A praia do Furadouro tornou-se, ao longo dos últimos anos, um retrato inquietante da forma como Portugal tem lidado com a erosão costeira, com urgência nos discursos, mas com insuficiência nas soluções. O avanço do mar, a perda acelerada de areia e a ameaça direta a habitações, comércio e infraestruturas deixaram de ser um problema distante ou sazonal. São, hoje, uma realidade permanente que coloca em causa a segurança de uma comunidade inteira e a credibilidade das políticas públicas para a gestão do litoral.
As intervenções realizadas no Furadouro têm sido, na sua maioria, apresentadas como “obras de contenção” ou “medidas de mitigação”. Na prática, funcionam como cuidados paliativos, respostas temporárias que não alteram a dinâmica de fundo nem travam o processo de erosão. Sacos de areia, reforços provisórios e pequenas estruturas defensivas sucumbem aos primeiros temporais mais intensos, obrigando a novos investimentos, novas obras e, invariavelmente, ao mesmo resultado, a linha de costa continua a recuar, metro a metro, inverno após inverno.
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Este ciclo repetitivo levanta uma questão incontornável sobre a forma como são tomadas as decisões e aplicados os recursos públicos. A Agência Portuguesa do Ambiente, enquanto entidade responsável por aprovar e executar investimentos de vários milhões de euros, não pode ficar imune à crítica nem à exigência de responsabilização. Não se trata de procurar culpados fáceis, mas de exigir uma avaliação séria da eficácia das medidas adotadas e de reconhecer que insistir em soluções de impacto nulo é, no mínimo, um desperdício de dinheiro público e de tempo, dois recursos que o Furadouro já não tem em abundância.
O problema não pode continuar a ser tratado com leviandade ou como um dossier técnico que se arrasta de inverno em inverno. O Furadouro é uma comunidade viva, com pessoas, histórias, economia local e um património que se esvai a cada vaga mais forte. As imagens de galgamentos, de pedras arremessadas, ruas inundadas e zonas interditas por risco da aproximação do mar, não são apenas sinais de degradação ambiental, são alertas claros de um problema de segurança pública que exige respostas à altura da gravidade do cenário.
Neste momento, importa chamar a atenção do risco eminente de um desastre ambiental devido à proximidade do mar a um aterro sanitário em Maceda e do facto de incompreensível plano de gestão florestal continuar a ser executado, ou seja, continua-se a abater a floresta. Há talhões inteiros depauperados junto à linha de costa, o que além de chocante, deixa à vista de todos, a eliminação irresponsável de uma barreira natural de proteção da costa com o patrocínio do ministério do ambiente e a conivência dos autarcas no poder.
Cabe ao Governo assumir que a resposta tem de ser estrutural e imediata. A proteção da costa exige uma visão integrada, sustentada em conhecimento científico e numa estratégia de longo prazo que vá além das soluções de emergência. Seja através de sistemas de defesa mais robustos, de uma gestão mais eficaz dos sedimentos ou, dos desejados quebra-mares destacados último, o que não pode continuar é a política do remendo, que apenas adia o inevitável e agrava os custos futuros.
Estamos perante um risco real de que uma tragédia venha a acontecer. Ignorá-lo ou adiá-lo por razões administrativas, orçamentais ou políticas é inadmissível e, para muitos dos que ali vivem, profundamente injusto. O caso do Furadouro não é apenas um problema local, é um teste à seriedade com que o país encara a proteção do seu litoral e a responsabilidade de quem decide em nome do interesse público.
A erosão não espera por relatórios, estudos que ficam nas gavetas ou calendários eleitorais. Avança todos os dias, silenciosamente, mas de forma implacável. A resposta, se quiser ser credível, também não pode esperar. É tempo de trocar as soluções paliativas por decisões corajosas e eficazes, que defendam não apenas uma praia, mas o direito das comunidades costeiras a viverem em segurança e com dignidade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
A passagem da tempestade Kristin por Portugal deixou marcas profundas em pessoas, territórios e infraestruturas. Como acontece em cenários de emergência extrema, o impacto não se mede apenas pelos danos materiais, mas sobretudo pela rapidez — ou falta dela — com que chega a ajuda a quem mais precisa.
Foi neste contexto que nasceu a Tempestade SOS, uma iniciativa independente, criada e operacionalizada por cidadãos com experiência em tecnologia, comunicação, logística e gestão de equipas. Em menos de 24 horas, a Tempestade SOS conseguiu aquilo que muitas vezes demora dias: organizar pessoas, estruturar pedidos reais, mobilizar ajuda concreta e fazê-la chegar de forma ordeira e eficaz às vítimas.
Sem ruído, sem protagonismo e sem depender de processos morosos, a plataforma demonstrou que, quando existe vontade, competência e foco, é possível responder rapidamente a uma crise humanitária. Através de um sistema simples e funcional, foi possível ligar quem precisava de apoio a quem estava disponível para ajudar — desde bens essenciais, alojamento temporário e apoio técnico, até mão-de-obra especializada para intervenções urgentes no terreno.
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Este resultado não foi fruto do acaso. Foi o reflexo de decisão rápida, confiança nas pessoas certas e eliminação de barreiras desnecessárias. Enquanto muitas famílias aguardavam respostas formais, a Tempestade SOS já estava a agir.
Importa dizê-lo com clareza: o papel do Governo e das entidades oficiais é essencial e insubstituível em qualquer cenário de crise. No entanto, a experiência vivida durante a tempestade Kristin volta a expor uma fragilidade conhecida — o tempo que se perde entre a identificação do problema, a decisão e a ação. Em situações de emergência, esse tempo tem consequências reais na vida das pessoas.
A Tempestade SOS não surge para substituir o Estado, mas para mostrar que é possível fazer diferente. Que a agilidade, a descentralização e a confiança na sociedade civil organizada podem — e devem — ser integradas nos modelos oficiais de resposta a crises.
Por isso, a equipa da Tempestade SOS deixa uma mensagem direta e construtiva ao Governo português: estamos disponíveis para colaborar. Disponíveis para partilhar métodos, ferramentas, aprendizagens e para integrar equipas de resposta em futuras situações de emergência. A experiência demonstrou que conseguimos mobilizar, organizar e agir rapidamente — uma capacidade que pode reforçar significativamente a eficácia das respostas institucionais.
Quando se quer, e quando se trabalha com as pessoas certas, é possível mover o mundo — mesmo no meio de uma tempestade. A Tempestade SOS é prova disso. Agora, o desafio é transformar este exemplo numa oportunidade de evolução coletiva, onde decisões rápidas salvam tempo, recursos e, sobretudo, pessoas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
“Olá professora Carmo. Sou o Fábio. Seu ex-aluno na disciplina de Português no 11° ano (ano letivo 2017/2018). Sim, o aluno, que em conjunto com outro, fez imensa estupidez e parvoíces, uma incluindo a sua pessoa. Venho, depois destes anos, pedir-lhe desculpas. E garanto-lhe, do fundo de mim, que a nossa intenção nunca foi magoá-la diretamente. Foi um meio para… Não sei, sinceramente, diversão? Ser aceite?
