, a timoneira do país tinha feito os britânicos sonhar com a ilusão da nostalgia imperial. A própria relação com Reagan, que, no final, acabou por apoiar a Grã-Bretanha, viria a ganhar: o Presidente americano percebeu que tinha ali uma aliada forte e corajosa, com quem podia contar, para as lutas que aí vinham, no quadro da Guerra Fria. Como se verificou, em 1983, com a autorização para a instalação, na Grã-Bretanha – contra protestos populares generalizados –, de mísseis de alcance intermédio.

Reagan também faz das suas

Se Thatcher avançou para os mares do Sul sem pedir autorização a Reagan, o Presidente americano invadiu Granada sem sequer avisar Thatcher. Em outubro de 1983, Reagan recebe um telefonema da primeira-ministra, que lhe pede para não intervir em Granada. O Presidente americano não tem coragem para a informar de que já deu ordem para as tropas avançarem. Mais tarde, pede desculpas públicas a Thatcher e o arrufo acaba. Serão estes os únicos momentos críticos da relação. Valores mais altos se levantavam e todos eles tinham que ver com a URSS e com arregimentar vontades, entre os parceiros europeus, para desmantelar o sistema comunista.

“Não existe isso de ‘sociedade’. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem as famílias”
Margaret Thatcher 1987

“Mudem de rumo, se quiserem. Esta senhora não é de mudar!”
Margaret Thatcher, discurso no congresso do Partido Conservador, 1980

“O PM [Mário] Soares, de Portugal, visitou-nos. É muitíssimo impressionante. É socialista, mas é um anticomunista do mais furioso que se pode encontrar
Diários de Reagan, entrada de 14/03/1984

“Senhor Gorbachev, derrube este muro!”
Ronald Reagan, discurso na Porta de Brandemburgo, Berlim, 12/06/1987

A 15 de abril de 1983, Reagan conhece Helmut Kohl, na Casa Branca. Estabelece-se uma química imediata. Em maio, a cimeira do G7 revela fissuras com Mitterrand e Trudeau, do Canadá, relativamente a questões de armamento. Thatcher está sempre ao lado dos EUA, assim como os responsáveis do Japão e de Itália. Helmut Kohl, esse, segundo Reagan, “é rijo e está connosco até ao fim!” Em setembro, Reagan recebe Eanes na Casa Branca e o homólogo português garante-lhe que as ex-colónias lusófonas estão preparadas para se afastarem da órbita soviética. Ainda em setembro de 1983, novo encontro com Thatcher e várias horas de conversa privada. Tema principal: os soviéticos. Reagan considera que as relações com o Reino Unido nunca foram tão boas.

Em abril do ano seguinte, Reagan faz uma longa visita à China e reforça as relações com Pequim. Fica fascinado com Deng Xiaoping e a viagem ficar-lhe-á marcada na memória para sempre. Deng revela um excelente sentido de humor. Um humor picante, como quando, piscando o olho ao Presidente norte-americano, se dirige a Nancy Reagan e lhe pede que volte à China – mas sem o marido… Reagan classifica o dia em que conheceu Deng como “o dia da sorte grande”.

Ator O sentido de espetáculo, aprendido em Hollywood, esteve sempre presente nos mandatos de Reagan

Pouco depois, registará outro grande dia, o do encontro, na Sala Oval, com Andrei Gromiko, o mítico chefe da diplomacia soviética, que fora embaixador nos EUA durante a crise dos mísseis de Cuba. Começa a delinear-se o polémico projeto da IDE (Iniciativa de Defesa Estratégica, vulgo “guerra das estrelas”). Os norte-americanos revelam estar a desenvolver um programa de defesa que garante imunidade aos EUA a quaisquer ataques com mísseis nucleares. Tudo mediante uma rede de satélites-escudo e armas prontas a disparar a partir do Espaço, anulando os eventuais ataques. Os soviéticos levarão, mais tarde, as mãos à cabeça e pressentem que é o fim da ideia de DMA (destruição mútua assegurada) que lhes garantia o estatuto de superpotência.

