Ao décimo dia depois da madrugada fatal em que a tempestade Kristin varreu Portugal, Luís Montenegro veio fazer a sua terceira declaração ao País tentando recuperar de dez dias terríveis que deixaram o Governo à deriva no meio da borrasca, perdido entre a incompetência, a propaganda atrevida e a gestão caótica da emergência.
Desta vez, já não disse que ainda era necessário avaliar a situação, quando um milhão de portugueses estava às escuras, sem água nem comunicações, como fez no primeiro dia à porta da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, e já não despejou arrogância política e milhões de euros sobre a situação de calamidade declarada a contragosto, como fez no domingo, ao quinto dia, no final do Conselho de Ministros extraordinário.
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Agora tentou ser empático, admitiu que vai ser necessário avaliar o que correu “menos bem” na resposta inicial do Governo e tentou convencer os portugueses de que, ao contrário do que dissera o ministro da Economia e da Coesão Territorial, as medidas de apoio anunciadas já estão mesmo a funcionar. Finalmente, para surpresa geral, até aceitou responder a questões dos jornalistas que lhe permitiram distanciar-se da tentativa de “golpe constitucional” engendrada pelo candidato Ventura para tentar adiar as eleições de domingo.
A gestão dos 10 dias desta tempestade pelo Governo de Montenegro leva-nos a pensar em como fomos afortunados em não ter esta gente ao leme do Estado durante a pandemia da Covid-19.
O Governo, que nada fez pela antecipação de riscos da previamente anunciada “ciclogénese explosiva”, que levou mais de 24 horas para declarar o Estado de Calamidade nas zonas atingidas, que tentou iludir o desaparecimento do comando operacional da crise pelo MAI com a propaganda de Leitão Amaro e que disse aos portugueses sem casa nem trabalho, pela voz de Castro Almeida, que tinham de se aguentar até ao fim do mês com o ordenado de janeiro, está agora a tentar a “remontada” dos autogolos que sofreu.
As medidas anunciadas, e a capacidade de concretização das mesmas em prazo curto, são uma verdadeira corrida contra o tempo de um Governo que arrisca a total degradação da sua credibilidade, quando ainda não recuperou dos 11% do seu candidato na primeira volta das eleições presidenciais.
As medidas para combater o impacto do mau tempo numa vasta área de 68 municípios abrangidos pela declaração de calamidade, com cerca de 1,8 milhões de habitantes (17% da população portuguesa), são uma mescla de soluções testadas durante a pandemia, pouco investimento público, apoio limitado às famílias desalojadas e muito endividamento para as empresas.
Se são pacíficas e oportunas medidas como as moratórias fiscais ou de empréstimos, bem como o recurso ao lay-off, já os 10 mil euros como apoio máximo dado aos proprietários de casa própria são uma solução que pretende ser “baratinha” para chegar a muitos beneficiários, mas que não permite reabilitar habitações destruídas ou gravemente danificadas.
Igualmente os 400 milhões de euros para a recuperação de estradas e ferrovias, os 250 milhões para recuperação de escolas e de equipamentos municipais ou os 40 milhões para recuperação de património e de equipamentos culturais, parecem uma promessa modesta de investimento público face à dimensão da devastação.
Finalmente, a parte de leão das medidas, que é destinada às empresas, parece ser uma mão cheia de quase nada para uma zona com contributo muito forte para as exportações de bens. O CEO do banco Santander veio já dizer que “uma empresa com as infraestruturas muito destruídas não conseguirá pôr-se de pé com mais crédito e moratórias”, e que será necessário ir além do prometido nos apoios a fundo perdido.
A grande medida, que vale 60% do chamado “maior pacote de apoios de sempre”, consiste em mil milhões de euros de empréstimos a 10 anos para a recuperação e reconstrução de empresas destruídas e 500 milhões de euros de endividamento a 5 anos para apoios à tesouraria.
Considerando que muitos dos apoios simplificados às zonas atingidas pelos incêndios do verão passado, tão anunciados na altura por Castro Almeida e José Manuel Fernandes, ainda estão por pagar, compreendem-se as reservas dos alagados e destelhados beneficiários deste pacote que mereceu tão extremosos autoelogios de Luís Montenegro.
Pelas reservas bem fundadas, dada a vacuidade de muitas das medidas proclamadas, face à dimensão da onda de devastação ainda em fase de propagação, e à desfaçatez das recomendações sobre a gestão da economia doméstica das vítimas, o “ministro dos apoios”, Castro Almeida, merece o prémio Laranja sem Sumo dos dias entre Kristin e Leonardo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
No próximo domingo, Portugal não escolhe apenas um novo Presidente da República. Decide, em rigor, que ideia de democracia pretende reafirmar num tempo em que ela é testada em múltiplas latitudes. A segunda volta das eleições presidenciais coloca o País perante dois projetos antagónicos, duas conceções de poder e duas formas irreconciliáveis de entender o papel do Estado, das instituições e da própria comunidade nacional.
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Tudo aponta — à luz das sondagens, da redistribuição do voto da primeira volta e da dinâmica política entretanto consolidada — para que António José Seguro entre na reta final como favorito inequívoco, com uma margem confortável e politicamente expressiva.
Essa posição de vantagem não é fortuita nem resulta de mero cálculo tático. É fruto de uma conjugação de fatores políticos, sociais e simbólicos que se foram acumulando ao longo da campanha. Seguro conseguiu afirmar-se como o rosto da estabilidade democrática, do equilíbrio institucional e da responsabilidade republicana, num contexto marcado pela ansiedade coletiva, pela fadiga do debate público e pela tentação de soluções simplistas para problemas estruturalmente complexos. Numa eleição presidencial — que exige ponderação, autoridade moral e sentido de Estado — essa diferença pesa mais do que qualquer artifício retórico momentâneo.