O pior é que a professora não merecia, o seu lado empático (desde logo percebi isso), atento. Eu tinha recuperado de uma crise de ansiedade que tinha durado algum tempo, por conseguinte estava, internamente, super confiante, com vontade de fazer amigos, desfrutar da vida… A par disso, uma escola nova, necessidade de acolhimento, fazer novas amizades. Apaixonei-me verdadeiramente pela primeira vez e sofri também com todo esse processo. Amar dói, mas vale a pena o risco. Podia ter feito de outra forma? Claro que podia! E, hoje, não faria metade do que fiz. Não entendo, apesar de não justificar nada do que fiz nos anos em que estive nessa escola, a si foi especialmente mais grave: precisamente pela pessoa que estava a ser “atacada”, exatamente pela descrição que fiz de si no início da mensagem. Uma pessoa empática, boa, preocupada, para além do ato de ensinar. Se recusasse no tempo, teria aproveitado para desabafar consigo, conversar, porque sei que me iria ajudar.
Entretanto, cresci, amadureci (queria mais, mas pronto), consegui transferência para outra escola e, a título excecional, consegui regressar ao 10° ano no mesmo curso (ciências e tecnologias), no regime normal (diurno). Completei o ensino secundário e fiquei com uma ótima relação com a maioria dos professores, em especial duas professoras, com quem ainda mantenho contacto. Percebi a importância do professor, o quanto ele nos pode ajudar a crescer, a enfrentar dificuldades. Muitas vezes ficava a falar com a minha professora de Filosofia no fim das aulas. No fundo, aprendi a tratar com respeito quem se dedica a educar, a ensinar. Sabe, ouvi uma frase da minha ex-professora de Matemática A que me marcou – estávamos na biblioteca da escola, onde ela dedicava um tempo do seu horário para esclarecer dúvidas, e ajudar. E perguntamos-lhe: “professora, porque se dedica tanto?” (Respondia a e-mails ao fim de semana e fora de horas a esclarecer dúvidas). A resposta foi: “isto… isto é a minha vida”. Isto foi tão bonito de ouvir, e diz muito sobre a docência – nem todos são assim, é verdade, mas acredito que a professora Carmo se encaixa neste “pacote” bonito.
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Como já referi, concluí o secundário e entrei na faculdade. No entanto, ainda não no curso que pretendo, lá chegarei. A minha saúde mental passou por alguns abalos, entrei no clube de quem toma antidepressivos, não por ser fraco, pelo contrário, por ser forte o suficiente para enfrentar o problema. Tenho um problema com ansiedade? Ok, vamos procurar ajuda. Estou no processo, já tentei fazer uma descontinuação da medicação, mas o meu psiquiatra optou por deixar mais um tempo. Eu, sinceramente, não gosto muito dos efeitos secundários, parece que me deixam anestesiado, odeio isso! Tudo indica que estará para breve a tentativa de retirada, com calma e cautela para minimizar possíveis efeitos de abstinência, pois já os tomos há alguns meses.
Em suma, o Fábio de hoje pede perdão pelo Fábio do passado, deseja o melhor à professora Carmo. Continue assim, cultive boas relações com os alunos, como o fazia. Eu, apesar de tudo, não fiquei indiferente ao que era capaz de fazer para ajudar um aluno seu. Termino parafraseando a professora: “a vida vale a pena ser vivida até ao fim, sem batota.”
Um beijinho.
Do seu ex-aluno.
P.S. Talvez um dia passe pela escola e a encontre! Seria um prazer trocar uma conversa consigo. “
Passaram sete anos. Abro as mensagens do Facebook e sou surpreendida por este desabafo.
Muito se poderia dizer de um adolescente que comete todo o tipo de atos censuráveis numa escola, agride emocionalmente os professores e, anos mais tarde, sem que ninguém lho exija, reconhece o erro e vem pedir desculpa:
Que coisa bonita.
Este amadureceu e refletiu. Ainda bem… Muitos não chegam nunca a fazê-lo.
Maravilhoso.
Mais vale tarde do que nunca.
Reconheceu o valor da sua professora.
Que linda mensagem de profundo reconhecimento pelo que fez, por aquilo em que se transformou e pela professora que teve.
Assim, sim. Muitos não conseguem crescer nem admitir os seus comportamentos, muito menos justificar e pedir desculpa, reconhecendo os bons profissionais que tiveram pela frente. Uma atitude bonita, esta!
Quando se toca a alma de alguém, a magia acontece e isso faz a diferença.
Tão bom. Cresceu, refletiu e em consciência, vem pedir desculpa a alguém que o marcou.
É bom deixar marcas nos alunos.
Reconheço neste miúdo o crescimento mas também a decência e a coragem, não importando o tempo que passou.
Profissão de professor: trabalho tantas vezes difícil e desafiante.
Há professores que mudam vidas: para o bem e para o mal.
Marcas indeléveis! Eis o reconhecimento que nunca deixou de existir e o mais importante de todos.
Parabéns, Fábio. Você é uma raridade. Não sei o que fez mas, seja o que for que tiver feito, tenho a certeza que a professora não merecia.
Há professores que são raros e, por isso mesmo, acabam por inspirar alunos raros a pedir desculpa passados alguns anos.
Intenso e maravilhoso pedido de desculpas!
É difícil lidar com o arrependimento. Não apaga mas apazigua. Este aluno está claramente num processo de reabilitação e de encontro com o seu “eu”.
Tão bom, mas tão bom, ver um jovem crescer e progredir desta maneira com tanto carinho e humildade e sobretudo reconhecendo o valor da sua professora.
Marcar é o que torna a nossa profissão gratificante.
Emocionei-me muito quando li o depoimento deste seu ex-aluno.
Resposta do aluno a todos estes comentários: O tal Fábio sou eu. Nunca pensei que a minha mensagem tocasse a professora Carmo ao ponto de a partilhar. Depois dos erros que cometi, foi muito bonito o seu gesto. E se tornei o seu dia bonito, fico feliz. Dei uma vista de olhos nos comentários e, é de facto orgulho o que sinto por ter tido a coragem de pedir desculpas, Mas, sobretudo, por poder contribuir para que os professores possam sentir o carinho dos seus alunos ou ex-alunos. Na altura, não percebi mas agora recordo-me que, na primeira aula desta professora (era aluno recém chegado a uma escola nova onde não conhecia ninguém, numa turma do 11º ano com sequência do ano anterior) não se falou de Camões, Garrett ou muito menos de gramática. Fizemos um exercício e depois a professora pediu-nos para fechar os olhos e partilharmos o que que tínhamos sentido nesse momento numa única palavra. Lembro-me da minha resposta: Ansiedade. A professora, curiosa, quis saber a razão. Vivemos tanto, experienciamos tanta coisa que a nossa psique não regista tudo. Mas este momento ficou lá. Porque foi sincero. Eu, um novo aluno, senti que importava e que não era mais um número naquela escola nem naquela sala. No entanto, depois não respondi da forma devida. Feito está e já fiz o que me cabia fazer. Hoje percebo que a escola vai muita para além das aprendizagens. Muitas vezes é um lugar de aprendizagem emocional, de formação de laços, de criação de empatia, de inclusão.