A 7 de novembro de 1984, Ronald Reagan é reeleito, ganhando em 49 estados, com 59% do voto popular e 525 votos eleitorais. Esmagador. E a 20 de fevereiro de 1985, pouco depois da tomada de posse, conversa de novo com Thatcher. Da política monetária ao controlo do armamento, a consonância é total.

A relação com Gorbachev

Em julho de 1985, Gorbachev faz saber que gostaria de estabelecer um canal privado de comunicação (além do telefone vermelho, concebido para mensagens de emergência). Reagan diz que os EUA já tinham tentado isso com antecessores de Gorby, e dá luz verde. A 19 de novembro, reúne-se, finalmente, com o “senhor G.”, em Genebra. O encontro é difícil. Gorbachev está irredutível na exigência do abandono do programa da IDE e recusa avançar em negociações. Apesar de tudo, há luz ao fundo do túnel: trocam convites para o soviético visitar os EUA em 1986 e Reagan a URSS em 1987. A iniciativa não tem precedentes. No segundo e último dia da cimeira, já um pouco mais relaxados, acabam a contar histórias um ao outro. Ao longo do tempo, será Margaret Thatcher – que manterá uma relação privilegiada com Gorby –, mas também Helmut Kohl, que irão desfazer as desconfianças iniciais mútuas entre os dois dirigentes. No final do ano, mais um dado simbólico inédito: ambos os líderes gravam mensagens de votos de bom ano novo: Gorbachev deseja bom ano aos americanos, Reagan retribui os votos aos soviéticos. No diário, Reagan sintetiza: “Foi uma grande estreia!”

A morte de Bobby Sands

O ativista do IRA levou a greve de fome até ao fim. Thatcher não mexeu um músculo…

Bobby Sands, ativista republicano irlandês e dirigente do IRA. A 5 de maio de 1981, o jovem “terrorista” morreu numa prisão da Irlanda do Norte, após 66 dias sem comer. Ao fim de 54 dias, um despacho da AFP informava que o ativista do IRA não pesava mais de 44 quilos. E que havia sido envolvido por uma pele de carneiro para evitar que os seus ossos perfurassem a pele. Nos últimos dias de vida, houve várias tentativas de mediação, mesmo sabendo-se que algumas das lesões provocadas pela provação eram irreversíveis. A Comissão Europeia de Direitos Humanos e um enviado pessoal do Papa João Paulo II – que entregou um crucifixo ao jovem republicano irlandês – falharam nos seus intentos, perante a posição inflexível da primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher.

A 5 de maio, data da morte, Bobby Sands já estava desfigurado, surdo e cego, e foi neste estado que deu o último suspiro, na enfermaria da prisão de Maze. Tinha 27 anos. O ativista reclamava contra as condições da prisão britânica, que considerava sub-humanas, e reclamava o estatuto de preso político, para si e para os 450 militantes presos do IRA. Esse estatuto deixara de ser reconhecido por Londres desde que Thatcher subira ao poder. Sands não partiu sozinho: nove dos seus companheiros, também em greve de fome, deixaram-se, igualmente, morrer, sem qualquer sinal de cedência por parte do governo Thatcher. E os casos só não aumentaram porque os restantes grevistas acabaram por ceder às pressões das respetivas famílias, para que acabassem com o protesto.

Bobby Sands não conseguiu ver satisfeita nenhuma das suas reivindicações, mas o caso, que se tornou, durante aqueles mais de dois meses, uma novela mundial, e presença constante nas manchetes de toda a imprensa ocidental, causou significativos danos reputacionais à Grã-Bretanha e ao seu governo – embora, do ponto de vista eleitoral interno, a firmeza demonstrada pela senhora Thatcher contra aquele grupo terrorista tenha marcado pontos. Esse terá sido um dos primeiros grandes transes enfrentados pela Dama de Ferro, alcunha exemplarmente confirmada pela forma como enfrentou e derrotou a Argentina, no ano seguinte, na Guerra das Falklands.