Em sentido oposto surge André Ventura, figura central do processo de radicalização política em Portugal na última década. A sua candidatura assenta num discurso de confronto permanente, numa lógica de antagonismo social e numa narrativa redutora que frequentemente confunde indignação legítima com distorção da realidade. Ventura capitalizou frustrações reais — insegurança, desigualdades, descrédito das elites — mas fê-lo recorrendo a falácias persistentes, incoerências evidentes e propostas que raramente resistem a um escrutínio rigoroso.
Uma das incongruências mais profundas da sua candidatura reside na forma como se apresenta simultaneamente como “anti-sistema” e como defensor de um poder presidencial hipertrofiado, quase messiânico, em clara tensão com a Constituição. Denuncia as instituições, mas exige delas autoridade absoluta; critica a “classe política”, mas reivindica para si um protagonismo personalista; invoca a lei e a ordem, mas relativiza princípios democráticos sempre que estes se tornam incómodos. Esta ambivalência não é ocasional — é estrutural ao populismo.
Ao longo da campanha, tornou-se igualmente visível a fragilidade do seu corpo programático. Perante questões concretas — da política externa à coesão social, da justiça à economia — o discurso oscilou entre generalidades, culpabilização difusa e apelos emocionais. Num momento em que Portugal enfrenta desafios exigentes, da pressão sobre o Estado social à instabilidade internacional, essa inconsistência não tranquiliza um eleitorado que procura segurança, previsibilidade e liderança serena.
António José Seguro apresentou-se, pelo contrário, como um candidato de recomposição democrática. Sem apagar divergências nem diluir diferenças, recusou transformar adversários em inimigos e desacordos políticos em guerras culturais. O seu discurso foi menos estridente, mas mais consistente; menos inflamado, mas mais credível. Ao congregar apoios que atravessam a esquerda moderada, o centro político e setores da direita democrática, tornou-se o ponto de convergência de um eleitorado plural que partilha uma linha vermelha comum: a defesa do Estado de direito, da democracia plural e do respeito institucional.
É por isso que esta eleição ultrapassa largamente a lógica partidária. A provável vitória de Seguro não será apenas a vitória de um candidato, mas uma afirmação coletiva de maturidade democrática. Num contexto europeu em que forças extremistas crescem alimentadas pelo medo, pela desinformação e pelo ressentimento, Portugal emite um sinal claro: o descontentamento não tem de desembocar na erosão das instituições.
No domingo, os portugueses não estarão apenas a escolher quem ocupará o Palácio de Belém. Estarão a decidir se a Presidência da República deve continuar a ser um pilar de contenção democrática ou transformar-se num palco de conflito permanente; se querem um Presidente que arbitre, una e represente, ou alguém que explore divisões e tensione deliberadamente os limites do regime.
A escolha é clara: entre a política como exercício de responsabilidade e a política como espetáculo de confronto, entre a autoridade serena das instituições e a tentação do ruído permanente, entre a democracia vivida como construção coletiva e a sua instrumentalização ao serviço do ressentimento.
Tudo indica que Portugal fará uma opção consciente pela solidez democrática. A esperada vitória de António José Seguro não representará apenas um desfecho eleitoral, mas a reafirmação de um princípio essencial: o de que a democracia se defende com rigor, maturidade e respeito pelo Estado de direito, não com simplificações agressivas nem com promessas vazias de força.
Num tempo em que demasiadas democracias cedem à erosão interna, Portugal tem a oportunidade de afirmar, com sobriedade e firmeza, que não abdica dos seus fundamentos. Se assim for, o desfecho de domingo não será apenas eleitoral: será a confirmação de que a democracia portuguesa continua capaz de se defender.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Como dizê-lo? No próximo Domingo as pessoas vão escolher um Presidente da República, mas, na realidade, não vão. Reformulo: vão, sim. Vão escolher. Mas não um Presidente: vão escolher um André Ventura. Votando contra ou a favor, com entusiasmo ou com engulhos morais, é sempre ele o vencedor. — “Como assim?”, interrogar-se-á o leitor, com a natural incredulidade de quem ainda acredita que as eleições são lugar para o exercício do livre-arbítrio. Explico, pois, com a franqueza possível.
Nestas eleições não é preciso apresentar Ventura. Como sempre, ele está em todo o lado. E não é por falar alto — embora fale — mas porque tudo o resto fala em função dele. Desde que apareceu na cena política indígena, tornou-se no pivot inoportuno do sistema, aquele em torno do qual todos giram, mesmo que jurem o contrário. Nestas eleições tem sido exactamente assim. E assim será quer ganhe, quer perca. As coisas estão de tal modo organizadas que, mude-se o voto, mude-se o tom, mudem-se as alianças, o eixo permanece incorrupto.
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António José Seguro poderá vencer. É, aliás, o mais expectável. E haverá, sem dúvida, quem se dirija às urnas convicto de que Seguro — prudente e previsível — é, em si mesmo, o homem certo para o cargo. Mas a esmagadora maioria votará nele por outra razão — menos optimista, mas politicamente eficaz. Votar-se-á em Seguro não por força própria, nem por liderar um projecto mobilizador, mas por cumprir com exactidão a função específica de ser um André Ventura ao contrário. O Anti-Ventura não acrescenta uma ideia ao debate, limita-se a fechar uma hipótese e administrar os receios dos que nele votam. A sua candidatura serve apenas a tornar suportável o quadro existente, como quem abre uma janela. Percebo. Muitas vezes isso basta para a casa arejar.