E o leitor, a que professor gostaria de pedir desculpas ou, simplesmente, agradecer?
Observação: Este texto foi partilhado com autorização do meu ex-aluno.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Quando ouvimos falar do Ministério Público, é comum associá-lo a crimes, julgamentos e investigações criminais. No entanto, o seu papel na sociedade vai muito além disso. O Ministério Público é uma Magistratura essencial para garantir que a lei protege todas as pessoas — sobretudo aquelas que estão em situação de maior fragilidade.
Num país onde persistem desigualdades sociais, onde a população envelhece e onde surgem novas formas de precariedade e exclusão, nem todos partem do mesmo ponto quando precisam de justiça.
É precisamente aqui que o Ministério Público assume um papel fundamental: assegurar que os direitos não dependem da condição económica, da idade ou da força de quem os reivindica.
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Na área penal, o Ministério Público não existe apenas para investigar quem comete crimes. Tem também a responsabilidade de proteger vítimas especialmente vulneráveis, como crianças, idosos, pessoas com deficiência ou vítimas de violência doméstica. Ao acompanhar de forma efectiva os processos e promover medidas de coacção adequadas, o Ministério Público ajuda a garantir que a justiça não ignora o sofrimento de quem foi vítima de um crime.
No âmbito da família e das crianças, o papel do Ministério Público é também decisivo. Em processos que envolvem menores — como a regulação das responsabilidades parentais, situações de perigo ou processos de adopção, o Ministério Público não toma partido por nenhum dos pais. A sua função é defender o superior interesse da criança, garantindo que as decisões judiciais protegem o seu bem-estar, segurança e futuro.
Também na jurisdição laboral o Ministério Público tem uma função primordial. Em contextos de precariedade ou desigualdade entre empregadores e trabalhadores, nem sempre é fácil reclamar direitos. O Ministério Público pode intervir para garantir o respeito pela lei laboral e proteger interesses que não podem ser negociados ou renunciados, contribuindo para relações de trabalho mais justas.
Menos conhecida é a intervenção do Ministério Público face à Administração Pública. Quando decisões do Estado afectam direitos fundamentais — como o acesso à saúde, à habitação, à educação ou à segurança social — o Ministério Público pode actuar para fiscalizar a legalidade dessas decisões.
O Ministério Público tem ainda um papel relevante na protecção de interesses colectivos, como o ambiente, a saúde pública ou os direitos dos consumidores. Estes são interesses de todos, mas cujos efeitos negativos recaem muitas vezes de forma mais pesada sobre as populações mais vulneráveis.
Importa ainda destacar o papel do Ministério Público na representação de incapazes e ausentes, assegurando que pessoas impossibilitadas de exercer plenamente os seus direitos não ficam privadas de protecção jurídica.
É o caso, por exemplo, de pessoas com doença mental grave ou com deficiência intelectual que não têm familiares ou representantes legais capazes de actuar em seu nome. Nestas situações, o Ministério Público intervém para assegurar que os seus direitos pessoais e patrimoniais são respeitados, evitando abusos, negligência ou decisões contrárias ao seu interesse.
Apesar da importância das suas funções, o trabalho do Ministério Público continua pouco visível. A falta de recursos humanos, a sobrecarga de processos e a crescente complexidade dos problemas sociais dificultam uma resposta rápida e próxima das pessoas.
Na verdade, muitos magistrados do Ministério Público acompanham centenas, por vezes milhares, de processos em simultâneo, o que lamentavelmente limita o tempo disponível para analisar cada situação com a atenção que merece. Esta realidade afecta especialmente os casos que envolvem pessoas vulneráveis, que exigem tempo, escuta, acompanhamento e articulação com outras entidades sociais.
Acresce que os problemas sociais actuais — como a violência doméstica, a exclusão social, o envelhecimento da população ou a precariedade laboral — são cada vez mais complexos e exigem respostas especializadas e articuladas. Sem recursos adequados, torna-se mais difícil garantir uma justiça verdadeiramente eficaz, humana e acessível.
O Ministério Público desempenha um papel absolutamente central na defesa da legalidade e do interesse público, tornando-se urgente o seu reforço de quadros e meios para que possa responder, de forma célere e eficaz, aos desafios concretos que diariamente lhe são colocados.
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Há dois cenários distintos – e convém não os confundir: a recusa pontual (um dia mau, um desconforto, uma fase) e a recusa persistente (um padrão que se repete, quase todos os dias, com intensidade). Em ambos, a regra é a mesma: segurança não se negocia. Mas o caminho até lá pode (e deve) ser mais humano.
1) Recusa pontual: começar pelo básico (antes de “inventar técnicas”)
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Na maioria das famílias, a recusa aparece em dias banais – e vale lembrar o óbvio: um bebé não tem noção de que “são só 12 minutos” nem de que “vamos a um sítio incrível”. O bebé só sabe isto: estou desconfortável agora. A noção de tempo e espaço é diferente num bebé; ter isto presente ajuda-nos a ajustar expectativas.
Antes de procurar grandes explicações, vale a pena fazer uma lista rápida:
Alimentação: terá fome? Ou estará demasiado cheio?
Descanso: terá sono? Ou acabou de acordar e quer mexer-se?
Temperatura: terá frio? Ou estará demasiado agasalhado?
Fralda: estará suja ou a incomodar?
Se isto estiver resolvido e a recusa continuar, passa-se ao próximo nível: o que é observável na própria cadeira.
2) Quando o problema pode ser a cadeira (e não “birra”)
Às vezes, a recusa é o corpo a dizer “assim não dá”. E isso pode ser tão simples como:
pressão em zonas sensíveis (etiquetas, costuras, roupa rígida, botas duras);
cabelo preso a puxar quando encosta;
arnês a roçar no pescoço;
inclinação desajustada para a fase em que a criança está.
Depois vem o fundamental: ajuste e ergonomia. Uma recusa que surge “de um dia para o outro” pode coincidir com uma destas situações:
chegou o momento de subir cabeçal, ajustar arnês ou retirar redutores;
a cadeira deixou de servir bem (mesmo sem o adulto se ter apercebido);
a criança cresceu e o encaixe “que era perfeito” passou a ser apertado, torto ou desconfortável.
E há um ponto mais comum do que parece: muitos primeiros sistemas de retenção são comprados antes do nascimento – o que limita a capacidade de aferir, na prática, a adequação àquele bebé específico.
Se a recusa vem acompanhada de dor, irritação marcada, choro “diferente” ou alterações de comportamento, faz sentido excluir desconforto físico com pediatra (e, quando indicado, com profissionais que avaliem postura e mobilidade). Um simples torcicolo, por exemplo, pode transformar o momento da cadeira num tormento: ali o corpo fica contido e o posicionamento é inevitavelmente mais restrito.
3) O carro também conta: condução, medo e o “corpo em viagem”
Nem sempre o problema é a cadeira. Às vezes, é a experiência.
A criança sente cada travagem e cada aceleração. Uma condução prudente, defensiva e suave beneficia todos – e pode ser decisiva para crianças mais sensíveis. Depois de um episódio de stresse na estrada (uma travagem brusca, uma discussão, um susto), algumas crianças desenvolvem mesmo medo genuíno de entrar no automóvel.