A 11 de outubro de 1986 decorre uma importante cimeira EUA-URSS em Reiquiavique, na Islândia. Os presidentes passam a pente fino todas as questões: direitos humanos, acordos regionais, acordos comerciais, etc. Reagan confronta Gorbachev com o facto de a URSS ter recusado cumprir o contrato da compra, aos EUA, de seis milhões de toneladas de cereais. Gorbachev, com cândida sinceridade, confessa que, devido às quedas no preço do petróleo, os soviéticos estavam sem dinheiro. A URSS punha a nu a fragilidade que, realmente, viria a determinar a sua implosão: a falência económica, algo que também impedia os russos de acompanharem os americanos em programas tecnológicos de defesa, como a “guerra das estrelas”. Logo a seguir, Thatcher dirige-se a Camp David, onde Reagan vai esperá-la ao helicóptero, vestido com um informal blusão de cabedal. Um dos principais assuntos é o “relatório” sobre as conversações de Reiquiavique. Reagan põe a aliada a par de tudo e pede-lhe conselhos e diligências, junto do líder russo.

Em 1987, o programa da IDE ainda é um tema irritante nas relações leste-oeste. Reagan propõe que o programa passe para as mãos de uma força internacional que possa gerir o sistema, defendendo todos os países de um qualquer ataque nuclear – e não apenas a América. Será um estratagema que tornará as armas nucleares obsoletas, mesmo que não sejam desmanteladas. Na verdade, isso também garante aos EUA o predomínio tecnológico em todas as outras áreas de Defesa – e porá a nu a obsolescência russa, que mantém o poder militar baseado na força nuclear. Sem dinheiro nem tecnologia, com a informação a irromper à conta da propagação de emissões ocidentais de televisão, a perestroika é a única esperança. Mais tarde, o desmantelamento da URSS será inevitável – mesmo que a ideia da IDE, muito menos avançada, na prática, do que parecia, também contivesse o seu lado de bluff.

Como Reagan viu PORTUGAL

As ruas estreitas de Sintra, o boicote do PCP e os cavalos lusitanos

Numa entrada de 8 de maio de 1985, Ronald Reagan escreve, no seu diário*: “Fomos recebidos pelo Pres. Eanes & mulher. (…) Na cidade, uma multidão enorme e calorosa e habitual revista militar.” Estas foram as primeiras impressões do Presidente americano.  As emoções mais fortes estavam reservadas para o dia seguinte, 9 de maio. Sigamo-lo (de forma resumida, para caber neste pequeno espaço): “Dia preenchido. Briefing antes de sair de Queluz para S. Bento e reunião com o PM Soares (também já nos tínhamos conhecido nos EUA [ver frases]). (…) Cobrimos uma variedade de assuntos com grande entendimento sobre todos eles. (…) Por acaso, tinha havido umas manifestações por minha causa e muitos graffiti [Reagan go home], mas percebi que, geralmente, me relacionavam com Soares. Os dissidentes não gostam de nenhum de nós.” Na receção na AR, onde foi convidado a discursar, Reagan enfrentou o boicote do PCP, que abandonou o plenário. Eis a sua reação: “Um grupo à minha esquerda – tanto física como filosoficamente… – levantou-se & saiu da sala. A grande maioria respondeu de forma calorosa às minhas observações.” Mas a visita continuou: “Fomos para o Palácio de Sintra [da Pena]. Num Ford Granada porque as limusinas não conseguiam chegar ao palácio devido à estreiteza da estrada & curvas apertadas.” Depois de descrever o impressionante jantar na Ajuda, aparece a entrada do dia 10 de maio: “Nancy & eu juntámo-nos a Eanes no terreno do pavilhão hípico para a exibição dos seus cavalos lusitanos. Foi haute école – dressage à maneira dos Lipizzaner de Viena & muito bom. Daqui diretos para o aeroporto – revista das tropas, desta vez, dos marines. Espantou-me o facto de eu ter mais uma cabeça de altura do que quase todos os homens das fileiras.”

*Os Diários de Reagan (Casa das Letras, edição de 2009)

Em junho de 1987, um périplo europeu de Reagan acabará em Berlim, com o famoso discurso em que dirá: “Senhor Gorbachev, derrube este muro!” Reagan nem se apercebe do efeito da sua frase e não a regista no diário.

