De acordo com o comandante nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre, que falava aos jornalistas numa conferencia de imprensa na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), em Carnaxide, Oeiras, a velocidade e a intensidade de aumento de caudal do rio Tejo não acontecia desta forma desde 1997.

“Desde 1997, aproximadamente, que não tínhamos um episódio destes na Bacia do Tejo e no Rio Tejo. E, portanto, isto implica cuidados por parte da população ribeirinha que estão habituados a este fenómeno, mas desde 1997 que não temos um fenómeno potencialmente com esta dimensão”, alertou.

De acordo com o responsável, o fenómeno é explicado, por um lado, pelo facto de as barragens espanholas de Alcântara e Cedilho estarem “a debitar caudais muito elevados no rio Tejo”, cerca de 7 mil metros cúbicos por segundo, e, por outro, as ocorrências para as bacias em Portugal, que poderão explicar caudais “na ordem dos 9 mil metros cúbicos por segundo”.

“Aquilo que se recomenda a todos é, preventivamente, retirem as coisas das suas casas, coloquem-se em segurança, abandonem as casas, ou seja, vão para locais seguros sempre que possível. O comportamento seguro neste momento é crítico para que se possa passar por este episódio sem termos vítimas a lamentar”, disse o comandante nacional.

Mário Silvestre apontou que os efeitos expectáveis são inundações em zonas urbanas, cheias e deslizamentos de terras, além do piso escorregadio e formação de lençóis de água.

Com as inundações e os cursos de água há também objetos que são arrastados para as estradas, deixando, por isso, recomendações para os condutores.

“Se estiver a conduzir, não atravesse estradas inundadas. É crítico que não o façam. Pare em local seguro e elevado, longe das linhas de água, 30 centímetros de água para a maior parte dos veículos, é igual ao veículo ficar parado dentro de água por aspiração da mesma, e portanto isto coloca logo e de imediato as pessoas em risco”, alertou, acrescentando que se evitem tuneis, ribeiras e vales.

Recomendou igualmente que as pessoas se afastem de equipamentos elétricos e para que levem apenas o essencial no caso de terem de abandonar a habitação: “E quando falamos de essencial, falamos de coisas tão simples como pessoas que têm medicação associada à sua normalidade, que levem essa medicação com eles”.

Disse ainda que as crianças devem ser afastadas das linhas de água, recomendou que se protejam os animais, colocando-os em zonas seguras e que as pessoas não se aproximem de zonas de risco para fotografar ou filmar a subida da água, sobretudo nas zonas de largadas das barragens.

A missão abrangeu os rios Sado, Tejo e Mondego, bem como a faixa costeira nacional mais afetada, e contou com dois helicópteros AW119 Koala e de um avião P-3C CUP+, “meios que têm permitido a recolha de informação situacional relevante, nomeadamente no que respeita a danos em infraestruturas, identificação de cheias e deteção de zonas ou populações em risco, informação essa partilhada com as entidades competentes de forma a apoiar na tomada de decisão”, destaca a Força Aérea.

No âmbito da resposta a este evento meteorológico, a Força Aérea elevou o dispositivo de alerta para mais do dobro, assegurando aeronaves prontas a descolar para missões de reconhecimento visual, transporte aéreo, busca e salvamento, entre outras.


O ódio é um discurso fácil: não exige escuta, não pede paciência, não constrói pontes — apenas muros e inimigos. Mas quando a tempestade Kristin varreu o Pinhal de Leiria e deixou casas sem teto e almas sem chão, o País revelou a sua verdadeira geografia: não a dos mapas partidários, mas a dos corpos que se aproximam sem perguntar a cor do passaporte, a dos braços que se cruzam para erguer o que caiu. A unidade não é consenso — é a coragem de permanecer humano quando tudo desaba.

“Nem amar, nem odiar: eis a metade de toda a sabedoria. Não dizer nada e não crer em nada: eis a outra.” A frase, atribuída a Schopenhauer, paira como um enigma. E, no entanto, há nela um perigo subtil: a tentação da indiferença como refúgio. Schopenhauer, na verdade, jamais defendeu a anestesia moral. Ao contrário — na sua “Ética”, é a Mitleid, a compaixão, o único sentimento que nos redime da voragem da vontade cega. Não é na ausência de afeto que reside a sabedoria, mas na sua purificação: amar sem possessão, compreender sem julgamento, agir sem ódio.

É precisamente esse equívoco — transformar a serenidade em indiferença, a prudência em cinismo — que alimenta hoje os discursos da desunião. A extrema-direita não propõe ideias; oferece ressentimento embrulhado em bandeira. Não constrói projetos; erige muros de medo entre vizinhos, entre gerações, entre amigos e famílias, entre quem nasceu aqui e quem aqui chegou para ficar. O seu discurso não é de força, mas de fragilidade mascarada: a raiva como substituto da argumentação, o insulto como arma contra a complexidade do mundo, a segregação como resposta à incerteza.

No final de janeiro e início de fevereiro, quando a tempestade Kristin varreu o centro do País com ventos de furacão, Leiria e a Marinha Grande acordaram transformadas num cenário de guerra: árvores arrancadas pela raiz, telhados desfeitos, o Pinhal de Leiria novamente irreconhecível, habitações e indústrias destruídas.

Mas nas horas seguintes, algo de raro aconteceu: sem esperar por ordens, os vizinhos saíram às ruas com motosserras para desimpedir vias; jovens universitários organizaram recolhas de bens essenciais; empresários locais montaram piquetes não para proteger propriedade, mas para garantir que ninguém ficasse isolado; militares e mais de duzentas viaturas foram destacados para apoiar populações, lado a lado com voluntários anónimos. A CNIS apelou à “mobilização solidária” e o País respondeu — porque, nas tempestades, descobrimos que não há “nós” e “eles”, apenas corpos a partilhar o mesmo frio, as mesmas mãos a erguer o que caiu.

Rui Tavares Guedes escreveu no editorial da VISÃO (Edição 1718), com a clareza de quem conhece a História portuguesa nas suas cicatrizes e nas suas luzes: “Essa deve ser uma lição para a decisão eleitoral de domingo: o País é melhor quando está unido.” Não fala de unanimidade — essa ilusão totalitária. Fala da unidade como tecido vivo: diverso, por vezes discordante, mas entrelaçado pela consciência de que partilhamos o mesmo chão, o mesmo futuro, a mesma responsabilidade. Portugal soube-o em 1974, quando a revolução se fez sem guilhotinas; soube-o na Troika, quando a solidariedade familiar impediu o colapso social; sabe-o hoje, nas escolas onde crianças de vinte ou mais nacionalidades aprendem a soletrar “amanhã” na mesma língua.

A unidade não é passividade. É, antes, a coragem de escutar sem pré-julgamento — como ensinava Alain, filósofo que preferia perguntar a responder. É reconhecer que o outro não é uma ameaça, mas um espelho onde se reflete a nossa própria humanidade. O ódio, ao contrário, é sempre uma fuga: fuga da responsabilidade, fuga da complexidade, fuga do trabalho árduo de construir pontes em vez de muros.

Há uma beleza política que raramente se nomeia: a beleza da multidão unida sem ser uniforme. Não aquela que marcha ao som de um único tambor, mas a que avança em polifonia — operários e professores, jovens e idosos, crentes e ateus, filhos de imigrantes e netos de pescadores — todos tecendo, com gestos pequenos e decisões grandes, a teia social que nos sustenta. Essa teia não se rasga com gritos; rasga-se com silêncios cúmplices. E repara-se com palavras justas, com atos de justiça, com a coragem de escolher a esperança mesmo quando o medo bate à porta.