Há ainda um fator pouco falado: algumas crianças ficam desconfortáveis com o movimento do carro (tontura, náusea, desequilíbrio). Em certos casos, um posicionamento mais verticalizado, quando a cadeira o permite, pode ajudar – respeitando sempre os limites e indicações do fabricante.
Nota importante: este é um dos motivos clássicos para alguns pais anteciparem a viagem a favor da marcha. Mas a segurança não é negociável. Se uma criança reage mal ao movimento, o foco deve ser melhorar conforto e estratégia – sem abdicar da viagem contra o sentido da marcha, enquanto for possível e adequado.
4) Segurança não é negociável – mas o caminho pode ser mais sereno
Uma frase que ajuda muito os adultos (e, paradoxalmente, acalma as crianças): “A cadeira é regra. O modo como chegamos lá é que pode mudar.”
Ou seja: não vale tudo para “parar o choro”. O objetivo não é ganhar uma batalha; é construir previsibilidade e confiança.
E antes que alguém pense “que exagero”… não é. A recusa da cadeira é comum, sobretudo em idades em que a criança está a treinar autonomia (“eu decido!”), a testar limites (“até onde posso ir?”) e a lidar com frustrações que ainda não sabe regular.
A boa notícia: na maioria dos casos há estratégias simples – e repetíveis – que baixam o conflito e aumentam a cooperação. A menos boa: não há magia instantânea. (Sim, eu também preferia que houvesse.)
O que ajuda é repetir o que funciona – com calma e consistência.
5) Estratégias que funcionam (na vida real)
A) “Ligação antes da contenção” (30 segundos que poupam 10 minutos) Antes de tentar sentar e apertar, faça um micro-momento de ligação:
ajoelhar ao nível da criança;
olhar e nomear: “Percebo que não te apetece. É difícil.”
mensagem curta: “Temos que ir. Eu ajudo.”
Isto não é ceder. É regular primeiro, para cooperar depois.
B) Dar escolhas dentro do inevitável A criança quer sentir controlo. Dê-lhe controlo onde é seguro dar:
“Queres subir sozinho ou queres que eu pegue?”
“Hoje vais com o livro ou com o boneco?”
“Preferes pôr primeiro um braço ou o outro?”
“Queres que eu conte até 10 ou preferes música?”
O truque é simples: duas opções, ambas aceitáveis.
C) Rotina fixa e previsível A recusa piora quando cada dia é um guião novo. Crie um ritual curto:
entrar
sentar
“abraço do banco” (um aperto simpático do arnês)
música do arranque / história curta / “check” do espelho
E repita. Repetição é segurança.
D) Treino sem viagem (a estratégia subestimada) Se o momento está muito contaminado, faça 2 ou 3 sessões sem sair do lugar:
brincar a “sentar e levantar”;
apertar e desapertar (com o adulto a controlar);
oferecer um “prémio de experiência” (uma canção, um jogo de dedos, uma mini-história).
A mensagem passa a ser: “A cadeira não prevê sofrimento. Prevê previsibilidade.”
E) “Primeiro… depois…” (melhor do que “se…”) Em vez de “Se te portares bem, damos…”, use:
“Primeiro sentamos e apertamos. Depois escolhes a música.”
“Primeiro o arnês. Depois o snack.”
Isto reduz negociação infinita e dá sequência clara.
F) Um “kit do carro” (coisas que só existem ali) Ter objetos exclusivos do carro aumenta atratividade:
um livro pequeno;
cartões de procurar coisas na rua;
um áudio curto.
Atenção: nada que comprometa segurança nem que vire projétil. Menos é mais.
G) Ajustar o contexto físico (muita recusa é logística)
arejar o carro antes;
evitar roupa volumosa na cadeira (e compensar com manta por cima, se necessário);
garantir que o arnês não fica torcido;
rever inclinação/apoios conforme a idade;
para crianças maiores: subir sozinhas com um degrau pode aumentar a sensação de autonomia.
6) O que costuma piorar (mesmo quando é bem-intencionado)
Apressar com pressão: “Anda, despacha-te!” (a criança ouve “perigo”).
Negociar sem fim: cada “só mais uma coisa” ensina que chorar rende.
Ameaças (“vou embora sem ti”) ou humilhação (“portas-te como bebé”).
Afrouxar regras de segurança para reduzir choro (arnês frouxo, cinto mal posicionado, “vai só ali”). O risco não faz pausas.
7) Um mini-plano de 7 dias (para famílias que precisam de estrutura)
Dias 1–2: rever conforto e ajustes + ritual fixo
Dia 3: treino sem viagem (2 minutos) + reforço “primeiro/depois”
Dias 4–5: escolhas dentro do inevitável + objecto exclusivo do carro
Dia 6: elogio específico (não “boa menina”, mas “sentaste-te logo e ajudaste no braço”)
Dia 7: repetir e simplificar (tirar estímulos a mais)
A consistência é o “ingrediente secreto” que ninguém quer ouvir… porque dá trabalho. Mas dá resultado.
8) Quando pedir ajuda extra
Se a recusa é intensa, diária, com pânico, vómitos frequentes, dor, ou se há sinais sensoriais marcados, pode fazer sentido:
avaliação com pediatra (excluir dor/enjoo/refluxo);
orientação de terapia ocupacional (perfil sensorial);
e revisão técnica da instalação e ajuste por alguém especializado – porque muitas “recusas de comportamento” afinal são “recusas do corpo”.
O objetivo não é silêncio – é cooperação segura
Nem sempre vamos ter uma criança feliz no banco de trás. Às vezes vamos ter uma criança zangada… mas segura. E isso também é parentalidade: segurar o limite com calma, sem transformar o carro numa arena.
A cadeira não é um castigo. É um abraço firme. E sim — às vezes é um abraço que a criança não pediu. Mas é precisamente por isso que existem adultos.
Joana Freitas é formadora e consultora em segurança rodoviária infantil e fundadora do D’Barriga, projeto com mais de 18 anos a apoiar famílias.
Basta comparar a resposta das políticas públicas e do Estado durante a pandemia com o padrão de desvalorização de riscos, de enfraquecimento da autoridade de Estado e de atabalhoada resposta perante situações imprevistas por parte de Luís Montenegro e do seu Governo para percebermos que Portugal e os portugueses estão numa situação de alto risco sempre que acontecimentos imprevistos ocorram.
Infelizmente, os casos recorrentes demonstram que não estamos perante um acaso mas sim perante um padrão de comportamento.
Logo em 2024, na voragem das inesperadas eleições, o planeamento da época de incêndios desprezou a necessidade de fazer antecipados avisos sobre a limpeza dos terrenos em volta das casas e das aldeias, o ICNF foi retalhado entre os ministérios do Ambiente e da Agricultura e a prevenção de riscos deixou de ser prioridade em que o primeiro-ministro dava a cara e os ministros o exemplo do empenho político. As coisas já não correram bem, tendo sido superada a área ardida dos últimos anos ainda que com os maiores incêndios só em setembro. Luís Montenegro face à descoordenação na resposta lançou uma teoria da conspiração alarmista sobre uma rede de incendiários de natureza terrorista sobre a qual cairia mão pesada. A demagogia ficou esquecida com as primeiras chuvas, a lei não mudou e os incendiários não apareceram.