Em maio de 1988, finalmente, a visita a Moscovo. Muito já se passara entre os dois líderes. Reagan já trata Gorbachev por Mikhail e a mulher por Raisa. E conclui: “Não tenho dúvidas de que há uma certa química entre nós.” Logo a seguir, na escala para casa, passa por Londres e pelo n.º 10 da Downing Street, onde mantém um tête-à-tête com Margaret Thatcher – para lhe contar as novidades. Acompanha-o o general Colin Powell e o secretário de Estado George Shultz. Tinham ganhado a Guerra Fria. Só faltava la pièce de résistence: a queda do Muro, pela qual ainda se esperaria um ano.

A crise dos mineiros

A obra de Friedrich Hayek, de 1944, O Caminho da Servidão, onde o pensador económico austríaco argumentava que o socialismo levava à servidão dos povos e que só o mercado livre, sem controlo estatal, permitia a liberdade, marcou profundamente Margaret Thatcher, depois de o ter lido duas vezes. O pretexto para combater o “socialismo” no terreno que mais abominava “dentro de casa” – o dos sindicatos – foi-lhe fornecido pelos mineiros, liderados pelo comunista  Arthur Scargill. Em 1984, com as centrais de carvão a fecharem – um movimento irreversível, quer por questões ambientais, quer pela chegada de novas fontes de energia –, o setor mineiro era uma bomba-relógio prestes a explodir. Preparando-se para o confronto grevista, o governo tinha armazenado grandes quantidades de carvão, para abastecer as centrais elétricas – e os mineiros caíram na tentação de abrir as hostilidades logo na primavera, quando o consumo tendia a diminuir. Embora, de início, a opinião pública simpatizasse com a luta mineira, a violência dos piquetes de greve, transmitida pela televisão, bem como a retórica revolucionária acabaram por assustar os súbditos de Sua Majestade. O braço de ferro durou quase um ano. Em março de 1985, depois de um inverno de fome, os mineiros voltavam, cabisbaixos, ao trabalho, sem qualquer ganho de causa. Thatcher havia quebrado a espinha ao sindicato mais poderoso da Grã-Bretanha. Uma vitória que teve muito de Pirro: nada se comparava com o sucesso popular da Guerra das Malvinas. E as imagens de trabalhadores de ar famélico e derrotado a marcharem, de novo, para as minas introduziu um amargo de boca que comoveu os britânicos.

O fim de uma época

É verdade que há o decisivo dedo de Thatcher na abertura do mercado único europeu, para harmonizar a circulação de bens, serviços, capitais e pessoas. Mas, ao longo dos anos 80, o euroceticismo da primeira-ministra e o seu crescente atlantismo, na parceria com os EUA – algo que três décadas depois, Boris Johnson, já na era do Brexit, procurou imitar – levaram a um afastamento progressivo de Bruxelas. Esta postura provocou fissuras entre europeístas e eurocéticos, dentro do próprio Partido Conservador, uma cisão de que jamais viria a recuperar. Num célebre discurso em Bruges, Margaret Thatcher afirma-se, sem o saber, como aquela que viria a ser a madrinha póstuma do Brexit: “Não fizemos recuar as fronteiras do Estado da Grã-Bretanha apenas para as ver repostas a nível europeu com um superestado que exerça um novo domínio, a partir de Bruxelas!”

Instantâneos para a História A relação privilegiada com Margaret Thatcher, o atentado que quase tirava a vida a Reagan e o famoso discurso na Porta de Brandemburgo

O sistema eleitoral inglês e o benefício de um Partido Trabalhista dilacerado por lideranças divisivas e ferido pela grande cisão que dera origem ao Partido Social-Democrata, permitiu a Thatcher um terceiro mandato, em 1987. Mas, em 1988/89, tentou impor a Poll Tax, um imposto iníquo que substituía a taxação local de propriedade por uma taxa única per capita, baseando a cobrança nas pessoas e não na propriedade, o que beneficiava os mais ricos e prejudicava quem nada tinha (a medida só seria revertida por John Major, seu sucessor). Foi o início do fim, com o país à beira da desobediência civil. Com os antigos fiéis a espetarem-lhe a faca nas costas e o partido dividido na questão europeia, é aconselhada, pelos seus colegas de governo, a resignar. Tinha-se quebrado a confiança. Abandona, a custo, o governo, em novembro de 1990, acusando os colegas de “traição”. Tinha ganhado um lugar na História, mas nunca foi, nem quis ser, consensual (abominava o conceito do “consenso”). No álbum The Final Cut, de 1983, no auge do seu poder, os Pink Floyd haviam escrito o icónico tema The Post War Dream, onde perguntam a Margaret: “What have we done?/ Maggie, what have we done?/ What have we done to England?/ (…) Oh, Maggie, Maggie, what did we do? [O que fizemos nós?/ Guida, o que fizemos nós?/ O que fizemos nós a Inglaterra?/ Oh, Guida, Guida, o que fizemos nós?]”