Claro que isto é discutível. A democracia vive, em grande medida, do voto negativo. A maior parte dos meus votos foram votos desses, senão todos. Votar num mal menor, votar contra alguém, votar para impedir; tudo isso é legítimo, compreensível e, em certos momentos históricos, até virtuoso. O problema não está aí, mas no ruído. Faz-se tanto, diz-se tanto, mobiliza-se tanto, assina-se tanto contra Ventura, que se acaba por lhe conceder exactamente a centralidade absoluta que ele procura para si e que os outros não querem para ele.
Eis o que quero dizer: Ventura não é apenas um candidato: é a condição de possibilidade destas eleições tal como estão montadas. E o único que o parece compreender na totalidade é o próprio.
Isto acontece por uma razão simples, que não tem tanto a ver com os eleitores como com a forma como as coisas estão feitas: Ventura é um homem do seu tempo. Como Robespierre foi do seu. Num quadro assim, agir contra alguém deixa de ser apenas oposição e passa a funcionar como forma de afirmação. Derrotar conta tanto — ou mais — do que propor. Percebo isso. Todos percebemos. O erro está noutro ponto: acreditar que a provável derrota de Ventura será uma derrota para Ventura. Não será. Pelo contrário: reforçá-lo-á. Porque se vota contra ele, se governa contra ele, se mobiliza contra ele; mesmo ausente da cruz, continua lá como critério decisivo.
Enquanto o eleitor for chamado a impedir Ventura, estas eleições estarão armadilhadas. Por isso, os únicos que não votam nele são os que não votam de todo. A abstenção é neste caso a única recusa efectiva do mecanismo. Pode haver quem vote em branco, mas não interfere com a engrenagem. Tem graça: quem vê em Ventura a negação da democracia só o pode combater fazendo o que fazem os cidadãos de regimes autoritários: ficando em casa.
O problema não é André Ventura dominar o debate. O problema é ninguém aceitar disputar o terreno fora dele. Enquanto assim for, quaisquer eleições nestes moldes não serão um confronto ideológico, mas um exercício de contenção. Quem ganha fá-lo por reacção, quem perde sai legitimado pela centralidade que lhe foi concedida, e quem escolhe fá-lo sempre em função do mesmo nome. A democracia cumpre-se, o ritual é respeitado, o vencedor é proclamado e, no fim, Ventura volta a vencer. Independentemente dos resultados.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa. Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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Como é que se deve classificar a depressão Kristin no contexto da história meteorológica portuguesa: como um fenómeno raro, semelhante ao ciclone de 1941, ou como algo para o qual devemos preparar-nos com maior frequência?
É fundamental contextualizar devidamente os dois eventos. O ciclone de 14/15 de fevereiro de 1941 ocorreu numa época em que Portugal dispunha de poucas estações meteorológicas, quase todas nas principais cidades, e não existiam imagens de radar ou satélite. Os equipamentos da época tinham margens de erro significativamente superiores às atuais. Apesar disso, sabemos que em 1941 foram registadas rajadas de vento extremamente fortes: 129 km/h em Lisboa, 133 km/h em Coimbra e 167 km/h no Porto, sendo que, neste último caso, o anemómetro foi destruído pela força do vento, o que sugere valores possivelmente ainda superiores.
No caso da tempestade Kristin, já é claro que os valores registados foram muito superiores aos de 1941, com rajadas acima dos 200 km/h observadas na rede oficial.
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É importante recordar que, em 1941, a devastação foi muito significativa e o número de vítimas mortais bastante elevado. No entanto, a maior parte da população vivia em condições habitacionais extremamente precárias, o que contribuiu para um nível de destruição muito maior.
A verdade é que fenómenos meteorológicos de grande intensidade, incluindo episódios de ciclogénese explosiva, parecem estar a tornar-se mais frequentes na Península Ibérica: Hortensia em 1984, Klaus em 2009, Xynthia em 2010, Gong em 2013, Leslie em 2018, Alpha em 2020, Martinho em 2025 e, mais recentemente, Kristin em 2026. Estes fenómenos evidenciam um padrão crescente de tempestades mais frequentes e intensas, em consonância com as projeções científicas que há décadas, e alertam para o aumento da instabilidade atmosférica associado às alterações climáticas.
Faz sentido continuar, nas informações públicas, a classificar estes fenómenos como “depressões”? Não seria mais útil usar terminologias correntes nos países e regiões que mais são afetados por estes acontecimentos, como furacão, tufão ou ciclone – mesmo que possam não ser as rigorosamente mais corretas? Isso teria ou não maior impacto na preparação das pessoas para enfrentar o perigo que se aproxima?
Faz todo o sentido continuar a classificar como depressões. Um furacão e um tufão são fenómenos completamente diferentes desde a sua génese, da sua origem, e são terminologias específicas das regiões onde ocorrem. Embora o termo ciclone possa parecer mais impactante, na verdade é um mero sinónimo de depressão. Todas as depressões são ciclones.
As tempestades passaram a ser nomeadas com um objetivo simples: proteger melhor as pessoas. Dar um nome a um fenómeno meteorológico significativo facilita a comunicação entre autoridades, média e população. Um nome curto e distinto, como Leslie ou Kristin, permite que a mensagem chegue mais depressa e com maior clareza.
Esta prática melhora a perceção de risco, ajuda a evitar confusões entre diferentes sistemas atmosféricos que ocorrem em simultâneo e torna mais eficaz a emissão de avisos pelo IPMA e alertas pela ANEPC. Além disso, contribui para uma coordenação internacional mais eficiente, já que os serviços meteorológicos europeus seguem critérios comuns para nomear tempestades com impacto relevante.