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Em 2025, já a liderança da ANEPC, que desde 2017 fora exercida por dois oficiais-generais, tinha sido substituída pela gestão ligada ao modelo dos tempos de Passos Coelho, acompanhada por vários dirigentes locais do PSD. O contributo resultante da liderança do sistema pela Proteção Civil foi desvalorizado, o contributo científico da AGIF foi praticamente anulado e a prioridade passou a ser a exigência corporativa de regresso ao modelo de organização distrital, sem qualquer sentido desde que o governo de Passos Coelho extinguiu os Governos Civis.
O abandono da Estratégia de Proteção Civil Preventiva foi total e nunca mais se ouviu falar em exercícios de evacuação de populações, no programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras”, no apelo à limpeza da floresta ou na criação de novas faixas de proteção. Tudo correu ainda pior e o Governo nem percebeu, de tal forma que manteve a festa do Pontal em estilo de campanha de verão enquanto o País estava a arder. O resultado foi o pior ano de incêndios desde 2017, sem qualquer apuramento, até agora, do que correu muito mal.
O apagão de 28 de abril era imprevisível mas novamente a resposta do Governo foi puramente política, centrada em Montenegro e no ministro da propaganda, impedindo a Proteção Civil de liderar a resposta imediata, informando e apoiando as populações, para além de ignorar a existência do MAI a quem cabe liderar a resposta civil em situações excecionais.
Perante tudo isto, o que está a acontecer desde quarta-feira com o impacto da depressão Kristin já parece uma trágica normalidade. Face aos avisos de ventos até 180 km/hora que o IPMA tinha anunciado já na segunda-feira, o Governo nada fez, a Proteção Civil não teve a autoridade para liderar uma resposta preventiva musculada e com alta visibilidade e não foi feita sequer a declaração do Estado de Alerta nas regiões por onde a depressão iria entrar no território do continente como fora feito em 2018 aquando do ciclone Leslie.
Pior ainda foi que, sendo os estragos conhecidos desde a manhã de dia 28 e denunciados pelos autarcas com o destaque patriótico do presidente Gonçalo Lopes de Leiria (edifícios destruídos, vidas perdidas e dezenas de municípios sem energia elétrica nem abastecimento de água), só ao fim de 24 horas de resistência à evidência Luís Montenegro tenha acedido aos pedidos de declaração do Estado de Calamidade.
A grande preocupação do Governo foi produzir vídeos de propaganda ou encenar formaturas militares para Nuno Melo, sem mobilizar os meios necessários para o apoio imediato às populações, como geradores ou bombas de água ou questionar as concessionárias da rede elétrica ou as operadoras de telecomunicações sobre quais os motivos porque ao fim de seis dias os serviços continuam inativos para centenas de milhares de cidadãos.
Perante a catastrófica gestão política de uma emergência sem comando operacional chega agora a fase longa das medidas de apoio e de reconstrução, genericamente benévolas, mas que correm o risco de serem esquecidas quando a próxima crise chegar.
A única boa notícia, apesar de não se conhecerem os poderes efetivos nem os meios com que vai contar, é a designação para a liderança da equipa de missão que vai coordenar os apoios de Paulo Fernandes, magnifico ex-presidente da Câmara do Fundão que as tricas partidárias do PSD afastaram da candidatura a presidente da CCDR Centro.
Os próximos dias vão ser ainda muito difíceis e até agora só os autarcas e as estruturas locais de proteção civil mostraram eficácia, espírito de solidariedade e capacidade para tentar preencher o vazio de um Governo perdido num vendaval de propaganda, sem coordenação política operacional, que desconsiderou o papel de liderança na resposta que cabe à Proteção Civil e ignorou a capacidade logística das Forças Armadas.
Não estamos perante mais um passo em falso mas sim perante um padrão de comportamento de um Governo que está ausente quando o Estado mais faz falta aos cidadãos, pelo que o prémio Laranja muito Amarga da semana vai para o timoneiro da governação encharcada de incompetência, Luís Montenegro.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Confesso que não me passava pela cabeça ir ver o documentário da Melania Trump. A sério. Já vi coisas traumáticas — desde filas intermináveis no aeroporto para passar a fronteira do espaço Schengen até às assembleias do condomínio do meu prédio — mas não estava preparado para isto. Ouvi tanto falar, vi tanta manchete, tanto “é histórico”, tanta gente a discutir Melania como se estivéssemos perante a nova Declaração de Independência Americana, que acabei por ir ao cinema. É serviço público. Jornalismo de sacrifício. Daquele que devia dar direito a subsídio de risco.
Fui às salas das Amoreiras em modo clandestino: entrei de mansinho, de óculos escuros apesar da chuva e do céu cinzento, cabeça baixa, com a esperança íntima de não encontrar ninguém conhecido na sala que me perguntasse: “Então, Zé, agora também és MAGA?” Escolhi a sessão das 13h10 porque era domingo, hora de almoço, a sala estava quase só para mim e para a minha parceira e, se me desse uma indisposição moral ou uma náusea existencial, ainda ia a tempo de comer uma canja e recuperar alguma dignidade perdida.
Melania, a atual primeira dama dos EUA, essa espécie de esfinge eslovena de salto-agulha, decidiu que não podia ficar atrás da Georgina, a mulher do Cristiano Ronaldo, o melhor jogador de “soccer” do mundo. Se a companheira do CR7 foi à Netflix, Melania foi falar com o amigo rico — o sempre disponível Jeff Bezos — e resolveu estrear-se na Amazon Prime Video com um documentário sobre… ela própria, que primeiro vai às salas e daqui a duas semanas estará no streaming. Naturalmente. O narcisismo também gosta de plataformas premium.
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Setenta e oito milhões de dólares depois, nasceu esta “obra-prima do narcisismo institucional”: Melania. Um filme financiado, produzido pela própria, sobre a própria, para nos explicar a própria. Um tratado audiovisual sobre a vida interior de uma mulher que passa metade do tempo a não fazer nada ou a segurar um chapéu para não lhe fugir da cabeça e a outra metade a fugir das pessoas, o que, convenhamos, já é uma forma de coerência artística.
Estávamos a duas semanas da segunda tomada de posse de Donald Trump, e Melania abre-nos as portas da intimidade… até certo ponto. Muito certo ponto. O suficiente para vermos os seus vestidos, os sapatos, os corredores, os salões, as flores, as cortinas, os tapetes, os lustres do triplex de luxo da Trump Tower, na Quinta Avenida, em Nova Iorque, onde passa grande parte do tempo sozinha, a contemplar a sua própria importância, com Trump ao longe, na altura em Mar-a-Lago, na Flórida.