Atores principais

De uma ou de outra forma, os destinos políticos e pessoais destes protagonistas viriam a cruzar-se com os de Thatcher e de Reagan

João Paulo II
O Papa polaco

Karol Wojtyla, nascido em 1920, foi o primeiro Papa não italiano desde Adriano VI (1522). Eleito com surpresa em 1978, teria um longo pontificado de 37 anos. À sua eleição não foi estranho o ambiente político que já anunciava o colapso do comunismo – e o seu empurrãozinho terá sido decisivo, em parceria com outro polaco famoso, o sindicalista Lech Walesa, líder do Solidariedade e futuro Presidente da Polónia. Foi o pivô principal do Ocidente, no final da Guerra Fria.

Mikhail Gorbachev
O senhor Perestroika

Nascido em 1931, eleito como o mais jovem líder da URSS e do PCUS desde os anos 20, este economista, especialista em questões de Agricultura, elegeu a perestroika (“reestruturação”, em russo) e a glasnost (transparência) como pedras de toque da sua política reformista. O seu ideal era dar um rosto humano ao comunismo – mas o sistema estava podre. Foi parceiro privilegiado no desanuviamento com o Ocidente e interlocutor constante de Reagan (depois George Bush) e de Thatcher.

Helmut Kohl
O reunificador

Grande líder das Comunidades Europeias, este conservador da CDU, nascido em 1930, foi, com Mitterrand e Delors, o timoneiro da CEE no seu período de ouro. Calhou-lhe a tarefa de reunificar a Alemanha, após a queda do Muro de Berlim. Muito próximo de Gorbachev, contribuiu para esbater as desconfianças russas, relativamente ao Ocidente.

Jacques Delors
O senhor Europa

Formando um triângulo de aço com Helmut Kohl e François Mitterrand, este francês, nascido em 1925, economista da Sorbonne, socialista, líder histórico da Comissão Europeia (1985-95), tinha da coesão uma noção intransigente que nenhum dos seus sucessores soube honrar completamente. Grande amigo de Portugal e pilar da integração, Delors deixou uma marca indelével para a ideia da construção europeia.

François Mitterrand
O amigo de Soares

Depois de Charles de Gaulle, Mitterrand, nascido em 1916, foi o mais carismático Presidente da V República francesa. Europeísta, líder incontestado dos socialistas europeus, amigo de Mário Soares e preponderante na aceitação do pedido de adesão de Portugal à CEE, firmou com o conservador alemão Helmut Kohl o chamado eixo franco-alemão que nunca mais viu dias tão felizes.

Cavaco Silva
O bom aluno

Eleito pela primeira vez em 1985, reeleito com duas maiorias absolutas em 1987 e em 1991, Cavaco Silva, primeiro-ministro de Portugal, oscilou entre a fidelidade de discípulo a Margaret Thatcher e o europeísmo serôdio que havia de o aproximar de Delors ou de Felipe González (seu homólogo socialista, em Espanha) e fazer dele “o bom aluno europeu”.