Na vossa página, alertaram com bastante antecedência para a ocorrência de ventos superiores a 140 km/hora, à semelhança do que fez também o IPMA. Houve ou não tempo para que as autoridades emitissem avisos mais “sonoros” nas regiões com maior probabilidade de serem atingidas, de forma a que as pessoas tivessem tomado medidas de proteção de casas e estabelecimentos?
Houve tempo, mas creio que faltou coragem para assumir que o cenário mais gravoso poderia mesmo acontecer, de forma clara e transparente para a população. O IPMA, por norma, tem uma postura conservadora. Basta recordar que, horas antes do evento, os avisos “apenas” mencionavam rajadas de 140 a 160 km/h, quando na verdade houve rajadas bem superiores, em linha com o que realmente mostravam os modelos nos seus cenários mais gravosos: 208.8 km/h em Soure.
Os modelos de referência do IPMA, nomeadamente o AROME e o ECMWF, já projetavam, com bastante antecedência, os cenários que infelizmente vieram a concretizar-se. A principal incerteza até ao último momento era o ponto exato de entrada do sting jet, a faixa de ventos extremos. Ainda assim, mesmo nesse detalhe os modelos revelaram-se consistentes, situando a zona crítica entre Aveiro e Peniche.
Não estou certo de que avisos mais “sonoros” teriam feito grande diferença. Em Portugal, não existe uma verdadeira cultura de prevenção, e o próprio sistema de avisos meteorológicos encontra-se desatualizado e descontextualizado. As pessoas não percebem a sua lógica e, por isso, não lhe atribuem a devida importância.
O problema agrava-se quando a base de todo o sistema de proteção civil assenta em avisos num mapa administrativo aplicado à meteorologia, como se fosse possível e aceitável delimitar fenómenos atmosféricos por fronteiras dos antigos distritos. O resultado é inevitável: o sistema não funciona como deveria e leva a população a desvalorizar os avisos, mesmo quando estes antecipam fenómenos de elevada perigosidade.
Têm criticado a ausência de boletins meteorológicos autênticos na comunicação social portuguesa. Porquê? De que modo consideram que isso ajudaria as populações a prepararem-se melhor para os fenómenos extremos cada vez mais frequentes?
Os boletins meteorológicos televisivos desempenham um papel essencial numa sociedade moderna. Devem ser ferramentas estratégicas para cultivar a prevenção, reforçar a literacia climática e aproximar os cidadãos da realidade meteorológica e climática que os afeta.
Em Espanha, os principais canais generalistas dedicam tempo, recursos e profissionalismo aos seus espaços meteorológicos, transformando-os em produtos televisivos de elevada qualidade. Os estúdios são visualmente apelativos, tecnologicamente avançados e os meteorologistas apresentam-se como excelentes comunicadores, claros, credíveis, pedagógicos e próximos do público. O resultado está à vista: excelentes audiências, forte valorização do tema e uma população mais informada e mais consciente dos riscos naturais. Estes programas funcionam como um serviço público real, explicam fenómenos, contextualizam alertas, interpretam mapas e ajudam as pessoas a perceber como podem proteger-se. Criam cultura de prevenção, criam hábitos, criam consciência social.
Infelizmente, em Portugal, este reconhecimento continua por acontecer. Não se compreende como, em décadas de televisão moderna, nenhum diretor de informação tenha dado à meteorologia o protagonismo que ela merece, sobretudo num país cada vez mais exposto a fenómenos extremos, tempestades violentas, ondas de calor, secas prolongadas, precipitação intensa e incêndios rurais.
A meteorologia televisiva poderia e deveria ser uma das maiores ferramentas nacionais de educação climática. Um boletim bem produzido informa, mas também educa; alerta, mas também explica; previne, mas também responsabiliza. A meteorologia não é um espaço acessório, é um serviço essencial à sociedade, e quanto mais tarde se perceber isto, maior será o preço a pagar.
Se tivessem poder de decisão, o que mudariam na informação meteorológica oficial em Portugal? E nos avisos da proteção civil?
Mudaria muita coisa. O IPMA, apesar de contar com alguns dos melhores especialistas, não tem conseguido capitalizar devidamente os recursos de excelência que possui. A comunicação permanece difícil, pouco ágil e muito distante daquilo que hoje se exige a uma entidade que desempenha um papel crítico na proteção das populações.
A diferença torna-se evidente quando comparamos o IPMA com organismos como o MetOffice britânico ou, até mesmo, com entidades regionais espanholas como a MeteoGalicia, cuja presença nas redes sociais é incomparavelmente mais eficaz. Enquanto os nossos vizinhos comunicam de forma moderna, direta, visualmente apelativa e pedagógica, o IPMA mantém um modelo de comunicação que parece não reconhecer a urgência e o impacto que a meteorologia tem na vida das pessoas.
Isto é especialmente grave numa época em que as redes sociais conectam milhões de cidadãos instantaneamente, e em que a informação está sempre a um clique de distância. Se a instituição não comunica bem, não chega às pessoas e se não chega às pessoas, falha na sua missão de serviço público.
O próprio site do IPMA é um exemplo disso. Praticamente não sofreu atualizações significativas nas últimas décadas: é pesado, pouco intuitivo e, apesar de ser muito consultado pela população, grande parte dos utilizadores não consegue explorar funcionalidades e dados importantes para a gestão do seu dia a dia.