Mas nunca, jamais, abre o coração. Esse ficou guardado numa “caixa-forte” na Eslovénia, há muito tempo, com código de acesso emocional desconhecido. O documentário acompanha, na verdade, as grandes decisões da futura primeira dama na sua segunda estadia na Casa Branca: qual o vestido, qual o chapéu, qual o salto mais alto possível sem provocar fratura exposta, qual o ângulo da câmara que melhor disfarça o tédio, como decorar os aposentos neste regresso em modo “Querido, Mudei a Casa Branca?”.
E depois há a interação com a sua equipa, quase toda composta por “imigrantes” de origem, tal como a própria Melania: o costureiro Hervé, a decoradora vinda do Laos, a assistente com sotaque do Leste. Todos representantes do sonho americano em versão bastidores presidenciais. Um “United Colors of Melania”, patrocinado pelo cartão Platinum do Trump.
Pelo meio, descobrimos alguns detalhes supostamente comoventes. A mãe de Melania, Amalija, morreu exatamente um ano antes da tomada de posse: 9 de janeiro. Coincidência simbólica. Porém, Melania fala disso com a emoção de quem lê a lista de compras no supermercado, mesmo quando diz que a mãe foi a sua grande inspiração.
Ficamos também a saber que adora Michael Jackson e que a sua música preferida é “Billie Jean”. E aqui entra a metáfora perfeita. Melania vê-se como uma Billie Jean: uma mulher misteriosa, incompreendida, injustamente julgada, rodeada de rumores, olhares e suspeitas. “The kid is not my son”, [“A criança não é minha”] cantava Michael Jackson. No caso dela, parece ser mais: “This life is not my life, but I’ll wear it anyway.” [“Esta vida não é a minha vida, mas vou usá-la de qualquer maneira.”]
Melania acredita-se como uma figura humanitária global, ao lado de Brigitte Macron e Rania da Jordânia, no apoio a organizações internacionais. Uma espécie de Madre Teresa com carteira Hermès, sem votos de pobreza e com motorista e guarda-costas à porta. Só que depois olhamos para o ecrã… e aquilo parece mais um catálogo de luxo narrado por uma assistente virtual encharcada em Prozac.
A voz. Meu Deus, a voz. Uma voz melada, treinada, artificial, como se tivesse passado por um curso intensivo de “Como Soar Humana em 12 Lições”. Cada frase parece dita com um sorriso colado a super-cola. Tudo soa como um anúncio de perfume: “Melania. Eau de Distância Emocional.”
E depois há a relação com Trump. Um espetáculo à parte. Nunca se beijam na boca. Apesar de andarem de mão dada nas cerimónias oficiais, quase nunca se tocam sem autorização tácita. Mantêm sempre aquela distância de segurança que se usa entre desconhecidos educados num elevador.
Trump elogia-a, idolatra-a, olha para ela como quem olha para um troféu raro. Melania olha para ele como quem olha para uma porta de embarque com aviso de voo atrasado. Na noite da tomada de posse, às duas da manhã, percebemos que eles não dormem juntos. Rei e rainha da frieza. Imperadores do “cada um para seu lado”. Mesmo com o filho em casa. Tudo é aparência, cenário, coreografia.
A realização é… do “cancelado” Brett Ratner — como dizer isso com delicadeza? — um desastre artístico. Planos lentos, câmaras a passear por corredores vazios, close-ups obsessivos de sapatos à O Diabo Veste Prada, imagens em Super 8 usadas sem critério, só para fingir que há arte ali no meio. Uma estética de “workshop criativo para milionários entediados”. Há momentos em que parece um anúncio da Zara feito por um operador de câmara deprimido.
E, no meio disto tudo, a banda sonora tenta salvar a pátria. Temos “Billie Jean”, claro. Temos os YMCA. Temos os Tears for Fears com “Everybody Wants to Rule the World”. Temos o “Bolero” de Maurice Ravel. Temos ainda a “Melania Waltz”, criada para a ocasião. É a playlist de um spa para egos insuflados.
O filme tenta vender-nos a imagem de uma mulher forte, independente, sofisticada, empenhada, solidária, resiliente, elegante, visionária. Mas o que vemos é outra coisa: uma mulher permanentemente ausente, uma presença sem presença, uma figura decorativa de luxo, um bibelô geopolítico embalado para exportação e sobretudo para consumo interno.
Tudo naquele documentário grita “controlo”. Nada é espontâneo, nada é imperfeito, nada é humano. Cada frase foi ensaiada, cada gesto foi medido, cada silêncio foi planeado. É um reality show sem realidade. É uma autobiografia sem alma. É um espelho polido onde não se reflete nada. E, no fim, quando aparecem os créditos com a lista das “atividades da primeira dama”, percebemos tudo: isto não é um documentário. É um relatório anual em vídeo. É propaganda emocional. “Fiz isto. Estive ali. Apoiei aquilo. Sorri acolá.” Carimbo. Assinatura. Próximo mandato.
No fundo, Trump e Melania são feitos um para o outro, farinha do mesmo saco: dois monumentos ao ego, duas marcas registadas, dois produtos premium. Como dizia a minha avó: não se estragam duas casas. Quando há panela, arranja-se sempre uma tampa. E aqui temos: panela de narcisismo com tampa de gelo. Um casal cinco estrelas do vazio. Melania é lixo e luxo ao mesmo tempo. Lixo porque é artisticamente irrelevante, emocionalmente oco, narrativamente pobre. Luxo porque custou milhões, brilha, deslumbra e engana. É o retrato perfeito de uma época: muito dinheiro, muita imagem, muito marketing… e zero substância. Melania queria ser Billie Jean. Mas acaba como produto de um videoclip sem refrão.
Chego a Quarteira num daqueles dias estranhos do Algarve em que chove e faz sol ao mesmo tempo. O céu abre-se em fendas de luz, o ar fica pesado, quente e húmido, como se o verão nunca se tivesse ido embora. No lobby do hotel onde combinei encontrar-me com Adilson, dezenas de turistas ingleses ocupam as mesas junto às janelas. Jogam cartas, bebem cocktails demasiado coloridos para aquela manhã cinzenta, conversam em voz alta como se o mar fosse apenas pano de fundo. Alguns têm a pele bronzeada pelo sol quente do Algarve, outros a lentidão confortável de quem vive em férias prolongadas.
Adilson entra poucos minutos depois. Corpo esguio, passos leves e uma forma de se mover que contrasta com aquele espaço. Não precisa de se apresentar: o corpo chega antes. Por instantes, parece abrir-se uma dobra no espaço – como se dois mundos que raramente se tocam tivessem sido obrigados a partilhar o mesmo enquadramento. De um lado, quem circula sem pensar em documentos, vistos ou autorizações. Do outro, um homem que viveu toda a vida em Portugal e que, ainda assim, cresceu dentro de um parêntesis legal.
Sentamo-nos perto da janela. Atrás dele, o mar de Quarteira. À frente, copos altos com guarda-chuvas de papel. Entre o azul domesticado das piscinas dos hotéis e o azul indomável do Atlântico em dias de inverno, existe outro azul que não se vê – o de um documento que durante décadas lhe disse que estava aqui apenas por permissão, nunca por pertença.
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É a partir desse azul invisível que começa esta história.