Dizia Espinosa que “um afeto só pode ser vencido por um afeto contrário mais forte”. O ódio não se combate com mais ódio. Combate-se com a teimosia da ternura coletiva — com a professora que permanece na escola pública, com o jovem que planta árvores sabendo que nunca se sentará à sua sombra, com o vizinho que partilha o pão sem perguntar a cor do passaporte.

Portugal é melhor quando está unido. Não porque todos pensem igual, mas porque todos se reconhecem como parte de um todo maior que si mesmos. A verdadeira sabedoria não está em não amar nem odiar. Está em amar com discernimento — e em recusar, com firmeza serena, quem transforma o ódio em programa.

Porque um povo dividido é fácil de dominar. Um povo unido — diverso, crítico, compassivo — é livre. E na liberdade, como bem soube Schopenhauer, apesar das más leituras, reside a única paz que vale a pena habitar.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Numa altura em que várias zonas de Portugal estão inundadas ou sob aviso elevado de inundações, a embaixada do Japão em Portugal oferece alguns conselhos práticos, fruto da experiência do país em desastres naturais. Um deles é inesperado: o calçado ideal nestas circunstâncias são ténis e não galochas: “Se a água entrar nas botas, estas tornam-se extremamente pesadas e dificultam a locomoção em caso de emergência”, lê-se na publicação, que acrescenta que os ténis garantem maior estabilidade e agilidade e devem ser usados bem ajustados ao pé.

E até quando é seguro andar dentro de água? “A regra de ouro é: evacue antes que a água chegue ao nível do joelho“. Quando a água atinge essa altura, a pressão da água torna quase impossível para um adulto caminhar contra a corrente, alerta a embaixada japonesa. Se esse limite for atingido dentro de casa, o conselho é que não se tente sair, mas antes procurar, nos casos em que isso é possível, o andar mais alto da casa; Se houver necessidade se atravessar uma zona inundada, a sugestão é usar um “terceiro pé” – um cabo de vassoura ou um guarda-chuva para sondar o chão à sua frente e assim evitar “armadilhas” potencialmente fatais, como tampas de esgoto abertas e invisíveis debaixo de água.

Também para quem está na estrada os japoneses têm um conselho, lembrando que apenas 30 cm de água em movimento podem arrastar a maioria dos automóveis: “Se encontrar uma estrada inundada, não arrisque: volte atrás.”

Portugal continental está a ser afetado pela depressão Leonardo, prevendo-se até sábado chuva persistente e por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Há uma semana o país foi atingido pela depressão Kristin, que atingiu sobretudo a região Centro e levou à morte de dez pessoas, à destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações.

Há ainda a registar centenas de feridos e desalojados.

Azona Centro do País, em especial o distrito de Leiria, e a própria bela e próspera cidade capital de distrito, é uma zona de guerra. O que a tempestade Kristin provocou foi um verdadeiro bombardeamento, que não poupou ruas, estradas, casas, escolas, prédios, fábricas e até uma base aérea (Monte Real), que ficou inoperacional. A devastação é total e o pinhal de Leiria parece ter sido varrido por uma motosserra gigante. Nos dias seguintes à catástrofe, era ver homens e mulheres, em cima de telhados, a tentar atamancar, portões e vedações destruídas, telhados e coberturas pelos ares, água, energia e telecomunicações cortadas por tempo indefinido, supermercados – os poucos abertos – em racionamento rigoroso, filas gigantescas para abastecimento de combustível. Idosos em aldeias isoladas sem ajuda, energia, telemóvel nem medicamentos, famílias sem abrigo, expostas à intempérie. Centenas de voluntários abriram pontos de abastecimento, bombeiros trabalharam dia e noite, sob a coordenação deficiente de uma proteção civil cujo comando, mais uma vez, deu sinal de ineficácia. De um momento para o outro, as telhas, as simples telhas de barro, passaram a ser um bem raro e procurado. Mais do que as telhas, alguém que soubesse montá-las. Em telhados escorregadios, pelo menos duas pessoas perderam a vida, depois de quedas de dez e mais metros, e centenas de outras, feridas, foram assistidas em hospitais. O eixo da cintura industrial de Leiria, Cruz da Légua, Porto de Mós, Martingança, é a capital nacional das cerâmicas, com dezenas de fábricas a produzir tijolos e todos os tipos de telhas. Dir-se-ia, portanto, que, a acontecer, a tempestade aconteceu no sítio certo. Puro engano: os cortes de energia e a destruição de instalações paralisaram as fábricas. De repente, nas redes sociais, multiplicaram-se as ofertas de particulares e de empresas, em todo o País, com milhares de telhas disponíveis para oferecer. Era preciso que alguém fosse buscá-las.

Este exemplo comezinho é o primeiro que ilustra a falta de competência e de imaginação do poder central. Alguém devia monitorizar, ao instante, todas estas ofertas e mobilizar os camiões do Exército para a recolha de telhas em todo o País. E o Estado, tão lesto a decretar estados de exceção desnecessários, durante a pandemia, não pensou que, agora sim, se justificava um estado de exceção que permitisse a requisição civil de todos os transportes de mercadorias disponíveis, além das empresas de construção civil, para esta missão urgente. Bem como a montagem, não de hospitais de campanha, mas de acampamentos para albergar e alimentar os operários mobilizados, ao abrigo desse estado de exceção, em todo o País, para a tarefa.

E esta foi a falha no socorro. A outra falha foi a da prevenção. O IPMA acertou em cheio na sua previsão. Naquela noite, viriam ventos com rajadas próximas dos 200 quilómetros por hora. Este aviso foi obviamente negligenciado pelas autoridades, a começar pelo Governo. Ventos destas dimensões provocam um desastre absoluto em edificações e vias de comunicação. É verdade que ninguém, a não ser as populações da área atingida, percebeu a dimensão da tragédia, logo à primeira. Não havia comunicações nem imagens. Só pouco a pouco o País se apercebeu de que o fenómeno não se reduziu, como é hábito, à mera queda de árvores. Mas o Governo tinha de estar lá… de véspera! A postos. Munido de um plano. Não esteve.

Estes dois momentos, o da prevenção e o do socorro, definem um padrão: um Estado lento, um Governo adormecido e confiante nos brandos elementos (além da alegada brandura dos costumes…) que abençoam este País. Muitas vezes, as previsões não se confirmam, em todo o seu pessimismo. As tempestades costumam abrandar antes de atingir terra firme. Talvez não fosse nada.

O terceiro momento é o das medidas. Na sequência do Conselho de Ministros de domingo passado, Luís Montenegro procura retomar a iniciativa. Entre as 15 medidas, há algumas verdadeiramente interessantes: um cheque de dois mil euros para reconstrução de habitação (normalmente, as coberturas) mediante o simples preenchimento de um formulário e o dinheiro na mão no espaço de uma semana. Pouco mais de mil euros de ajuda para cada agregado familiar que, temporariamente, tenha ficado sem emprego. Desburocratização da ajuda, mediante dispensa de licenciamentos vários para a construção, nas zonas atingidas. Moratórias fiscais e bancárias. Layoff simplificado, como na pandemia. Uma linha de crédito especial, que pode ir até um milhão de euros por empresa, para a recuperação da laboração.

O pacote é minucioso, mas está dependente da sua execução e da respetiva rapidez. A juzante, o ministro da Coesão anuncia a articulação com as seguradoras – em muitos casos dispensam-se as peritagens… – e com as principais empresas de construção civil do País. A ideia do candidato presidencial António José Seguro, que sugere um prolongamento dos prazos do PRR para libertar as construtoras adjudicadas a projetos contemplados no programa, pode ser aplicado de outra maneira, caso Bruxelas não prolongue esses prazos: os contratos de execução podem ser assinados, mas a respetiva execução, no terreno, pode ser adiada.