É urgente rever toda a lógica de apresentação da informação, abandonar mapas distritais e ícones excessivamente simplificados, apostar em mais detalhe, maior proximidade e previsões georreferenciadas. Afinal, não faz sentido que alguém que vive em Barrancos receba notificações de temporal marítimo associadas ao distrito de Beja, avisos que só fazem sentido na costa alentejana, ou que Guarda e Castelo Branco estejam quase sempre em aviso de neve quando o fenómeno se restringe, na prática, a uma pequena área da serra da Estrela. É um sistema que não reflete a realidade meteorológica do País e que, por isso, gera ruído em vez de criar confiança.
Quanto aos alertas da ANEPC, o problema é semelhante: as mensagens não podem ser iguais para todo o território, porque os riscos e os impactos não são uniformes. A informação deveria ser mais detalhada, mais contextualizada e mais proporcional ao risco real. Basta recordar que se um aviso vermelho significa risco de vida, a mensagem deve dizê-lo claramente, para que quem a recebe perceba que está perante algo verdadeiramente sério.
Portugal precisa de um salto qualitativo na comunicação do risco meteorológico. Temos competência técnica, conhecimento científico e profissionais de alto nível, falta apenas que as instituições assumam que comunicar bem não é um detalhe: é parte fundamental da missão de proteger.
Um chapéu de chuva transparente, com uma vareta partida. Os prédios desfocados pela chuva, através do plástico. A imagem entrou-me nas mensagens e fiquei a olhar para ela. “O teu velhinho chapéu de chuva hoje voltou a dar jeito, mas a Ingrid deu conta dele. Reciclei-o no ecoponto amarelo, proferindo algumas palavras.” Já não me lembrava daquele chapéu de chuva nem de o ter deixado com alguém. Fiquei a olhar para a mensagem, tentando recordar-me daquele objeto e das circunstâncias em que o deixei para trás, esquecendo-o para sempre até uma tempestade o quebrar e eu ser, assim, notificada do fim de alguma coisa de que já não me lembrava. A velocidade das mensagens, das informações, das solicitações, arrasta-nos como ventos ciclónicos e erode a memória, pensei. Andamos soterrados em notificações, mensagens que treslemos, emails que apagamos com alívio e culpa, incapazes de responder a tudo, bloqueados pela ideia de que devíamos ir aonde não estamos, com a sensação constante de que estamos a perder alguma coisa.
Enquanto o vento e a chuva arrastavam carros, tombavam gruas, arrancavam as raízes das árvores, eu estava fechada num estúdio de televisão, a comentar o debate da segunda volta das presidenciais. Lá dentro, apenas uma chuva de picardias, palavras levadas pelo vento, aquecidas pelo sol intenso dos holofotes. Quando saí, encontrei à porta um bombeiro. Não podia ser bom sinal, brinquei. E não era, explicou-me. Mas eu cheguei a casa sem grandes sobressaltos e no scroll das minhas redes sociais, as únicas tempestades trazidas pelo algoritmo vinham das ruas de Minneapolis. Tinha o feed cheio das imagens de manifestantes, caminhando debaixo de neve, de crianças levadas pelo ICE (a polícia anti-imigração de Donald Trump), de todos os ângulos possíveis dos que caíram às mãos desses agentes. Mas nenhum sinal de que, muito mais perto de mim, o vento e a chuva arrasavam o País, deixando para trás um rasto de destruição e morte.
Foram precisas várias horas para entender. Leiria parecia “um cenário de guerra”, vi nas notícias, que iam mostrando partes do País alagado, automóveis virados ao contrário. E não era só em Leiria. Havia um homem morto em Vila Franca de Xira. Mais mortos noutros locais. Vários estragos em vários pontos daquilo a que em tempos algum político se lembrou de chamar “o País real”, esse cenário inventado para dar autenticidade à tentativa plástica de se mostrar próximo daquilo que se desconhece.
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Fui, então, à procura desse “País real”, devastado por tempestades sucessivas de nomes estrangeiros, que antigamente eram só mau tempo e agora são depressões ou uma “ciclogénese explosiva”. Pôr nomes nas coisas costuma ser uma forma de nos dar a ilusão de as controlar, mas neste caso parece que só serve para as tornar uma força maior do que nós. A Kristin, a Ingrid e o Joseph estão no Olimpo lançando raios sobre as nossas cabeças.
Dizia que fui à procura do País real. Mas foi pelo Google, claro. O que é que me apareceu? Notícias, muitas delas naquelas fiadas contínuas, que os sites agora dizem ser “ao minuto”, onde tudo parece que está a acontecer ao mesmo tempo, mas não se percebe o que é mais importante e temos a sensação de que rapidamente tudo ficará engolido pela amnésia da internet, incapaz de deixar marca, um título que seja, que daqui a uns meses nos ajude a lembrar o que aconteceu. Também encontrei fotografias, muitas delas assinadas por pessoas que as tiraram com os telefones e as enviaram para as redações.
“A bolha mediática”, como dizem alguns com escárnio, foi a que me permitiu inteirar-me do que tinha acontecido. E onde encontrei um texto da Paula Sofia Luz, no Público, que resume na primeira pessoa o inferno de uma noite de impotência, que é só mais uma num rol de tragédias que, de vez em quando, assolam o País. “Às 3 da manhã a chuva em Pombal era tão intensa que me trouxe à memória a enxurrada de 2006, quando aqui percebemos que, afinal, o nosso maior medo só era o fogo até percebermos o quanto pode a água. Sabemos agora que é o vento, afinal, o mais perigoso.” Nas redes sociais, a bolha do algoritmo tornou para mim tudo o que se estava a passar a poucas centenas de quilómetros num ângulo morto. Nas minhas redes sociais, não tinha acontecido nada.