Este domingo, 1 de setembro, o ritual político das rentrées terá um dos seus momentos mais fortes, com os discursos de Luís Montenegro e de Pedro Nuno Santos, quase em simultâneo, a encerrarem as respetivas “universidades” ou “academias” de verão – uma espécie de acampamentos de Escoteiros Mirins das respetivas juventudes partidárias, abrilhantados pelas palestras dadas por alguns adultos notáveis, iniciativa que o Chega, que tanto gosta de brincar aos grandes, também já mimetiza. Depois, fica apenas a faltar a Festa do Avante!, que tem perdido em importância política o que tem ganhado em termos de cartaz cultural. Pelo meio, este fim de semana, tivemos a Iniciativa Liberal a imitar o PSD e a ocupar o Calçadão de Quarteira, com o seu líder, Rui Rocha, a entoar um discurso chatíssimo com a ideia do “governo toranja” (laranja por fora, cor-de-rosa por dentro), o único lance criativo de uma intervenção que, dadas as expectativas criadas por anos de cartazes com piada, se saldou por um monumental bocejo. Quer a IL convencer-nos de que veio para mudar Portugal, apesar de não ter crescido para além dos 5% nas urnas, equivalentes a oito deputados, o que faz esta força parlamentar totalmente irrelevante: não chega para sustentar uma maioria de governo com o PSD e ainda menos para o derrubar. Rui Rocha deve preocupar-se, isso sim, é com a surda oposição interna e com o… “cotrinismo”. Cotrim de Figueiredo conseguiu provar, nas europeias, que vale mais do que o partido. O trabalho, agora, é disfarçar esse incómodo, fazendo dele o próximo… candidato presidencial.

Pelo caminho, André Ventura veio proclamar que o “alarme” causado, neste verão, pelo assunto da imigração justifica a realização de um referendo sobre o tema. Não é que nos dê muita vontade, mas vale a pena gastar umas linhas com isto: Ventura comporta-se como o incendiário que, depois de largar um fósforo aceso na floresta, vem gritar: “Há fogo! Há fogo!” Não, a imigração não é nada o assunto do verão: é o assunto do verão do Chega! Ventura está como Rui Rocha, ambos já perceberam que nenhum deles conta para a grande discussão política da rentrée: o Orçamento. Rocha, porque não tem força. E Ventura, porque só teria força se votasse a favor (ou contra, ao lado da extrema-esquerda e do PS). E o Governo parte (corretamente) do princípio de que vota mesmo contra (uma abstenção será irrelevante), ainda que possa dar a impressão de que não: é que Luís Montenegro não se esquece de como Ventura roeu a corda no caso da eleição do presidente da AR… Portanto, Montenegro não conta com o Chega e privilegia o PS, nas negociações, porque só o voto (a abstenção) do PS conta. E só contam, portanto, dois dirigentes políticos, ele próprio e o líder da oposição. Ventura julga ter encontrado uma alternativa, na sua habitual cassete: um tema suficientemente poderoso para captar as atenções gerais. Como a diatribe contra a imigração – lá está, por ser uma cassete – já não chegava, vem agora com a novidade do referendo. Nada de novo debaixo do sol.

E Pedro Nuno Santos? Bem, o líder do PS tem uma tese clara, embora cínica: “O PS perdeu as eleições, não contem com o PS para muleta do Governo. A direita conseguiu uma ampla maioria, a direita que se entenda.” E ele sabe bem que não é assim, a não ser que, na sua cabeça “binária”, esteja mesmo a ser sincero. Nesta possibilidade remota, para Pedro Nuno não existiriam nuances, políticas diferenciadas ou agendas políticas. Só direita e esquerda! Nunca várias esquerdas e, muito menos, várias direitas. Pedro Nuno não estudou a História ou faz de nós parvos? Nunca ouviu falar de Mário Soares ou está a brincar? Não sabe que uma certa esquerda teria acabado com o PS, se pudesse, nos primeiros anos da democracia (democracia que, decerto, morreria ali)? Ou desconhece que Sá Carneiro barrou a entrada na AD a grupos de extrema-direita que hoje estão no Chega?… Pedro Nuno não é um político impreparado, no que diz respeito à ação executiva. Mas se esta tese fosse mesmo sincera, seria impreparadíssimo do ponto de vista teórico. Desconfiamos, porém, de que tudo não passa de tática. Uns e outros o que querem é subir a parada, mas sem provocar eleições. O PS, porque não ganhará nada com isso. O Chega, porque se tiver o azar de ficar com 49 deputados, em vez de 50 – e, se for culpado por eleições, depois de deitar abaixo um governo de direita, arrisca-se a perder muito mais… –, terá uma derrota histórica. E a AD, porque mais vale um pássaro na mão do que uma maioria a voar.

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