Sob crítica dos partidos da oposição e a fustigação constante de um líder partidário no terreno, André Ventura, o Governo de Luís Montenegro depende, agora, da sua própria eficácia. Na verdade, este é um teste que definirá o futuro político de um primeiro-ministro. As feridas abertas pela Kristin não passam, como as dos incêndios em zonas rurais, com a mudança dos ciclos e das estações do ano. A catástrofe atingiu zonas urbanas altamente densificadas. Isto é um desastre humanitário.

É por isso que, sejamos francos, o Governo pode ainda não ter percebido o que aconteceu no País. Estas 15 medidas são, apenas, um bom começo de conversa. Mas nada mais do que isso. Vamos precisar de muito mais dinheiro e, sobretudo, de materiais, pessoas e serviços onde o dinheiro possa ser gasto. Não chegámos ainda ao ponto da distribuição de cheques “por helicóptero”, mas podemos ter de lá chegar. A esta hora, Luís Montenegro já devia ter trazido a Leiria os comissários europeus que podem ajudar e tomar decisões. Devia estar entre São Bento e Bruxelas, todos os dias. Devia ter um “gabinete de guerra” 24 sobre 24 horas, a trabalhar num quartel-general montado, algures, no terreno. E devia atribuir a quem sabe a gigantesca operação logística necessária: sim, às Forças Armadas. No limite, se não sabem fazer, entreguem isto a um almirante Gouveia e Melo qualquer.

PS – A alma gémea de Ventura.

Na semana passada, titulei este espaço com a frase “José Sócrates, a alma gémea de André Ventura”. Recebi diversos feedbacks, de vários leitores, bastante perplexos, não com o conteúdo do texto, mas, mais precisamente, com o título que escolhi. Na verdade, a frase era hiperbólica, uma caricatura, e pretendia confrontar André Ventura com as suas contradições. De facto, é bastante curioso que um político que baseia boa parte da sua mensagem na denúncia da figura de José Sócrates tenha traços de carácter tão parecidos com os do ex-primeiro-ministro. O artigo debruçava-se, exclusivamente, sobre a forma epidérmica como um e outro lidam com os jornalistas e como interpretam o papel da comunicação social. O título podia ser, talvez mais rigorosamente, “Sócrates e Ventura, a mesma luta”. “Almas gémeas” talvez seja esticar demais. Por enquanto.

Palavras-chave:

1. Repete-se há anos: a um acontecimento meteorológico extremo seguem-se as habituais consequências de horror e devastação.

Os terríveis incêndios, as cheias que tudo levam, as chuvas que nunca se viram, as temperaturas infernais fazem agora parte da vida das nossas comunidades.

  Todos sabemos o que os provoca, ninguém ignora as suas consequências. Bom, não será bem assim. Não é preciso ir ao estrangeiro, nem escutar Trump, Bolsonaro e afins para ouvir discursos alucinados, feitos contra todo o conhecimento científico sobre o tema. Em Portugal, temos duas forças políticas que negam o aquecimento global e as alterações climáticas, o Chega e a IL. Aliás, o segundo e o terceiro classificados na corrida eleitoral tinham várias coisas que os uniam, uma delas o negacionismo climático.

Esta gente não só nega a ciência, como faz campanha ativa contra os grupos que denunciam o problema. Aliás, chamar problema às alterações climáticas é em si mesmo soçobrar ao discurso destes alucinados. O que está em causa é o maior desafio que uma comunidade pode enfrentar: a sua própria sobrevivência.

Há pouco tempo, o comentador televisivo Miguel Morgado comparou o ativismo climático às agressões que o ator Adérito Lopes sofreu às mãos de um grupo de neonazis.

Mas o ex-assessor do primeiro-ministro Passos Coelho está longe de estar sozinho. Os grupos de ativistas que tentam chamar a atenção para o evidente são tratados como autênticos terroristas. Os grupos de extrema-direita que fazem manifestações contra princípios básicos da democracia e da decência são infinitamente mais tolerados do que um bando de rapazes e raparigas que se prendem às grades dum ministério em protesto contra um qualquer atentado ao ambiente. Estes, aliás, têm direito a vários discursos indignados, até de pessoas que concordam com as coisas que eles defendem.

Um bom exemplo é a Greta Thunberg, que é uma espécie de saco de boxe da direita mundial e que aqui em Portugal tem uma enorme quantidade de gente que a execra, e não só os profissionais do ódio.

Um dos aspetos mais espantosos é ter-se trazido este tema para a batalha política (no pior sentido da palavra). Como em muitos outros temas, o que era o património de uma direita clássica, humanista, passou a ser visto como um perigoso discurso de esquerda. Sim, o discurso ecologista começou naquela área política, mas agora quem falar de alterações climáticas e dos seus riscos é imediatamente apelidado de esquerdista. Pior, é um assunto que separa as águas.

Agora que já gastei demasiada tinta com ruim assunto, tenho de lembrar o que já aqui escrevi aquando dos incêndios de Pedrógão e outros ou das inundações. São sempre as mesmas vítimas.

Gente que vive em áreas abandonadas do interior ou em zonas do litoral que, devido a pressão urbanística misturada com incompetência e alguma corrupção, parecem ter sido organizadas por um louco furioso. 

Portugueses e portuguesas que no fundo nos prestam o serviço de ocupar o território, fazendo sacrifícios e não tendo qualquer contrapartida. Homens e mulheres, na sua maioria velhos, abandonados pelos seus representantes que, em muitas situações, pouco ou nada têm a ver com a região pela qual são eleitos. 

Entretanto, nem estes factos que tenho por evidentes levam o poder a regionalizar o País. No fundo, a dar capacidade de decisão e poderes para que as pessoas que conhecem o território e os seus problemas tenham instrumentos e força política para os resolver. 

Já se sabe: basta chegar a um cargo ministerial ou mesmo a primeiro-ministro para um empedernido defensor da regionalização renegar essa convicção. E não, não é por, de repente, ter visto a luz ou se ter apercebido de que seria um erro, é tão-só porque perder poder é coisa que custa muito. Quando um político acha que o propósito da sua atividade é ter poder e não servir o bem comum, estamos todos tramados.

2. Estes fenómenos meteorológicos extremos repetem-se e a preparação para eles continua a ser a que existia antes de se tornarem comuns. Foram tomadas algumas medidas depois de Pedrógão, mas mesmo essas foram abandonadas: mudar tudo de cada vez que há um novo governo é, já aqui o repeti muitas vezes, um problema gravíssimo para o bom funcionamento do Estado e tende a agravar-se com a polarização política. 

E, claro, estamos a falar de preparação para acudir nas emergências provocadas pelas catástrofes que se repetirão e serão cada vez piores. As causas estruturais levarão gerações a solucionar e, infelizmente, não me parece que se resolverão a tempo.

Desta vez, a somar à limitada preparação para estes eventos juntou-se o assustador atraso do Governo em perceber o que estava a acontecer e a surpreendente incapacidade de entender os avisos das instituições que fazem as previsões meteorológicas.

Bastam as palavras do já muito saudoso Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa: “O Governo poderá não ter tido uma perceção exata da dimensão do impacto da tempestade.”