Os políticos foram aparecendo. Os de Lisboa quase a medo, pedindo que não houvesse precipitações. Os do terreno lançando as mãos à cabeça. “A nossa vida, a partir de hoje, mudou durante os próximos meses”, disse o presidente da Câmara Municipal de Leiria (por acaso, eleito pelo PS), apelando, a “um sentimento solidário” da comunidade, numa notícia da Lusa. Quantas vezes “a nossa vida mudou”? Quantas vezes passámos nos últimos anos por “tragédias” que só podemos lamentar? A quantas famílias enlutadas vimos políticos solenes enviar “sentidos pêsames”?
E quantas vezes será preciso que aconteça para que se perceba que a construção de uma comunidade não devia fazer-se em cima de um “sentimento solidário”? Os sentimentos, caros políticos, podem ficar para as nossas vidas privadas e a solidariedade é uma opção. A construção de soluções comuns não devia ser opcional. Devia ser a base de tudo. Porque quando o fogo arrasa as terras, quando a água inunda as casas, quando o vento leva tudo à frente, percebemos que o que nos faz renascer das cinzas, o que nos enxuga as inundações, o que nos prende ao chão e nos dá teto são as soluções coletivas que formos capazes de construir. Não é o cada um por si. Ninguém se lembra de chamar unicórnios, startups e empreendedores para ajudar. Ninguém se põe à porta das empresas a exigir que deem gratuitamente auxílio a alguém.
Houve um tempo em que quase toda a gente, da esquerda à direita, entendia isso. Agora, são capazes de começar a gritar que “vem aí o socialismo”, se lhes falarmos nisto. Mas só quando acabarem de gritar que “o Estado falhou” e que “o Estado tem de dar” isto e aquilo.
Quando pensamos em saúde, muitas vezes focamo-nos em questões visíveis como movimento, coração, alimentação ou função pulmonar. No entanto, existe um sentido tão importante quanto silencioso, e frequentemente esquecido, que implica contacto com o mundo à nossa volta: a audição. A perda auditiva é uma condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e tem um impacto profundo na qualidade de vida, nas relações sociais, no desempenho profissional e no bem-estar emocional. É precisamente para dar voz a esta causa que surge, entre 16 e 21 de fevereiro de 2026, a Semana do Som – Portugal 2026, uma iniciativa inédita em Portugal promovida pela OUVIR – Associação Portuguesa de Portadores de Próteses e Implantes Auditivos, em colaboração com a UNESCO e a iniciativa global La Semaine du Son.
Ao longo de seis dias, a Semana do Som convida a sociedade portuguesa e internacional a refletir sobre a importância do som na nossa vida — não apenas enquanto fenómeno físico, mas também enquanto elemento cultural, educativo, social e de saúde pública. A iniciativa é um apelo à inclusão, à consciencialização e à prevenção, e sublinha a necessidade de repensar as políticas, as práticas profissionais e as atitudes individuais em relação à forma como produzimos e experienciamos o som no quotidiano.
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Missão e objetivos:
A Semana do Som tem uma missão clara: promover a saúde auditiva, aumentar a literacia sobre os efeitos do som e do ruído na saúde e no bem-estar, reforçar a inclusão das pessoas com deficiência auditiva e estimular a cooperação intersectorial entre profissionais de saúde, educação, cultura, ciência, decisores políticos e cidadãos.
Entre os seus principais objetivos destacam-se:
Promover a prevenção e o diagnóstico precoce das perdas auditivas, através da educação e da divulgação de boas práticas de escuta;
Debater o impacto do som e do ruído na saúde física e mental, incluindo a relação com o stress, a segurança e a qualidade de vida;
Valorizar a acessibilidade e a inclusão de pessoas surdas ou com perda auditiva em ambientes educativos, profissionais, culturais e sociais;
Estimular a cooperação entre setores e reforçar políticas públicas que integrem a audição como um componente essencial da saúde geral.
Programa detalhado:
A Semana do Som decorre em várias cidades portuguesas, cada uma com iniciativas próprias que combinam cultura, ciência e prática comunitária:
16 de fevereiro – Braga | Lecture & Music Uma combinação de formação, conversa e música, com especialistas, profissionais e artistas locais.
18 de fevereiro – Porto | Lecture & Music (FNAC NorteShopping) Um encontro público que explora os “Prazeres da Música e da Audição”, complementado por uma performance musical.
19 de fevereiro – Coimbra | Lecture & Music Painéis de discussão sobre o silêncio na infância e na idade sénior, coordenados por especialistas de referência, e um concerto de encerramento com a Orquestra Clássica do Centro.
20 de fevereiro – Lisboa | Conferência Internacional (Centro Cultural de Belém) A Conferência Internacional reúne oradores nacionais e internacionais, profissionais de saúde auditiva, investigadores, decisores políticos e organizações profissionais, num espaço privilegiado de reflexão e partilha de conhecimento. O tema central, “Hearing Health, Inclusion and the Future of Accessible Societies”, aborda a saúde auditiva enquanto direito humano e condição essencial para uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
21 de fevereiro – Lisboa | Espetáculo de Música – Encerramento (Teatro Capitólio) Um concerto solidário que combina repertório clássico e contemporâneo com performances de artistas como o Almedina Ensemble, Gil Brito, Dinis Reis e convidados especiais. O espetáculo contará com legenda escrita em português e inglês, reforçando a acessibilidade cultural e social.
Uma chamada à ação
Mais do que um conjunto de eventos, a Semana do Som é um convite à reflexão profunda e à ação coletiva. Trata-se de um apelo para que a sociedade portuguesa — instituições, profissionais, famílias e cidadãos — comece a olhar para a audição não como um dado adquirido, mas como um componente essencial da saúde integral e da inclusão social.