O documento de outra cor
Adilson Correia Duarte nasceu em Luanda, em 1983, mas chegou a Portugal com apenas 11 meses, trazido pela mãe. Filho de mãe angolana e pai cabo-verdiano, não guarda memórias de Angola. As primeiras imagens da infância são já algarvias: a casa apertada no Bairro dos Pescadores, a escola primária, os dias passados na rua com os colegas, o mesmo sotaque, os mesmos cadernos gastos. Tudo o que o rodeava lhe dizia que era dali.
Coreógrafo e bailarino de profissão, vive em sobressalto há 42 anos, por não ter cidadania portuguesa. Atribui esse receio à “circunstância política” em que vive atualmente, e “à burocracia” que o impede de ser um cidadão português, bem como a ausência de informação clara para poder “saltar” – na sua linguagem figurada – da autorização de residência permanente, uma vez que não pode sair de Portugal desde 2019, por não conseguir renovar os seus documentos.
Exemplo A história de Adilson, coreógrafo e bailarino, inspirou o amigo de adolescência, Dino d’Santiago, a escrever uma ópera
Foi numa visita de estudo que a diferença ganhou cor. Os colegas mostravam cartões de identidade amarelos. O dele era azul. “Porque é que o meu é diferente?”, perguntou, ainda criança. Só mais tarde perceberia que aquele retângulo de plástico condensava uma fronteira jurídica e simbólica: fazia parte de uma geração inteira deixada em suspenso pelas mudanças à Lei da Nacionalidade depois de 1981 – crianças nascidas em Portugal que deixaram de ser automaticamente portuguesas. Portuguesas na prática do quotidiano do dia a dia, estrangeiras no papel.
O bilhete de identidade azul, em Portugal, era o documento de identificação emitido a estrangeiros com autorização de residência, distinto do bilhete de identidade amarelo (ou verde, consoante a época), reservado aos cidadãos portugueses. Introduzido pelo Decreto-Lei nº 300/88, a sua capa azul-claro com fundo azul-escuro servia para diferenciar legalmente nacionais de estrangeiros, criando uma marca visual de cidadania suspensa que atravessou gerações de imigrantes.
Este bilhete não foi extinto formalmente, mas saiu de circulação a partir de 2007, com a introdução do Cartão de Cidadão, que unificou a identificação civil num único documento biométrico. Para os estrangeiros, o bilhete azul foi substituído pelo Cartão de Residência de Cidadão Estrangeiro (emitido pela AIMA), que assumiu funções equivalentes, mas com formato moderno e chip eletrónico, acabando com a cor azul como símbolo de diferenciação.
Identidade com limites
A infância de Adilson foi feita de afeto e precariedade. A mãe trabalhava como empregada doméstica e deixava muitas vezes os filhos trancados em casa por não ter dinheiro para a creche. A vizinha, Dona Josefa, fazia parte da rede informal que segurava aquela família que, entre o confinamento doméstico e a liberdade da rua, foi a ponte para a construção de uma infância que Adilson descreve como “feliz e difícil” pelos constrangimentos que a ausência de identidade legal lhe causou ao longo da vida enquanto cidadão “em permanência”, revela.
Na adolescência, a fronteira mudou de lugar. Veio a mudança de voz, a transferência para o Bairro da Abelheira, outro bairro social, outras dinâmicas, o mesmo sentimento de margem. Com um grupo de amigos, Dino, Elísio, Igor, Ivan e Paulo, criou a Brigada Charme: jovens vindos de contextos atravessados por violência, crime e exclusão que decidiram conscientemente trilhar outro caminho. Encontraram na cultura hip hop e no R&B, a que assistiam na extinta MTV, uma gramática para existir.
A moda foi o primeiro palco dessa reinvenção. Influenciado pelo irmão mais velho, Adilson cortava, transformava e personalizava peças de roupa. Quando lhe chamaram “o mais estiloso da escola”, percebeu que aquilo era mais do que vaidade. “Era como se eu estivesse a adicionar-me valor estético.” Uma forma de contrariar a inferioridade que o sistema lhe impunha.
Retratos Celestina Monteiro e ensaios da ópera Adilson, que sobe ao palco do Coliseu do Porto esta quinta-feira, 29 de janeiro
Hoje, numa sala de aulas em Quarteira, repete os movimentos à frente de crianças pequenas. Marca tempos com palmas, corrige posturas, ri-se quando alguém se atrapalha nos passos. Muitos nasceram já com nacionalidade portuguesa. Alguns são filhos de imigrantes recentes. Enquanto dança com eles, pensa muitas vezes na infância que teve – portuguesa em tudo, menos nos documentos.
O bilhete de identidade azul continuou a impor limites concretos. No futebol federado, onde só três estrangeiros podiam ser inscritos por equipa. Nas viagens, sempre mediadas por vistos. Anos mais tarde, quando foi escolhido para coreografar uma equipa portuguesa num campeonato mundial de hip hop em Las Vegas, não pôde embarcar por causa da documentação. “Foi aí que percebi que, afinal, eu não era daqui como pensava que era.” Falava com sotaque algarvio, tinha feito toda a escola em Portugal, trabalhava, pagava impostos. Ainda assim, permanecia condicional.
Em 2020 perdeu a mãe, a pessoa que sempre lhe repetia que nunca deixasse os documentos caducar. Os serviços para a imigração paralisaram, os espetáculos desapareceram, os apoios não chegaram. Sobreviveu com aulas online e trabalhos pontuais. “Senti-me a desaparecer devagar.” Foi nesse limbo que ligou ao amigo de adolescência, Dino d’Santiago, para o ajudar a resolver a sua situação irregular, o que acabou por se transformar numa ópera de manifesto simbólico para a realidade do seu dia a dia.
A vida numa ópera
A história de Adilson ultrapassou o espaço íntimo e ganhou corpo em palco. Da conversa com Dino d’Santiago nasceu a ópera Adilson, em cartaz esta quinta-feira, 29, no Coliseu do Porto, um espetáculo que cruza música, palavra e movimento para narrar a experiência de crescer em Portugal com uma pertença sempre provisória. Na encenação, o bilhete de identidade azul deixa de ser apenas um documento administrativo e transforma-se em símbolo: o da cidadania suspensa, da espera permanente, da fronteira invisível que atravessou gerações de imigrantes.
O corpo de Adilson torna-se instrumento narrativo, traduzindo em gesto aquilo que durante anos não encontrou lugar nos formulários do Estado. Aqui, a cultura surge como tradução política da vida vivida. Onde a burocracia produziu números de processo, a arte devolve rostos, memórias e dignidade.
Ópera em cinco atos, baseada no texto original Serviço Estrangeiro, de Rui Catalão, e com direção musical de Martim Sousa Tavares, em Adilson transforma-se a espera em poesia e a invisibilidade num ato de resistência. No seu culminar, ouvimos um grito que ecoa muito além do palco: “Não sou português. Sou Portugal. Um país à espera.”
A história de Adilson inscreve-se numa condição que o sociólogo inglês Paul Gilroy descreveu como experiência “diaspórica”: vidas construídas entre lugares, pertenças múltiplas, identidades que não cabem em fronteiras fixas. No Atlântico negro de Gilroy, a travessia – física, cultural, simbólica – é o que molda sujeitos que pertencem a vários mundos sem serem plenamente aceites por nenhum.