Naquela terça-feira, o primeiro-ministro, a sra. ministra da Administração Interna e restantes ministros receberam a mensagem da Proteção Civil e, imagino, os que têm fé rezaram. Nem uma comunicação ao País para avisar as zonas que seriam mais atingidas, nem gabinetes de coordenação, nem idas ao terreno (só muito depois), nem o Exército mobilizado para ajudar. Nada. São zonas fora de Lisboa e Porto, lá está. É longe, não se conhece a realidade, não se ouve quem é de lá, a capacidade de se fazerem ouvir é pouca.

Estou convicto de que foram os média que empurraram o Governo para o terreno, já tarde e a más horas.

Bom, mas houve algo que se tentou que funcionasse, aquilo em que este Governo realmente aposta: a propaganda. Ia escrever comunicação, mas fui a tempo de corrigir.

Não foram feitos planos de contingência, nem avisos à população, mas os fotógrafos, videógrafos, maquilhadores, assessores de imagem e restantes equipas de comunicação não perderam tempo.

O ministro Leitão Amaro conseguiu em tempo recorde (o que diz tudo sobre a enorme quantidade que tem de assessores de comunicação e imagem à sua disposição) fazer um filme digno de uma grande produção de Hollywood. Para não brincar com coisas sérias, num país sério e com governantes que respeitassem os seus concidadãos, Leitão Amaro não seria ministro nem mais um dia. 

Depois desse infame momento, foi um nunca acabar de vídeos do inefável Nuno Melo (este tem a vantagem do humor involuntário), de conversas embaraçantes da ministra Maria Lúcia – que tem tanto jeito para as funções que desempenha como terá para a construção de lagares de azeite – e de cenas confrangedoras dos outros ministros.

Este Governo encara a propaganda como a panaceia para todos os males. No fundo, é o pináculo daquela tese tantas vezes espraiada: quando alguma coisa não resulta, foi a comunicação que falhou. É como se houvesse uma magia que resolve os problemas se se fizer um bom vídeo, um bom discurso ou um bom tweet.

Claro que a política é o reino das palavras e, não há como o negar, da construção de perceções. Mas numa altura de crises deste género, onde há vidas e bens em risco, não há propaganda que resulte sem boas e atempadas decisões.

Pior, a comunicação teve o efeito contrário desta vez, deixou muito evidente a falta de preparação, a negligência e a doentia prioridade com a propaganda. Infelizmente, não é a primeira vez que o Governo parece ficar desorientado em situações de crise. Só isso explica a frase de Luís Montenegro sobre “aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

Palavras-chave:

“Quando é que podemos ir à sua ilha?” O email de Elon Musk para Jeffrey Epstein, em dezembro de 2013, está a ser ridicularizado nas redes sociais, pois dá sempre satisfação ver o homem mais rico do mundo a pedinchar um lugarzinho num restrito “clube” de milionários. Mas que lugar!

Nos três milhões de documentos do arquivo do predador sexual e pedófilo que foram libertados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos durante o fim de semana, não fica claro se Elon Musk chegou a ir ou não à ilha, ou se teria levado o seu jato particular ou apanhado boleia no “Lolita Express”, como era apelidado o avião particular de Epstein. O que fica bastante claro é que o dono da Tesla mentiu quando escreveu na rede social X, em setembro: “Epstein tentou convencer-me a ir à ilha dele e eu RECUSEI.”

Já ninguém quer ser amigo de um fantasma – o bilionário, que fez fortuna com fraudes e esquemas financeiros, enforcou-se na prisão em 2019. Mas eram muitos e influentes os seus amigos quando estava no auge. No auge do dinheiro e da pedofilia. Começando em Donald Trump e acabando em André Mountbatten-Windsor, ex-príncipe e irmão do rei de Inglaterra, os nomes dos famosos desfilam por aqueles três milhões de páginas infames, carregadas de pornografia, sexual e política.

São os senhores do mundo, de tal maneira autointitulados que julgam poder fazer tudo e sair impunes. Talvez a frase que melhor os defina tenha sido a que Donald Trump disse recentemente, a propósito da invasão da Venezuela e dos problemas que isso coloca ao direito internacional. “Eu não preciso da lei internacional. A única coisa que pode parar-me é a minha moralidade.”

E assim vai o mundo, em que cada um define o que é ou não moral e se comporta segundo a sua consciência (ou falta dela). Claro que uns podem fazê-lo, outros nem por isso. A linha que os separa é traçada pelo dinheiro.

O ex-duque de York, de gatas, debruçado por cima de uma mulher jovem (quão jovem não é possível perceber), é uma das imagens mais infames do arquivo Epstein agora divulgado. Junto com emails em que aparece muito excitado com a perspetiva de ir conhecer uma “jovem russa” que o predador queria apresentar-lhe.

Donald Trump, citado em 5 300 arquivos, diz que os documentos agora divulgados o absolvem. É um facto que nenhuma das alegações que aparecem no arquivo tenha sido comprovada, incluindo as alegações de uma mulher que o acusa de a ter violado quando ela tinha 13 anos (ela depois retiraria a queixa, mesmo antes das eleições de 2016).

A amizade entre Epstein e Trump durou décadas, mas o Presidente dos EUA jura que nunca percebeu nenhum indício de violações ou abusos sexuais do bilionário. Nenhum dos seus antigos amigos viu nada. A lista inclui nomes como Richard Branson (fundador da Virgin), Bill Gates (que, segundo o arquivo do predador, se viu em apuros para esconder da sua então mulher, Melinda, uma infeção sexualmente transmissível após ter tido relações sexuais com “miúdas russas”), Bill Clinton, Casey Wasserman (presidente do comité organizador dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028), Ehud Barak (antigo primeiro-ministro de Israel), Steve Bannon (antigo conselheiro de Trump e guru da extrema-direita), e por aí fora… Tudo ricos rapazes.

Palavras-chave:

“Dia 6. Estamos vivos, hoje é dia de seguir a única recomendação oficial que recebi e fingir que está tudo normal. Já temos um pouco de comunicações dentro de casa. Sentir o que se falou e fez nos últimos dias é um choque. Plano: tentar perceber como posso ajudar alguém. Tenho medo de ver como está tudo lá fora agora, quando sair à rua.”

São 8h da manhã de segunda-feira, segundo dia de fevereiro e sexto dia desde o momento em que Kristin entrou, com violência, na costa da região de Leiria. A noite foi de chuva intensa e de vento forte até em Lisboa. Acordo na segurança do meu apartamento no centro da capital com esta mensagem por WhatsApp enviada por Lamara, “mãe, cidadã”, 37 anos, casada e com dois filhos pequenos, que há quatro meses se mudou para Areias, uma pequena aldeia do concelho de Ferreira do Zêzere, próxima de Alvaiázere. 

Em Alcácer do Sal, os bombeiros tiveram de resgatar populares após a passagem da Kristin. Em Leiria, um carro ficou destruído com a queda de uma grua.A grande procura de telhas levou a Câmara da Marinha Grande (na foto) e mais entidades a fornecê-las gratuitamente, assim como outros materiais de construção, para as pessoas poderem isolar as suas casas

Trocamos os bons-dias e desejos de boa sorte, ela a ganhar forças para a hipótese de dar de caras com mais estragos na vizinhança, eu a ver se tenho unhas para contar o que andei a ouvir. Os seus filhos, de 6 e 12 anos, deverão ficar em casa com o pai, porque o restaurante onde ele trabalha ainda não abriu. Já foi assim depois do almoço de sábado, o dia 4, quando Lamara conseguiu finalmente ter rede para responder às minhas mensagens.

Nessa tarde, o seu telemóvel deu sinal de vida mal parou o carro na berma da estrada da encosta atrás de casa, na ideia de apanhar calêndulas para fazer uma infusão. As flores de um amarelo-alaranjado são conhecidas pelas suas propriedades calmantes e ela tinha prometido visitar uma vizinha com mais de 80 anos que andava muito aflita.