No caso do espetáculo de música no Teatro Capitólio, a participação de públicos de todas as idades e origens é encorajada não apenas como assistentes, mas como agentes de mudança. A bilheteira está aberta a toda a comunidade, sendo que as receitas revertem a favor da associação promotora, contribuindo diretamente para as atividades de apoio à inclusão auditiva. Pode adquirir bilhetes aqui.
Toda a informação sobre a programação completa, locais, horários e parceiros pode ser encontrada no site oficial: https://weekofsoundportugal.com
Conclusão
No final das contas, a Semana do Som é muito mais do que um conjunto de conferências, concertos e palestras. É uma oportunidade para redefinir a nossa relação com o som, para proteger a audição nas diferentes fases da vida e para construir comunidades mais acessíveis, empáticas e saudáveis. Em tempos nos quais o ruído ambiental, o estilo de vida urbano e a música amplificada fazem parte do cotidiano, este evento surge como um lembrete de que ouvir bem é viver melhor — e que cada um de nós tem um papel a desempenhar nesse processo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
De acordo com o comandante nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre, que falava aos jornalistas numa conferencia de imprensa na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), em Carnaxide, Oeiras, a velocidade e a intensidade de aumento de caudal do rio Tejo não acontecia desta forma desde 1997.
“Desde 1997, aproximadamente, que não tínhamos um episódio destes na Bacia do Tejo e no Rio Tejo. E, portanto, isto implica cuidados por parte da população ribeirinha que estão habituados a este fenómeno, mas desde 1997 que não temos um fenómeno potencialmente com esta dimensão”, alertou.
De acordo com o responsável, o fenómeno é explicado, por um lado, pelo facto de as barragens espanholas de Alcântara e Cedilho estarem “a debitar caudais muito elevados no rio Tejo”, cerca de 7 mil metros cúbicos por segundo, e, por outro, as ocorrências para as bacias em Portugal, que poderão explicar caudais “na ordem dos 9 mil metros cúbicos por segundo”.
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“Aquilo que se recomenda a todos é, preventivamente, retirem as coisas das suas casas, coloquem-se em segurança, abandonem as casas, ou seja, vão para locais seguros sempre que possível. O comportamento seguro neste momento é crítico para que se possa passar por este episódio sem termos vítimas a lamentar”, disse o comandante nacional.
Mário Silvestre apontou que os efeitos expectáveis são inundações em zonas urbanas, cheias e deslizamentos de terras, além do piso escorregadio e formação de lençóis de água.
Com as inundações e os cursos de água há também objetos que são arrastados para as estradas, deixando, por isso, recomendações para os condutores.
“Se estiver a conduzir, não atravesse estradas inundadas. É crítico que não o façam. Pare em local seguro e elevado, longe das linhas de água, 30 centímetros de água para a maior parte dos veículos, é igual ao veículo ficar parado dentro de água por aspiração da mesma, e portanto isto coloca logo e de imediato as pessoas em risco”, alertou, acrescentando que se evitem tuneis, ribeiras e vales.
Recomendou igualmente que as pessoas se afastem de equipamentos elétricos e para que levem apenas o essencial no caso de terem de abandonar a habitação: “E quando falamos de essencial, falamos de coisas tão simples como pessoas que têm medicação associada à sua normalidade, que levem essa medicação com eles”.
Disse ainda que as crianças devem ser afastadas das linhas de água, recomendou que se protejam os animais, colocando-os em zonas seguras e que as pessoas não se aproximem de zonas de risco para fotografar ou filmar a subida da água, sobretudo nas zonas de largadas das barragens.
A missão abrangeu os rios Sado, Tejo e Mondego, bem como a faixa costeira nacional mais afetada, e contou com dois helicópteros AW119 Koala e de um avião P-3C CUP+, “meios que têm permitido a recolha de informação situacional relevante, nomeadamente no que respeita a danos em infraestruturas, identificação de cheias e deteção de zonas ou populações em risco, informação essa partilhada com as entidades competentes de forma a apoiar na tomada de decisão”, destaca a Força Aérea.
No âmbito da resposta a este evento meteorológico, a Força Aérea elevou o dispositivo de alerta para mais do dobro, assegurando aeronaves prontas a descolar para missões de reconhecimento visual, transporte aéreo, busca e salvamento, entre outras.
O ódio é um discurso fácil: não exige escuta, não pede paciência, não constrói pontes — apenas muros e inimigos. Mas quando a tempestade Kristin varreu o Pinhal de Leiria e deixou casas sem teto e almas sem chão, o País revelou a sua verdadeira geografia: não a dos mapas partidários, mas a dos corpos que se aproximam sem perguntar a cor do passaporte, a dos braços que se cruzam para erguer o que caiu. A unidade não é consenso — é a coragem de permanecer humano quando tudo desaba.
“Nem amar, nem odiar: eis a metade de toda a sabedoria. Não dizer nada e não crer em nada: eis a outra.” A frase, atribuída a Schopenhauer, paira como um enigma. E, no entanto, há nela um perigo subtil: a tentação da indiferença como refúgio. Schopenhauer, na verdade, jamais defendeu a anestesia moral. Ao contrário — na sua “Ética”, é a Mitleid, a compaixão, o único sentimento que nos redime da voragem da vontade cega. Não é na ausência de afeto que reside a sabedoria, mas na sua purificação: amar sem possessão, compreender sem julgamento, agir sem ódio.
É precisamente esse equívoco — transformar a serenidade em indiferença, a prudência em cinismo — que alimenta hoje os discursos da desunião. A extrema-direita não propõe ideias; oferece ressentimento embrulhado em bandeira. Não constrói projetos; erige muros de medo entre vizinhos, entre gerações, entre amigos e famílias, entre quem nasceu aqui e quem aqui chegou para ficar. O seu discurso não é de força, mas de fragilidade mascarada: a raiva como substituto da argumentação, o insulto como arma contra a complexidade do mundo, a segregação como resposta à incerteza.