Em Portugal, essa diáspora não se faz apenas entre continentes, mas também entre documentos e quotidianos. Crescer aqui, trabalhar aqui, amar aqui – e, ainda assim, permanecer juridicamente de fora.
Travada na fronteira
Se Adilson representa quem praticamente nasceu dentro desse limbo legal, Celestina Monteiro, 70 anos, personifica outra geração da mesma história.
Celestina chegou ao Algarve em 1989 sem intenção de emigrar. Vinha de férias, com um visto de três meses e um emprego em Cabo Verde à espera. Quinze dias depois de chegar, o marido da irmã que vivia em Portugal morreu subitamente, deixando-a sozinha com um bebé de 4 meses. Celestina ficou.
Começou a trabalhar de imediato enquanto o processo de legalização era feito de filas intermináveis, papéis em falta, idas constantes a Faro. Primeiro veio o cartão de residência, depois o bilhete de identidade azul. Com ele trabalhou, descontou, votou nas autárquicas. Mas a cidadania plena ficava sempre um passo à frente.
Criou seis filhos praticamente sozinha depois de abandonar uma relação marcada pelo álcool. Houve um dia, em Tavira, em que deixou casa e mobília para trás e regressou a Quarteira apenas com as filhas pela mão. “Só queria as minhas meninas”, desabafa. Trabalhou décadas como cozinheira até uma infeção grave lhe destruir o fígado e a levar a um transplante.
Durante muitos anos, não sentiu urgência em pedir nacionalidade. Até ao dia em que atravessou de autocarro a fronteira entre Espanha e França. A polícia recolheu apenas o documento português de uma sobrinha de 7 anos. Os restantes foram devolvidos sem sequer serem verificados. Naquele momento, sentiu-se humilhada. Era como se, perante as autoridades europeias, a criança fosse a responsável pelos adultos, por ter a identidade portuguesa. Na semana seguinte, iniciou o processo de obtenção da nacionalidade.
Como nas travessias descritas por Paul Gilroy, estas histórias de diáspora não falam apenas de deslocação geográfica, mas de pertença suspensa, de vidas inteiras feitas entre mundos. À espera de uma identidade que reconheça no papel o que viveram durante décadas.
Números da imigração
O retrato demográfico de Portugal alterou-se profundamente na última década. O País que, durante décadas, foi de emigrantes consolidou-se como um destino central de fixação, embora a burocracia nem sempre acompanhe o ritmo da integração real
1,54 milhões Imigrantes em Portugal É o número recorde de cidadãos estrangeiros com residência oficial em Portugal (dados de dezembro de 2024). Este valor representa cerca de 15% da população total residente no País.
30% São oriundos do Brasil Os brasileiros são, de longe, a primeira nacionalidade entre os imigrantes a viver e Portugal. Seguem-se Índia, Angola, Ucrânia e Cabo Verde.
4,8% População descendente de imigrantes Em 2022, de acordo com o INE, 4,8% da população era descendente de imigrantes, sendo que a esmagadora maioria, 87%, tinha pelo menos um dos progenitores nascidonum país da União Europeia, incluindo Portugal.
32,6% Dos imigrantes com Ensino Superior Também em 2022, segundo o INE, a população imigrante era mais escolarizada do que a restante, sendo que nesta apenas 23,8% tinham o Ensino Superior.
“A dualidade de estatuto reforçou o racismo e a discriminação”
O investigador Nuno Domingos recorda o Estatuto do Indígena do tempo colonial, uma segunda classe de cidadãos de um mesmo país
Entre a herança da ditadura e as tensões da modernidade, o passado colonial projeta sombras sobre o Portugal de hoje. Nesta breve análise de Nuno Domingos, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, doutorado em Antropologia Social pela School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, exploramos como o antigo Estatuto do Indígena criou abismos sociais e se as marcas dessa cidadania de segunda classe ainda ecoam na forma como o Estado lida com as suas periferias e populações imigrantes.
Que ligações encontra entre o Estatuto do Indígena e o bilhete de identidade azul? Existe alguma comparação possível? Os equivalentes históricos entre a situação das populações com o Estatuto do Indígena no período colonial e a dos imigrantes no Portugal contemporâneo possuem limites, devendo ser utilizados com rigor, sob o risco de relativizarem o grau de violência colonial gerida pela ditadura. É evidente, no entanto, que uma abordagem comparativa suscita interrogações acerca de um conjunto de continuidades políticas e sociais.
O que definiu a relação das populações africanas com o Estado no século XX? No tempo colonial, o Estatuto do Indígena, partilhado pela grande maioria das populações de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, desde o segundo quarto do século XX, legitimou uma cidadania dual, que marcou a relação dos africanos com o Estado e a sociedade.
Como é que a desigualdade do Estatuto do Indígena impactou o trabalho e a cultura? Esta desigualdade manifestou-se em várias dimensões da vida quotidiana. Ela legitimou o recurso a formas coercivas de recrutamento laboral e a perseguição e a punição de quem se escusava a essa obrigação, destruindo tradições e modos de vida locais.
Qual foi o impacto da dualidade de cidadania no tecido sociale no racismo? A mesma dualidade reforçou o racismo e a discriminação, tanto no mundo rural como nos espaços urbanos. Nas cidades, os africanos, mão de obra fundamental para o funcionamento da sociedade colonial, foram remetidos para periferias racialmente segregadas e progressivamente sobrelotadas.
Quais eram as condições de sobrevivência nas periferias urbanas sob administração colonial? Sujeitas a cheias, a fogos e a doenças, vigiadas nos seus movimentos pelas forças policiais, as populações procuraram construir as suas vidas perante a negligência e o desinteresse da administração em lhes facultar condições de vida básicas.
A tempestade destruidora aproxima-se do Irão. Dois porta-aviões e os seus grupos de combate, juntamente com as bases americanas na região, conferem a Trump um peso avassalador nas exigências que dirige ao regime de Teerão. A Guarda da Revolução e o líder religioso lançam as suas bravatas, mas o ministro dos Negócios Estrangeiros já demonstrou abertura e disposição para negociar com a Casa Branca.
O Irão não é a Venezuela, em termos militares, mas a degradação do poder teocrático torna-se evidente pela brutalidade que empregou na repressão dos manifestantes contra as condições de vida no país. O velho Khamenei já só prega aos beneficiários do sistema, marcado por décadas de isolacionismo. A exceção, agora, é a aproximação à Rússia e a troca de drones por bens essenciais — mas isso representa uma ajuda ínfima numa economia fechada.
Com 93 milhões de habitantes e uma idade média de 35 anos — quase 70% da população tem entre 15 e 64 anos — o Irão está na fase de implosão. O rendimento per capita ronda os quatro mil dólares e a inflação atingiu os 44% em 2025, o que exerce uma pressão insustentável sobre o regime político. Os iranianos querem mudar, e os 30 mil manifestantes mortos são um sinal de desespero e de último recurso dos «revolucionários» do poder.
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Trump já garantiu que falará com Teerão, como fez com Maduro. Falta apenas saber com quem.
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