Temos estado sozinhos. No terreno, sobretudo nas aldeias, não se vê quase ninguém a ajudar, a não ser os vizinhos

Marlene Matias, assistente social

“Agora temos medo dos barulhos, de árvores, de postes, da noite… Há medo, há trauma, estamos em choque. Quanto tempo vai demorar até isto ser menos duro?”, havia de escrever-me Lamara já na noite de domingo.

Era quase meia-noite, aconselhei-a a descansar, que mais poderia eu responder a 150 quilómetros de distância? Prometera-lhe sublinhar na VISÃO que o concelho de Ferreira do Zêzere precisa de ajuda urgentemente e que daqui a vários dias ainda haverá com certeza muita gente com a chuva a entrar em casa. 

“Todos os telhados têm pelo menos um buraco com um metro quadrado, são dez telhas a menos que as pessoas tentam tapar com plásticos das muitas estufas que existem aqui e que voaram naquela noite”, ouvi-lhe, “mas nem se sabe bem as necessidades porque ainda não foi feito o levantamento completo”.

UM KIT DE GUERRA

No sábado, Lamara tinha ligado um radiozinho a pilhas, mas só de lá vinha música, anúncios. Na estrada, antes de me telefonar, cruzara-se com dois carros do Exército, céleres, “a caminho sabe-se lá donde”.

Na quinta-feira, no dia 2, a família rumara a um banco em Tomar, para levantar dinheiro vivo, e logo a seguir a uma bomba com gasóleo, onde os quatro acabaram numa fila com mais de 200 pessoas. “Parecíamos uns zombies, andávamos como os refugiados, à procura de soluções momento a momento”, comparou.

Ao dia 6, quase uma semana depois de acordar de madrugada com um barulho tão terrível que só pensou em ir buscar os filhos para o quarto do casal, confessa que a sensação de abandono a enfurece. “Este Governo abandonou-nos. Estivemos muito tempo sozinhos. As minhas emoções estão tão furiosas quanto o furacão foi”, escreve numa das muitas mensagens, “e ajuda-me poder contar a alguém o que se está a passar aqui connosco, obrigada”.

Fausto Andrade, um jovem publicitário de São João da Madeira, decidiu ir até à Marinha Grande ajudar a população a consertar as suas casas. Chegou no sábado, 31, com uma trotinete para se deslocar, pronto a arranjar telhados a menos de metade do preço habitual. Tem experiência na construção civil e, logo no primeiro dia, tratou de dois telhados em Embra

O meu nó na garganta aumenta. Quem está longe também desespera por não saber, por não conseguir ajudar.

E a lonjura até pode não ser muita, no caso uma hora e picos de caminho tantas vezes feito por Luís Gaspar, chefe de cozinha do restaurante Sala de Corte, em Lisboa, que passou o dia seguinte à passagem da Kristin a tentar perceber se fazia sentido arrancar em direção a Ponte da Pedra, a aldeia onde moram os seus pais, a menos de 5 km de Leiria.

As notícias que lhe chegavam davam como certo que as estradas ainda não estavam circuláveis, mas às 6h da manhã de quinta-feira não esperou mais.

Tem havido muitas quedas de telhado, com fraturas de membros, e de idosos que caem com fraturas de colo do fémur

António Lacerda Sales, médico ortopedista

A 50 km das Caldas da Rainha, percebeu que o telemóvel deixara de funcionar. Quando chegou à aldeia, viu como junto ao rio Liz já não se notava a margem, estava tudo inundado. Em casa, os pais, assustados, contaram-lhe como tinham sido acordados pelo portão a ser arrancado pela força do vento, as telhas a voar por todo o lado e os carros esmagados por vigas de cimento.

“O congelador deles ainda mantinha alguma temperatura baixa, mas combinámos que viriam para Lisboa se a eletricidade não aparecesse rapidamente”, conta Luís Gaspar. “Levei-lhes arroz, massa, enlatados, tudo produtos não perecíveis. Um kit de guerra.”

VINHA ALI ALGUMA AJUDA?

A analogia é perfeita quando se lê os especialistas em meteorologia explicar que a depressão a que deram o nome de Kristin foi um “ciclone-bomba”.

Escreveu o IPMA, num comunicado de imprensa: “Um núcleo depressionário que se formou e desenvolveu no bordo sul da tempestade Joseph sofreu um processo de ciclogénese explosiva [ou ciclone-bomba] a oeste da costa ocidental portuguesa (com rápida e significativa diminuição de pressão atmosférica no seu centro), no período compreendido entre as 21h de dia 27 e as 3h de dia 28 de janeiro.” Foi a esse núcleo que chamaram Kristin.

Neste momento, na zona Centro é mais fácil comprar leite de gambozino do que telhas

‘Vasco da Gamba’, de Ourém

Explicações científicas à parte, na região por onde ela passou a 200 km/h (literalmente, houve aliás registo de pelo menos uma rajada a mais de 200 km/h) fala-se em tempestade, furacão e também em calamidade, desgraça, tragédia. Mas a palavra “depressão” até será a mais adequada, tanta a tristeza das pessoas.

No sábado, dia em que Diogo Cruz, funcionário da Câmara Municipal de Leiria na área do Turismo, conseguiu ir à praia do Pedrógão, a única do município, ver o pouco que sobrara do parque de campismo e acompanhar as pessoas que lá foram tentar aproveitar algum pertence, regressou à cidade pelo meio das aldeias e sentiu nos olhos dos habitantes algo que nunca vira antes.

“Era um misto de desespero com desalento e a esperança de que ali vinha finalmente alguma ajuda”, conta, “porque eu ia num carro oficial, mas não podia parar porque o carro era elétrico e tinha pouca autonomia”.

No domingo à noite, a praia do Pedrógão continuava sem energia e com a água e as telecomunicações muito limitadas, soubemos através de um dos seus habitantes, Edgar Vieira Novo.

Todos os telhados têm pelo menos um buraco com um metro quadrado

Lamara, Ferreira do Zêzere

Ao quinto dia, fizera-se muito trabalho de limpeza e recolha de entulho das ruas da praia, com recurso aos meios escassos da junta de freguesia (uma carrinha velha, um trator e um pequeno camião) e alguns voluntários. “E, a meio de manhã, chegou um porta-máquinas e uma retroescavadora de uma empresa das Caldas, com uma equipa de meia dúzia de pessoas que deram uma grande ajuda.”

Mas o desalento das gentes da praia já era gigante, confessava Edgar. “Estamos muito cansados, com uma sensação de abandono grande e já sem paciência. Tenho presenciado cada vez mais insatisfação e discussões entre as pessoas.”

Logo ao primeiro dia, ao pé de casa de Ricardo Sebastião, em Maceira, uma vila a dez minutos de carro de Leiria, houve pancadaria por causa das telhas. Nas lojas de materiais de construção da zona do País onde historicamente se fabricam mais telhas, há agora uma grande falta delas, tanto que as informações atualizadas dos locais onde podem ser compradas ou levantadas de graça são preciosas e das mais partilhadas nas redes sociais.

“NÃO QUEREM SABER DE NÓS”

“Neste momento, na zona Centro é mais fácil comprar leite de gambozino do que telhas”, tweetava com graça Vasco da Gamba (não é gralha, é piada), que mora em Ourém e na quinta-feira, dia 2, contava: “Não tenho telhado na garagem, o telhado da casa está danificado, não tenho água, não tenho luz, não tenho rede, a comida do frigorífico já está a apodrecer. Ligo o rádio do carro e todas as estações parecem a ‘Lisboa FM’. Não querem saber de nós.”