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No final de janeiro e início de fevereiro, quando a tempestade Kristin varreu o centro do País com ventos de furacão, Leiria e a Marinha Grande acordaram transformadas num cenário de guerra: árvores arrancadas pela raiz, telhados desfeitos, o Pinhal de Leiria novamente irreconhecível, habitações e indústrias destruídas.
Mas nas horas seguintes, algo de raro aconteceu: sem esperar por ordens, os vizinhos saíram às ruas com motosserras para desimpedir vias; jovens universitários organizaram recolhas de bens essenciais; empresários locais montaram piquetes não para proteger propriedade, mas para garantir que ninguém ficasse isolado; militares e mais de duzentas viaturas foram destacados para apoiar populações, lado a lado com voluntários anónimos. A CNIS apelou à “mobilização solidária” e o País respondeu — porque, nas tempestades, descobrimos que não há “nós” e “eles”, apenas corpos a partilhar o mesmo frio, as mesmas mãos a erguer o que caiu.
Rui Tavares Guedes escreveu no editorial da VISÃO (Edição 1718), com a clareza de quem conhece a História portuguesa nas suas cicatrizes e nas suas luzes: “Essa deve ser uma lição para a decisão eleitoral de domingo: o País é melhor quando está unido.” Não fala de unanimidade — essa ilusão totalitária. Fala da unidade como tecido vivo: diverso, por vezes discordante, mas entrelaçado pela consciência de que partilhamos o mesmo chão, o mesmo futuro, a mesma responsabilidade. Portugal soube-o em 1974, quando a revolução se fez sem guilhotinas; soube-o na Troika, quando a solidariedade familiar impediu o colapso social; sabe-o hoje, nas escolas onde crianças de vinte ou mais nacionalidades aprendem a soletrar “amanhã” na mesma língua.
A unidade não é passividade. É, antes, a coragem de escutar sem pré-julgamento — como ensinava Alain, filósofo que preferia perguntar a responder. É reconhecer que o outro não é uma ameaça, mas um espelho onde se reflete a nossa própria humanidade. O ódio, ao contrário, é sempre uma fuga: fuga da responsabilidade, fuga da complexidade, fuga do trabalho árduo de construir pontes em vez de muros.
Há uma beleza política que raramente se nomeia: a beleza da multidão unida sem ser uniforme. Não aquela que marcha ao som de um único tambor, mas a que avança em polifonia — operários e professores, jovens e idosos, crentes e ateus, filhos de imigrantes e netos de pescadores — todos tecendo, com gestos pequenos e decisões grandes, a teia social que nos sustenta. Essa teia não se rasga com gritos; rasga-se com silêncios cúmplices. E repara-se com palavras justas, com atos de justiça, com a coragem de escolher a esperança mesmo quando o medo bate à porta.
Dizia Espinosa que “um afeto só pode ser vencido por um afeto contrário mais forte”. O ódio não se combate com mais ódio. Combate-se com a teimosia da ternura coletiva — com a professora que permanece na escola pública, com o jovem que planta árvores sabendo que nunca se sentará à sua sombra, com o vizinho que partilha o pão sem perguntar a cor do passaporte.
Portugal é melhor quando está unido. Não porque todos pensem igual, mas porque todos se reconhecem como parte de um todo maior que si mesmos. A verdadeira sabedoria não está em não amar nem odiar. Está em amar com discernimento — e em recusar, com firmeza serena, quem transforma o ódio em programa.
Porque um povo dividido é fácil de dominar. Um povo unido — diverso, crítico, compassivo — é livre. E na liberdade, como bem soube Schopenhauer, apesar das más leituras, reside a única paz que vale a pena habitar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
Numa altura em que várias zonas de Portugal estão inundadas ou sob aviso elevado de inundações, a embaixada do Japão em Portugal oferece alguns conselhos práticos, fruto da experiência do país em desastres naturais. Um deles é inesperado: o calçado ideal nestas circunstâncias são ténis e não galochas: “Se a água entrar nas botas, estas tornam-se extremamente pesadas e dificultam a locomoção em caso de emergência”, lê-se na publicação, que acrescenta que os ténis garantem maior estabilidade e agilidade e devem ser usados bem ajustados ao pé.
E até quando é seguro andar dentro de água? “A regra de ouro é: evacue antes que a água chegue ao nível do joelho“. Quando a água atinge essa altura, a pressão da água torna quase impossível para um adulto caminhar contra a corrente, alerta a embaixada japonesa. Se esse limite for atingido dentro de casa, o conselho é que não se tente sair, mas antes procurar, nos casos em que isso é possível, o andar mais alto da casa; Se houver necessidade se atravessar uma zona inundada, a sugestão é usar um “terceiro pé” – um cabo de vassoura ou um guarda-chuva para sondar o chão à sua frente e assim evitar “armadilhas” potencialmente fatais, como tampas de esgoto abertas e invisíveis debaixo de água.
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Também para quem está na estrada os japoneses têm um conselho, lembrando que apenas 30 cm de água em movimento podem arrastar a maioria dos automóveis: “Se encontrar uma estrada inundada, não arrisque: volte atrás.”
Portugal continental está a ser afetado pela depressão Leonardo, prevendo-se até sábado chuva persistente e por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera.
Há uma semana o país foi atingido pela depressão Kristin, que atingiu sobretudo a região Centro e levou à morte de dez pessoas, à destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações.
Há ainda a registar centenas de feridos e desalojados.