Por essa altura, os roubos já eram uma dor de cabeça na região. E os cabos de cobre continuam muito cobiçados, lamenta Diogo Cruz, embora prefira chamar a atenção para a solidariedade: “Ver como o nosso país se uniu todo para nos ajudar traz-me lágrimas aos olhos.”

A falta de comunicações e de acessos poderá explicar em parte a inércia das autoridades, concede o funcionário municipal. Ele próprio só na manhã de sexta-feira conseguiu chegar a Colmeias, a aldeia onde mora o pai, com 75 anos.

Levei-lhes arroz, massa, enlatados, tudo produtos não perecíveis. Um kitde guerra

Luís Gaspar, chefe de cozinha

Leiria tem uma miríade de aldeias rodeadas por matos, pinhais e eucaliptais, e caíram muitas árvores para as estradas. A Colmeias valeu-lhe, ainda assim, a vizinhança de uma empresa de extração de areias e os seus camiões, monstros, que esmagaram o arvoredo com os rodados.

Foram dois dias de aflição para Diogo, mas também de esperança, porque o senhor seu pai é um homem resiliente que fez a Guerra Colonial e tem uma grande destreza física. “Ele já apanhou com o Leslie [em 2018] e no grande temporal de janeiro de 2013 esteve dez dias sem eletricidade, mas quando lá cheguei parecia um pinto, estava molhado e com frio porque tinha estado a arranjar o telhado e não há aquecimento”, conta. “A sorte dele é que havia por lá umas lanternas e lume para fazer a comida.”

A experiência ajuda muito, sabe Marlene Matias, 51 anos, os últimos 28 a trabalhar como assistente social, agora na área da Saúde, nos comportamentos aditivos, em Pombal.

Há quase oito anos, não levou a sério os avisos e correu um grande risco ao pôr-se a caminho de Soure, para ir buscar o filho mais novo, então adolescente. “Fui no pico do Leslie, uma inconsciência, porque alerta vermelho é para ficarmos em casa”, reconhece, “mas parece-me que ainda há um papel a fazer em termos de prevenção”.

Desta vez, Marlene acompanhou a meteorologia pelas redes sociais da Meteo Trás os Montes, que estavam sempre a atualizar a informação ao segundo, e só se arrepende de não ter juntado todos os “mais velhos” numa só casa – a sua, em Almagreira, onde tem fogão a gás.

A AJUDA EM REDE

No terreno, a assistente social acredita sobretudo na solidariedade entre as pessoas. Essa é a grande ilação que tira dos últimos dias. A Kristin afetou diretamente apenas dois distritos e, ainda assim, não viu uma resposta célere por parte do governo central. “E mesmo do local… É muita gente e ninguém estava preparado”, vai dizendo. “Nem sei como é que os nossos utentes conseguiram aparecer na sexta-feira, para ir buscar a metadona…”

Em Pombal, o levantamento das pessoas isoladas só se fez no domingo, 1 de fevereiro, ao quinto dia. Antes disso, Marlene recebeu o contacto de uma emigrante em França, aflita porque a mãe, já com uma certa idade, não estava a ser capaz de comprar um medicamento que esgotara nas imediações da sua casa. Valeu-lhe o Facebook, onde uma senhora se ofereceu para ir entregar-lhe uma embalagem.

“Vivemos da solidariedade uns dos outros”, repete. “As medidas anunciadas no Conselho de Ministros extraordinário são boas, mas vêm tarde. Temos estado sozinhos. Nem os militares chegaram em quantidade. No terreno, sobretudo nas aldeias, não se vê quase ninguém a ajudar, a não ser os vizinhos. Na Covid-19, havia um comando e um plano de contingência. Agora, as pessoas estão traumatizadas e com um grau de ansiedade muito alto. Só consegui chegar a casa dos meus pais no dia seguinte e a minha mãe estava com um ataque de pânico tal que achava que ia morrer naquele momento.”

O médico ortopedista António Lacerda Sales, que muitos conhecem por ter sido secretário de Estado da Saúde durante a pandemia, faz uma analogia com o que aconteceu nessa altura, mas comparando sobretudo a questão psicológica: “A pandemia foi muito prolongada, mas o brusco e o abrupto juntos criam um pânico muito alto, e por isso [o que aconteceu agora] acaba por ter uma dimensão mais assustadora.”

BARULHO DE TERRAMOTO

Na madrugada das madrugadas, a sua mulher levantou-se assustada e ele conseguiu acalmá-la repetindo-lhe a palavra proibida (“Calma, calma…”), embora tivesse imediatamente recuado aos seus 7 anos e à noite do terramoto de 28 de fevereiro de 1969. “O barulho pareceu-me idêntico”, conta, “mas agora o nosso prédio vacilou de um lado para o outro, como se fosse um barco”.

Há quase 57 anos, António Lacerda Sales morava com a família no Bombarral. “Tanto tempo depois, pus-me a relembrar como nessa noite o meu pai pegou num candeeiro a petróleo e perdeu os sentidos, provavelmente com um episódio vagal.”

Durante a passagem da Kristin, o médico manteve o sangue-frio e ainda foi espreitar por uma janela, para tentar perceber o que se passava lá fora. Só via coisas pelo ar, pareceram-lhe panos, mas na manhã seguinte verificou que eram chapas metálicas.

Danos causados ​​em postes de alta tensão das Redes Energéticas Nacionais, na Marinha Grande. Militares a arranjar telhados na Base Aérea n.º 5, em Monte Real. Dezenas de voluntários limparam as ruas da Nazaré, ao lado dos funcionários municipais. A Barragem da Bouçã, em Pedrógão Grande, teve de fazer descargas controladas para o rio Zêzere

A morar também no centro de Leiria, por coincidência muito perto de Lacerda Sales, desde que há cinco anos trocou um apartamento minúsculo em Alfama pelo primeiro andar de uma vivenda, Ana Amaral também foi à janela, mas ficou mais impressionada com as árvores que conseguiu ver todas dobradas. “Era dantesco”, resume a ex-lisboeta, a trabalhar numa seguradora, que de manhã foi dar uma volta pela cidade, à procura de sinal de rede telefónica, e se deparou com “um cenário de guerra”.

O seu vizinho médico levantou-se mal o dia raiou e saiu à rua, onde viu postes vergados, árvores pela raiz e o seu carro com os vidros partidos, igualzinho a todos os outros estacionados ao pé de casa. Foi com o carro nesse estado que tentou fazer o caminho do costume até ao hospital, quatro minutos que as arrecuas, os desvios e os atalhos lhe gastaram quase duas horas. Tinha cirurgias programadas, não fazia ideia como iriam gerir-se a consulta e o bloco. Vários colegas de Coimbra demoraram cinco horas e meia para fazer 60 quilómetros.

No Hospital de Santo André, em Leiria, o clima foi sempre de grande organização e de entreajuda, sublinha, “com muita gente a trabalhar fora do horário”. Só assim tem sido possível abrir mais salas para operar traumatologias.

ENTRE MORTOS E FERIDOS

“A lista de observação de Ortopedia nunca teve menos de 30 a 40 pessoas, rotativamente, e estivemos quase ininterruptamente a operar traumatologia”, conta, “porque tem havido muitas quedas de telhado, com fraturas de membros, e de idosos que se levantam durante a noite sem energia elétrica e caem com fraturas de colo do fémur”. Mas não se queixa. “O sítio melhor para estar é no bloco operatório, onde não se ouve nada, não se sente nada.”

Até ao final de segunda-feira, 2, a passagem da Kristin já provocara nove mortes e mais de 400 feridos. Algumas das pessoas foram vítimas de queda de árvores (em plena tempestade, um padeiro foi atingido dentro do carro), colapsos de estruturas e intoxicação com monóxido de carbono por causa de geradores (15!). A maioria sofreu acidentes durante reparações de telhados.

Há dois anos a morar na Marinha Grande, Carlos foi um dos que se aventuraram a arranjar umas telhas na sua vivenda e acabou a “abrir” a cabeça quando levantou uma e apanhou com outra. O INEM deslocou-se a sua casa e fez-lhe o tratamento logo ali, uma sorte.

O quarto onde já estava a chover está agora a salvo, mas Carlos não ganhou para o susto, garante a mulher, Raquel. “O mais complicado está a ser a falta de informação”, dizia ela na sexta-feira, 30, incansável a guiar até perto do Estádio de Leiria, à coca de rede telefónica ou internet. “E também não é fácil estarmos enfiados em casa, nós os dois e a nossa filha de 14 anos, sem eles [sic] dizerem o que se passa. Mas temos muita sorte: ninguém dos nossos morreu. E fartamo-nos de fazer caminhadas, embora seja uma tristeza ver como ficou o pinhal.”

O DIA EM QUE A PAISAGEM CAIU

Foi “o dia em que a paisagem caiu”, escreveu Samuel Fialho, programador informático e ex-deputado municipal na Nazaré, no seu blogue Vejam Bem. Um título a mostrar bem a dor que sentiu ao abrir a porta de casa na manhã seguinte à passagem da Kristin, percebendo que o pinhal mesmo em frente tinha sido arrasado.

“Onde antes víamos apenas a linha do horizonte do mar, vemos agora a praia do norte toda, até à rebentação. Para perceberem como o pinhal, que era lindo, está arrasado. Os pinheiros foram rasgados ao meio, parece uma paliçada”, conta.

“Pinheiros partidos ao meio, outros que simplesmente desapareceram. Árvores tombadas por todo o lado”, descreve Samuel no seu texto, e, pouco depois, na viagem até Leiria, a acompanhar uma amiga que não queria perder uma consulta no hospital (entretanto cancelada, claro), “o monte Branco nu, despido de árvores; o monte de São Brás sem a torre de vigia (embora a cruz tenha sobrevivido); e uma parte substancial daquela mancha verde de pinhal reduzida a nada”.

Era um misto de desespero com desalento e a esperança de que ali vinha finalmente alguma ajuda

Diogo Cruz, funcionário municipal

Ao passar pela saída da zona industrial da Marinha Grande, Samuel percebeu que a cidade devia estar caótica. Mas foi ao entrar em Leiria que sentiu estar a viver um pesadelo. “O shopping parecia uma zona de guerra”, recorda, “e, ao aproximarmo-nos do Hospital de S. Francisco, que é perto do estádio, era como se estivéssemos na Ucrânia, só que sem estar chamuscado.”

Nas ruas, percorridas em ziguezagues, havia gente de pijama, gente com ar perdido, gente à procura não se sabe bem de quê. Mas também gente a ajudar: “Ver saltar uma pessoa com uma motosserra e começar a cortar uma árvore, assim, do nada, no meio da rua… E outra a organizar o trânsito… Ainda fico emocionado ao lembrar-me.”

Porque no meio de toda a confusão que foram as primeiras horas, havia zero polícias nas ruas de Leiria. Um cenário que se prolongou durante demasiado tempo, fora da cidade. “O País acordou muito tarde. Temos sempre esperança de que alguém venha acudir-nos, mas ficámos aqui ao abandono”, lamenta Samuel Fialho. Afinal, estão a apenas 150 km de Lisboa, não estão em Trás-os-Montes.

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O primeiro esquiador olímpico português era Espírito Santo apenas de apelido. Fosse ele membro da Santíssima Trindade e eterno como Deus Pai e com certeza estaria agora de olho nos treinos de Emeric Guerillot, o filho mais novo de um campeão de esqui francês e de uma portuguesa nascida em Grenoble que se prepara para representar Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026.

Mesmo não sendo crente, é irresistível pensar que Duarte “Dudu” Espírito Santo, desaparecido há dez anos, iria gostar de assistir lá do alto da sua nuvem às três provas de esqui alpino com que o jovem luso-francês se estreia nuns J. O. E, desde logo, aplaudindo a sua sensatez.

Emeric fez 18 anos em novembro, mas já tem a cabecinha bem arrumada relativamente ao tema segurança. Dentro de dias, ao arrancar para a prova de super-G, uma disciplina do esqui alpino que combina a rapidez do downhill (à letra, descer a montanha) com as curvas mais precisas do slalom gigante, não se queixará, por isso, de que o airbag lhe limita os movimentos. Sabe de cor que essa espécie de colete de uso obrigatório nas provas de velocidade é capaz de detetar uma eventual queda, insuflando-se antes de o esquiador atingir o solo.

Além de aceitar de bom grado esse airbag inteligente, Emeric recusou – sensatamente, lá está – participar na prova de downhill para a qual também se tinha qualificado. “E não foi por medo”, garante Alice de Oliveira, a sua “muito orgulhosa” mãe (filha de imigrantes de uma aldeia próxima de Guimarães), “mas porque a pista é realmente perigosa”.

MERGULHAR ‘NO VAZIO’

E é. A Stelvio, a pista da estação de esqui do Bormio, no coração dos Alpes italianos, que receberá as provas masculinas de esqui alpino, tem mais de três mil metros de comprimento na sua totalidade, um desnível vertical de 1 023 metros e muitas sombras. Ao contrário da maioria dos traçados de downhill, não oferece nenhum local para descansar, nem por uns segundos.

“Desde o início, a pista desce num ângulo de 63 graus e, neste ângulo, os concorrentes vão de zero a 60 km/h mais depressa do que um carro de Fórmula 1”, analisou recentemente a revista SKI Mag. “Depois, no salto de San Pietro, ela desce num ângulo de 50 graus, que é como aterrar na zona de escape de um salto de esqui (uma inclinação suavizada na TV). Os concorrentes mergulham ‘no vazio’, a mais de 130 quilómetros por hora.”

O traçado do super-G inicia-se a uma altitude mais baixa na pista, reduzindo o desnível vertical para cerca de 640 metros, mas partilhando com o downhill algumas secções de alta velocidade, como o salto de San Pietro. As quedas são também uma constante.

O esquiador norte-americano Bryce Bennett já se confessou “traumatizado” por ter descido a Stelvio, enquanto o veterano italiano Christof Innerhofer, de 41 anos, que vai entrar nos seus quintos J. O. e compete nessa pista há quase duas décadas, não se recorda de nenhuma outra mais complicada.

“Nos últimos 12 ou 16 anos, tivemos pistas realmente difíceis, como em Sochi [J. O. na Rússia, em 2014], mas esta será a mais difícil dos últimos 30 anos”, disse Innerhofer à AP, após uma atribulada prova de super-G, no final de dezembro 2024, em que três esquiadores foram evacuados de helicóptero, incluindo o campeão francês Cyprien Sarrazin, que teve de ser operado para drenar uma hemorragia cerebral (e que por isso falhará estes Jogos).

“ESQUIAR RÁPIDO E DESFRUTAR”

Como no anúncio, Emeric tem cara de puto, mas já é muito rodado. Tinha 14 meses quando os pais lhe puseram os primeiros esquis nos pés e rapidamente estava a entrar em provas e a subir aos pódios. Recentemente, competiu no Festival Olímpico da Juventude Europeia de Inverno em Bakuriani e nos Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude Gangwon 2024.

No dia 11 de fevereiro, será ele a quebrar o jejum de mais de 30 anos de Portugal no super-G (a última participação portuguesa foi em Lillehammer 1994), onde espera “fazer um bom resultado”. Se tudo correr como previsto, ainda competirá no slalom gigante no dia 14 e, dois dias depois, no slalom, sempre em Bormio, a cinco horas de carro do Tofane Alpine Skiing Centre, na zona de Cortina d’Ampezzo, a estância de esqui onde se realizarão as provas femininas de esqui alpino.

É lá que estará a sua irmã, Vanina Guerillot, de 23 anos, a primeira atleta portuguesa a repetir a participação nos J. O. de Inverno, após um 43º lugar no slalom gigante em Pequim 2022.

Enquanto Emeric aposta sobretudo na velocidade – que diz adorar “por causa da adrenalina” –, Vanina voltará a disputar o slalom gigante, no dia 15, e o slalom, no dia 18. Há quatro anos, a jovem esquiadora falhou uma porta no início da segunda manga do slalom, uma frustração porque contava ficar no top 30. Agora, tem como objetivos declarados “esquiar rápido e desfrutar” de ambas as provas.

Nas pistas desde os 5 anos, Vanina tem sido sempre treinada pelo pai, Yannick Guerillot, que chegou a representar França na Taça da Europa e detetou cedo o seu talento para o esqui alpino. Foi por isso, aliás, que a certa altura a família se mudou para perto da estância de Courchevel, nos Alpes, onde ela é hoje instrutora. “Termos os nossos dois filhos a competir é um projeto familiar”, sublinha Alice, “e na zona onde moramos eles têm o esqui no inverno e a montanha no verão”.

“ISTO É SÓ O INÍCIO”

Yannick também é instrutor de escalada, desporto que Vanina acredita trazer precisão, concentração e controlo, enquanto o esqui alpino fortalece o seu empenho, a sua velocidade e a sua capacidade física. “Juntos, permitem-me manter um elevado nível de desempenho e ultrapassar os meus limites”, partilhou ela recentemente no Instagram.

Essa podia ser uma frase ouvida ao atleta eborense José Cabeça, que se tornou o melhor esquiador de fundo de Portugal apenas dois anos, um mês e uns dias depois de ter esquiado na neve pela primeira vez. “Agora, sou atleta olímpico e isto é só o início”, avisava ele, pouco depois de alcançar o 88º lugar entre 99 concorrentes, em Pequim 2022.

José tinha 7 anos quando começou a pensar que queria ser atleta olímpico. Começou por praticar futebol, karaté e natação, antes de apostar no triatlo. Até que, em fevereiro de 2018, estava em casa a ver na televisão provas dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul e teve uma epifania: o esqui de fundo é um desporto de resistência como o triatlo. E se…?

Em 2019, experimentou fazer esqui com rodas (variante de verão da modalidade) pelas estradas e pelos caminhos de Évora e nunca mais parou. Entrou na sua primeira prova na neve no ano seguinte, qualificou-se para o Campeonato do Mundo de esqui nórdico na Alemanha e conseguiu uma pontuação que lhe abriu uma vaga para representar Portugal em Pequim 2022. Dois meses antes, começou a ser treinado pelo norueguês Ragnar Bragvin Andresen, que ainda hoje é o seu treinador.

“Desde então, melhorei tanto que é uma loucura”, espanta-se o próprio, aos 29 anos, apressando-se a agradecer ao seu patrocinador principal, o empresário que o levou a mudar-se para o Dubai, com um contrato de personal trainer, e que o incentivou a passar os últimos dois anos em Oslo, na Noruega, a preparar-se para os seus segundos J. O.

Em Itália, José Cabeça será o primeiro português a competir, no dia 10 de fevereiro, no sprint individual, num percurso de 1 585 metros, no Estádio de Esqui de Fundo Tesero, em Val di Fiemme. Três dias depois, esquiará os 10 km livres, no mesmo local.

Pode ser que “Dudu” Espírito Santo já esteja então a postos na sua nuvem, pronto a acompanhar os portugueses nas pistas e especialmente atento às prestações de Emeric Guerillot. Quando o jovem fizer a prova de slalom, fará 74 anos que o nosso pioneiro deslizou velozmente em Norefjell, na Noruega, terminando na 69ª posição, à frente de um argentino, um australiano, um grego e de nove outros atletas que foram eliminados. Aconteceu a 16 de fevereiro de 1952 e foi um feito que lhe conferiu a eternidade.

De acordo com uma resolução de Conselho de Ministros publicada em Diário da República, “até ao montante de 5.000 euros, a estimativa do custo elegível pode ter por base fotografias apresentadas pelo requerente, dispensando vistoria ao local”.

Assim, são elegíveis, relativamente à habitação própria permanente, despesas incorridas para custear “obras e intervenções necessárias à reparação, reabilitação ou reconstrução de habitação própria e permanente danificada pela tempestade ‘Kristin’, integrada em edifício situado em concelho abrangido e efetivamente utilizado como residência habitual do agregado”, bem como despesas de realojamento temporário, devidamente justificadas pela impossibilidade de utilização da habitação afetada.

Para isso, lê-se no diploma, o “custo elegível é determinado com base em estimativa elaborada sob responsabilidade da Câmara Municipal e validada pela CCDR [Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional] territorialmente competente, podendo ser utilizados referenciais de custos unitários por tipologia de obra”.

Segundo o Governo, a comparticipação pública para cada operação é de “100% da despesa elegível remanescente após dedução de indemnizações de seguro e outros apoios, com o limite global de 10.000 euros, por fogo habitacional”.

São ainda disponibilizadas, pelo Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas (IFRRU), “linhas de crédito para custos não cobertos pela subvenção pública em obras e intervenções necessárias à reparação, reabilitação ou reconstrução de habitação própria e permanente danificada pela tempestade”.

O diploma estabelece ainda que “as despesas de realojamento temporário podem ser apoiadas até um limite mensal e por período máximo a fixar em despacho conjunto dos membros do Governo responsáveis pelas áreas das finanças, da coesão territorial, da habitação e da segurança social”.

Ainda assim, ficou determinado que “a aplicação dos apoios é sujeita a ações de controlo e auditoria pelas entidades de inspeção e de controlo financeiro competentes”, apontando que “a prestação de falsas declarações, a utilização de fundos para fins diversos dos aprovados ou o incumprimento grave das obrigações assumidas” leva à revogação do apoio e restituição das quantias recebidas, com os juros legais, “sem prejuízo de responsabilidade contraordenacional ou penal legalmente adveniente”.

O diploma veio ainda especificar outras medidas, já aplicadas pelo Governo, como o reforço das verbas da Infraestruturas de Portugal em 400 milhões de euros e a transferência para as CCDR territorialmente competentes de um montante global de 250 milhões de euros, que inclui a recuperação imediata de escolas, estradas municipais e outros equipamentos das freguesias ou dos municípios.

Foram ainda reforçadas as verbas atribuídas ao Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, no montante global de seis milhões de euros para o restabelecimento das comunicações e determinada a transferência dos montantes de 12 milhões de euros para o Património Cultural, I. P., e de oito milhões de euros para a Museus e Monumentos de Portugal, E. P. E., consignados à recuperação do património cultural afetado.

O diploma estabelece ainda as condições para as intervenções de reabilitação em explorações agrícolas, florestais e setor da pesca, incluindo um apoio extraordinário para aquisição de alimentação animal aos produtores pecuários afetados “que sejam detentores de explorações agrícolas com efetivos das espécies de bovinos, ovinos e caprinos, financiado pela dotação centralizada do Ministério das Finanças”, no valor máximo de três milhões de euros.